Israel adverte contra eleições 'apressadas' no Egito

Integrantes do grupo Irmandade Muçulmana Direito de imagem Reuters (audio)
Image caption Grupo foi fundado no Egito e está presente em outros países

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, pediu aos países ocidentais que deixem de pressionar por mudanças imediatas no Egito, argumentando que eleições "apressadas" poderiam levar à chegada ao poder do grupo Irmandade Muçulmana.

A Irmandade Muçulmana, o maior e mais organizado grupo de oposição no Egito, chegou a defender no passado a revogação do tratado de paz entre o Egito e Israel, mas em declarações recentes dadas à BBC, líderes do movimento disseram que o assunto deveria ser discutido nacionalmente.

Barak disse que "é preciso dar tempo para que a mudança seja realizada no Egito, pois se as eleições ocorrerem rapidamente, a verdadeira ganhadora será a Irmandade Muçulmana".

"Os muçulmanos vão ganhar porque são mais organizados", afirmou Barak, "é necessário um período mais longo para que os outros partidos possam se organizar para as eleições".

"Durante esse período, deve-se garantir ao Egito, em conversas nos bastidores, que o mundo ocidental apoie a democracia egípcia."

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, também vem advertindo para a possibilidade de que o Egito possa "se transformar em um Irã".

Em 2005, integrantes da Irmandade Muçulmana conquistaram uma importante vitória ao se candidatar ao Parlamento egípcio como independentes, obtendo um total de 88 assentos (o equivalente a 20% do total) e formando o maior bloco de oposição do país.

Estre sucesso não pode ser repetido na última eleição, realizada no final do ano passado e marcada por acusações de fraude e violência, pois vários candidatos da Irmandade não puderam concorrer o foram presos.

'Histeria geral'

Já o historiador e ex-chanceler Shlomo Ben Ami disse em entrevista à radio estatal de Israel que não compartilha da "histeria geral" com a possibilidade de ascenção da Irmandade Muçulmana.

"Até hoje havia um paradigma no Oriente Medio de que as únicas possibilidades dos regimes na região são ditaduras seculares ou democracias islâmicas", afirmou Ben Ami.

"Esse paradigma tem que ser revisto, no Egito é bem possível que se configure uma democracia multipartidária, com partidos nacionalistas seculares e partidos islâmicos".

Ben Ami também disse achar que um novo governo egípcio não terá interesse de romper o acordo de paz com Israel.

"O novo governo deverá se concentrar nos grandes problemas internos do Egito, principalmente em satisfazer as necessidades sócio-econômicas do povo", acrescentou.

Segurança

A posição do ex-chanceler contradiz um quase consenso em Israel de que as mudanças no Egito seriam prejudiciais à segurança do país.

O chefe do Estado Maior do Exército israelense, general Gabi Ashkenazi, comparou os desdobramentos no Egito a um terremoto na região.

"No Oriente Médio estão ocorrendo mudanças tectônicas", disse Ashkenazi, "portanto o Exército deve estar preparado para confrontos em mais de uma frente".

Políticos israelenses já mencionaram a possibilidade de um aumento significativo nos orçamentos das forças de segurança e do tempo de serviço dos reservistas, em consequência das mudanças no Egito.

Porém nem todos os israelenses pensam que uma democratização no Egito seria necessariamente perigosa para a segurança de Israel.

Segundo a colunista Nehama Duek, do site de noticias Ynet e do jornal Yediot Ahronot, "um acordo de paz assinado vis-a-vis um povo é mais forte e mais duradouro do que um acordo com um ditador".

"Fato é que os manifestantes no Egito não estão queimando bandeiras de Israel nem protestando em frente à embaixada de Israel", afirmou Duek.

"A Irmandade Muçulmana não está liderando os protestos no Egito mas sim as pessoas simples que buscam trabalho e dignidade", acrescentou.

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