Em clima pacífico, multidão lota praça central do Cairo

Protesto de sexta-feira na praça Tahrir, no Cairo (Reuters) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Manifestantes voltaram para as ruas sem relatos de violência

Protestos em massa tomam conta das principais cidades do Egito nesta sexta-feira sem relatos de violência, após o comando das Forças Armadas ter declarado que encerraria o estado de emergência que vigora no país há 30 anos assim que a “situação atual tiver terminado”.

Segundo várias emissoras de TV locais, não houve relatos de incidentes entre tropas do Exército e manifestantes, que exigem a renúncia do presidente Hosni Mubarak – no poder desde 1981.

Mubarak deixou a capital, Cairo, nesta sexta-feira, e viajou para resort de Sharm El-Sheikh, no Mar Vermelho, mas ainda não se sabe qual a razão da viagem.

A TV estatal anunciou que em breve a Presidência deve fazer um anúncio importante. Não está claro do que se trata.

Em comunicado divulgado após uma reunião na manhã desta sexta-feira, o Conselho Supremo do Exército disse que endossava a transferência de poderes de Mubarak ao vice-presidente Omar Suleiman, anunciada pelo presidente na quinta-feira.

As Forças Armadas disseram ainda que garantirão eleições livres e justas, mudanças constitucionais e a "proteção da nação".

A revogação do estado de emergência era uma das principais reivindicações da oposição.

Leia mais na BBC Brasil: Exército do Egito anuncia que revogará estado de emergência

Cartazes

Centenas de milhares de pessoas tomaram conta da Praça Tahrir, no centro do Cairo, e outros pontos da capital egípcia em rejeição à continuidade de Mubarak no poder.

Eles vêm protestando de forma ordenada, com palavras de ordem e ostentando cartazes e faixas contra Mubarak.

Os protestos voltaram com força depois do discurso de Mubarak da quinta-feira, no qual afirmou que permaneceria no poder até a eleição presidencial programada para setembro deste ano, o que decepcionou a multidão presente na praça.

Leia mais: Mubarak resiste a pressão e diz que fica no poder até eleições

Manifestações também vêm sendo registradas em outras grandes cidades do país, como Alexandria, Suez e Port Said.

Forças Armadas

As ruas do Cairo estão repletas de veículos blindados, tanques e tropas do Exército, mas relacionamento dos militares com os manifestantes continua amistoso.

Até então vistas com neutralidade na crise egípcia, as Forças Armadas passaram a ser alvo de críticas da oposição e antigovernistas.

Algumas vozes proeminentes dos grupos de oposição falaram que o Exército precisava ter uma posição mais clara e definida na crise política do país.

Nos protestos desta sexta-feira, além de gritar palavras de ordem contra o governo, os manifestantes também exigem do Exército uma intervenção para acelerar as reformas políticas no país.

Um dos líderes da oposição egípcia, Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz e ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), disse, na quinta-feira, em seu perfil no Twitter que ''o Egito vai explodir'' e que ''o Exército deve salvar o país imediatamente''.

Ele ainda acrescentou: ''Eu peço que o Exército egípcio interfira imediatamente para resgatar o Egito. A credibilidade do Exército está em jogo''.

'Farsa'

O grupo Irmandade Muçulmana qualificou o discurso de Mubarak como ''uma farsa''.

''Temos um presidente ilegítimo passando o poder para um vice-presidente ilegítimo'', afirmou Mohammed Abbas, que representa a ala jovem da Irmandade Muçulmana. ''Nós rejeitamos este discurso e pedimos a Mubarak que renuncie e que transfira seus poderes para o Exército''.

''Existe uma disputa de poder entre Mubarak e o Exército. Os egípcios confiam no Exército'', acrescentou.

Em seu comunicado divulgado após uma reunião na manhã desta sexta-feira, o Conselho Supremo do Exército disse que endossava a transferência de poderes anunciada pelo presidente Hosni Mubarak ao vice-presidente Omar Suleiman.

As Forças Armadas disseram ainda que garantirão eleições livres e justas, mudanças constitucionais e a "proteção da nação".

A revogação do estado de emergência era uma das principais reivindicações da oposição.

O comunicado do Conselho foi transmitido pela TV estatal egípcia, enquanto ativistas se reuniam em diversos pontos da capital, Cairo, para novos protestos contra o presidente.

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Image caption Manifestantes se reuniram em volta do prédio da TV estatal egípcia

Desde a madrugada desta sexta-feira, manifestantes começaram a se reunir em volta de prédios do governo, do Parlamento e da TV estatal, entre outros locais. Centenas de manifestantes formaram uma barreira humana em torno do edifício que abriga TVs e rádios estatais para impedir a entrada de funcionários.

Soldados com tanques que vigiavam a rua da TV estatal não impediram a chegada de cerca de dois mil manifestantes que se aglomeraram perto do local.

Os organizadores pretendem realizar protestos em seis locais diferentes, além da praça Tahrir, que tem concentrado as maiores manifestações contra o governo - e que também foi palco de confrontos violentos entre manifestantes pró e anti-Mubarak.

Reação

Na madrugada de sexta-feira, milhares de pessoas reunidas na praça Tahrir manifestaram, aos gritos de "abaixo Mubarak" e "vá embora", sua revolta contra o discurso de Mubarak em rede nacional na quinta-feira à noite.

Contrariando expectativas dos manifestantes contrários a seu governo e rumores de que usaria o discurso para renunciar, o presidente afirmou que permanecerá no poder, e que segue com a ''responsabilidade de proteger a Constituição e garantir os interesses do povo''. Ele disse ainda que transferirá parte de seus poderes a seu vice, Omar Suleiman, mas não especificou quais.

A Constituição do Egito permite que o presidente transfira suas principais funções se for incapaz de exercê-las ''devido a quaisquer obstáculos temporários''.

Após o discurso, manifestantes na praça Tahrir mostraram solas dos sapatos (ato considerado ofensivo no mundo árabe), em sinal de repúdio ao pronunciamento. Em seguida, milhares de pessoas começaram a se dirigir até o palácio presidencial.

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