Garota de 15 anos diz ter sido vendida pelo pai para noivo no Paquistão

Adolescente britânica durante entrevista à BBC Direito de imagem BBC World Service
Image caption Adolescente contou que foi ameaçada por seu pai

Uma adolescente britânica afirma ter sido vendida pelo próprio pai que teria acertado o casamento da filha com um homem 16 anos mais velho no Paquistão.

A jovem de 15 anos, cujo nome não foi divulgado, contou à BBC como foi enganada pelo pai. Ela diz que o acompanhou a uma viagem ao Paquistão, mas conseguiu escapar dias antes do casamento.

Segundo a adolescente, o pai queria casá-la com o noivo mais velho para que ele pudesse ter permissão de morar na Grã-Bretanha.

"Foi pelo dinheiro", disse a jovem. "Ele estava literalmente me vendendo e vendendo minha nacionalidade para que eu pudesse trazer a pessoa de volta. Acho que (o acordo) foi em torno de 10 mil libras (quase R$ 27 mil)."

Ela conta que quando recusou o casamento, começou a ser espancada pelo pai.

"Ele me acertou no rosto. Então eu comecei a me rebelar mais, dizendo 'não'. Então ele pegou um vidro e fez cortes em meus braços", disse.

"Ele tinha alguém para me segurar por trás, um de seus criados, e ele pegou um vidro e fez cortes profundos", afirmou a jovem.

A adolescente então foi trancada em seu quarto, sem comida ou água por horas.

"Pensei que ele ia me matar. Pensei que iria morrer naquele quarto", afirmou.

Abrigo

A jovem conseguiu escapar e foi até o Alto Comissariado Britânico no Paquistão. Chegando ao local, os funcionários a colocaram em um abrigo secreto para mulheres.

Do abrigo, a jovem pegou um voo de volta para a Grã-Bretanha e se reencontrou com sua mãe.

A adolescente agora está a salvo, mas afirmou à BBC que escolas e outras agências não estão fazendo o bastante para ajudar as vítimas destes casamentos forçados.

O secretário de Estado do Ministério do Exterior, Jeremy Browne, que também é um dos encarregados da unidade do governo britânico que lida com a questão de casamentos forçados, diz que "sente muito" pela vítima e defendeu as ações do governo.

"Tentamos fazer o que podemos", disse. "Não sei de nenhum outro país no mundo que faça mais do que a Grã-Bretanha em termos de casamentos forçados."

De acordo com dados levantados pela BBC, ocorreram 1.735 incidentes semelhantes - casos de casamento forçado ou que poderiam se transformar em casamentos forçados - envolvendo cidadãos britânicos e relatados para o Ministério do Exterior em 2010.

Quase um terço das pessoas envolvidas tinha menos de 18 anos.

Escola

A adolescente que escapou do Paquistão frequentava uma escola predominantemente asiática, mas contou que nunca recebeu informações sobre ajuda em casos como o dela.

Cada escola secundária da Inglaterra e do País de Gales deveria receber orientações que deveriam ser passadas para os alunos. Mas há o temor de que isto não esteja acontecendo.

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Image caption Instituição de caridade quer que assunto entre para currículo escolar

Jasvinder Sanghera, da organização de caridade britânica que luta contra o casamento forçado Karma Nirvana, quer que a questão seja incluída nos currículos escolares.

"Temos que garantir que os jovens saibam que a ajuda está disponível", afirmou.

"Não podemos nem colocar cartazes nas escolas, e, para mim, isto é inaceitável."

Proteção

Pessoas que temem se transformar em vítimas de um casamento forçado, podem conseguir uma ordem de proteção contra este tipo de união na Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales.

Estas ordens podem proibir que as famílias levem as vítimas em potencial para outros países, por exemplo. A pena máxima para quem desrespeita esta ordem é até de dois anos de prisão, mas nunca houve condenações por isto.

Jeremy Browne, do Ministério do Exterior, afirma que "sempre se pode fazer mais".

"Não há nada que diga que o Ministério do Exterior precisa fazer isto. Estamos fazendo, pois acreditamos nisto. Acreditamos que seja uma prioridade verdadeira, queremos ajudar as pessoas", afirmou.

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