Forças de segurança disparam contra manifestantes na Líbia

Passeata de apoio à Líbia em Washington, nos EUA Direito de imagem AFP
Image caption Relatos dizem que forças do governo estão atirando em manifestantes

Forças de segurança da Líbia usaram franco-atiradores contra manifestantes neste sábado, segundo relatos de testemunhas. Ainda segundo os relatos, manifestantes, que protestam contra o governo de Muammar Khadafi, enfrentaram soldados na cidade de Benghazi, a segunda maior do país.

Os depoimentos, ainda não confirmados, dizem que pelo menos 15 pessoas foram mortas e muitas outras ficaram feridas.

Testemunhas disseram à BBC que franco-atiradores atiram nos manifestantes de prédios, enquanto parte das pessoas luta com outros membros das forças de segurança no chão.

De acordo com o correspondente da BBC no Oriente Médio Jon Leyne, outras testemunhas dizem que um dos principais quartéis das forças de segurança foi tomado pela oposição.

Na internet, outros relatos dizem que um sobrinho de Khadafi foi morto durante o conflito.

Horas antes, pessoas que estavam no local disseram que uma força de elite do governo, com muitos franco-atiradores aparentemente estrangeiros, atiraram nos manifestantes. Eles estão usando armas de fogo e morteiros contra os grupos de oposição.

Segundo Leyne, até agora os protestos se concentram na região leste do país.

"Qualquer protesto na capital, Trípoli, seria um grande desafio para o governo do coronel Khadafi. Esta já é a oposição mais forte que ele enfrentou em mais de quatro décadas de poder", disse.

Ainda neste sábado, manifestantes organizaram passeatas em apoio ao povo da Líbia em Washington, nos Estados Unidos. Eles pediam o fim da violência e do desemprego no país.

Violência

Segundo a organização internacional Human Rights Watch, 84 pessoas já morreram em diversas cidades da Líbia, em conflitos com a polícia e o exército durante os protestos.

O controle do governo sobre as informações e sobre a internet dificulta a confirmação dos relatos das testemunhas em Benghazi.

Jon Leyne diz que, durante a maior parte do dia, parecia que o governo havia perdido o controle das cidades de al-Badai e Benghazi, no leste do país.

No entanto, moradores locais temiam um contra-ataque das forças de seguranças, que pode ter começado.

Os relatos da situação na Líbia são vagos e esporádicos, depois que o governo passou a controlar o acesso à internet.

Um médico disse à BBC que a situação na cidade era "um inferno".

"Estou vendo pessoas feridas serem carregadas durante todo o dia. Elas foram alvejadas na cabeça e no peito, quebraram braços e pernas. Há tiroteios em toda a parte", disse.

Ele também sugeriu que mercenários estrangeiros pagos pelo governo da Líbia foram trazidos da África sub-saariana para atacar os manifestantes.

Outro morador disse à BBC que 40 pessoas foram mortas neste sábado em um curto espaço de tempo.

"Por favor, por favor diga ao mundo que Khadafi está matando as pessoas sem motivos. São manifestantes pacíficos", disse.

"Ele está trazendo franco-atiradores africanos para atirarem nas pessoas nas ruas de Benghazi, agora está atacando a própria cidade com mísseis."

`Inaceitável´

Benghazi, que fica a cerca de mil quilômetros da capital, é o maior foco de protestos contra o governo de 42 anos do coronel Muammar Khadafi.

A mídia estatal alertou a população de que haveria retaliação do governo se os protestos continuassem.

Apesar de as manifestações populares terem se espalhado por outras cidades do país, nada foi registrado ainda na capital.

A BBC confirmou que páginas de internet, incluindo o Facebook e o canal de televisão árabe Al-Jazeera foram bloqueadas no país.

Apesar disso, redes sociais como o Twitter foram inundadas com atualizações sobre o que acontecia na cidade.

Um manifestante disse à BBC que as pessoas que protestam em Benghazi se manterão firmes. "Não temos escolha. Estamos sofrendo há 42 anos e não vamos parar."

O ministro de Relações Exteriores britânico William Hague disse que os relatos de armas pesadas e franco-atiradores sendo usados contra os manifestantes são "claramente inaceitáveis e revoltantes".

Mudanças

Em meio à crise, o jornal semi-independente Quryna disse que o governo substituiria executivos estatais e daria início a uma descentralização e reestruturação do governo.

Não se sabe se a manobra política é uma resposta aos protestos.

Horas antes, o jornal pró-governo Al-Zahf Al-Akhdar disse que as autoridades "responderiam violentamente" aos protestos.

Muammar Khadafi governa a Líbia desde um golpe de estado em 1969. Ele é o líder que está a mais tempo no poder em todo o mundo.

Os protestos pela democracia no país acontecem na sequência dos eventos em outros países do Oriente Médio, desde a queda do presidente da Tunísia Zine Al-Abidine Ben Ali.

O presidente egípcio Hosni Mubarak foi forçado a deixar o poder em 11 de fevereiro.

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