Governos se mobilizam para retirada em massa de estrangeiros da Líbia

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Image caption Pessoas aguardam do lado de fora do aeroporto de Trípoli

Governos de vários países estão enviando balsas, aviões e navios para retirar seus cidadãos da Líbia, tomada pela onda de violência entre partidários do governo e opositores do coronel Muamar Khadafi, no poder há mais de 40 anos.

Nessa terça-feira, cinco brasileiros foram retirados do país norte-africano em um avião da Força Aérea portuguesa. Já o Itamaraty informa que negocia o resgate, entre quinta e sexta-feira, de 183 brasileiros que estão em Benghazi, segunda maior cidade da Líbia, no leste do país.

A retirada será feita por um navio contratado pela construtora Queiroz Galvão. O destino da embarcação deve ser Grécia ou Malta.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, há entre 500 e 600 brasileiros na Líbia, a maioria residentes. Todos estão bem, de acordo com o Itamaraty.

Nesta quarta-feira, duas balsas da Turquia conseguiram retirar cerca de 3 mil de seus cidadãos de Benghazi, onde vive um grande número de turcos que trabalham para empresas de construção. As embarcações contaram com a escolta de uma fragata.

Holanda, França, Itália e Grécia estão organizando voos de evacuação, mas alguns deles ainda não receberam autorização para pouso. A Grã-Bretanha está planejando fretar um avião para seus cidadãos, além de posicionar um navio de guerra próximo à costa da Líbia.

O governo chinês também anunciou o envio de aviões fretados e navios para retirar cerca de 40 mil chineses da Líbia. A operação conta com a colaboração da Grécia e da Itália, segundo a agência de notícias estatal grega ANA-MPA.

O Departamento de Estado americano diz ter alugado uma balsa para evacuar seus cidadãos presos na Líbia. Uma nota emitida pela embaixada do país em Trípoli diz que os americanos que desejam deixar o país devem se dirigir ao porto de As-shahab, na capital.

Retirada bem-sucedida

Áustria, Rússia, Holanda e Bulgária conseguiram enviar aviões para evacuação de seus cidadãos.

Na terça-feira, Portugal conseguiu concluir a retirada de seus cidadãos de Trípoli, por meio de dois voos de um avião militar Hércules C-130 da Força Aérea Portuguesa, nos quais cerca de 200 pessoas foram levadas para uma base aérea na Itália. Entre os passageiros, 130 seriam portugueses e os demais, de outras nacionalidades.

Entre os portugueses, cerca de 30 trabalham para a Zagope, a sucursal portuguesa da construtora brasileira Andrade Gutierrez.

O brasileiro José Carlos Ribeiro foi receber os colegas no aeroporto de Lisboa e contou à BBC Brasil que escapou por pouco de ficar preso na Líbia.

“A cada 90 dias, temos direito a nove dias fora do país. Na semana passada, eu perguntei se era para retornar para a Líbia e disseram que estava tudo normal. Eu estava voltando para Trípoli no domingo e, quando fui pegar o avião em Roma, o voo foi cancelado”.

Além dos esforços organizados por governos, grandes companhias internacionais, muitas delas envolvidas em importantes projetos de energia na Líbia, estão organizando a retirada de funcionários do país.

A Shell afirmou ter realocado todos os seus funcionários expatriados e seus dependentes da Líbia. A italiana Eni, a maior produtora de energia no país norte-africano, disse estar retirando parte de seus funcionários. A francesa Total e a empresa de construção italiana Vinci anunciaram estar fazendo o mesmo.

ONU

O Conselho de Segurança da ONU condenou na terça-feira o uso de violência contra manifestantes na Líbia e pediu que os autores de ataques contra civis sejam responsabilizados.

Em uma declaração conjunta divulgada após uma reunião de emergência, em Nova York, os 15 países membros do Conselho – cuja presidência rotativa está a cargo do Brasil neste mês – pediram o fim imediato da violência e que as autoridades líbias atendam às demandas da população.

“Os membros do Conselho de Segurança expressaram grave preocupação com a situação na Líbia”, disse a embaixadora brasileira na ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, ao ler a declaração.

“Eles condenaram a violência contra civis, deploraram a repressão contra manifestantes pacíficos e expressaram profundo pesar pelas mortes de centenas de civis”, disse a embaixadora. “E pediram o fim imediato da violência e medidas para atender às demandas legítimas da população, inclusive por meio do diálogo nacional.”

Responsabilidade

Organizações humanitárias calculam que centenas de manifestantes tenham morrido em confrontos com forças de segurança desde a semana passada em protestos contra o governo do coronel Muamar Khadafi. Não é possível confirmar o número exato de mortos, já que a imprensa estrangeira é vetada no país.

Na segunda-feira, o vice-embaixador da Líbia na ONU, Ibrahim Al-Dabbashi, chegou a dizer que o povo líbio deveria ser protegido do que chamou de “genocídio” promovido pelo governo.

Os diplomatas líbios também pediram que a ONU interditasse o espaço aéreo sobre Trípoli, devido a relatos de que aviões de combate estariam disparando contra manifestantes. Segundo diplomatas, porém, a proposta não chegou a ser discutida na reunião desta terça-feira.

Depois das declarações de Dabbash, o embaixador líbio na ONU, Abdurrahman Mohammed Shalgam, preferiu se distanciar de seu vice e negou o uso de aviões contra os manifestantes.

‘Mártir’

Durante a tarde de terça-feira, o líder líbio, Muamar Khadafi, afirmou que não deixará o país, nem que isso represente a sua própria morte.

Em um discurso transmitido pela TV estatal, ele descartou a possibilidade de renúncia e disse que morrerá no país "como um mártir".

Disse ainda que “covardes e traidores” estão tentando mergulhar o país no caos e alertou que, se for necessário, será usada a força, mas de acordo com a lei internacional.

Em Trípoli, o clima é de tensão, segundo a correspondente da BBC na cidade. Testemunhas relataram cenas de massacre e de corpos que se acumulavam nas ruas em algumas partes da cidade.

“Eles não fazem distinção (entre civis e militares), estão atirando para limpar as ruas”, disse nesta terça à BBC News um morador de Trípoli, que não quis se identificar.

“(Os atiradores) não são humanos, não sei o que são.”

*Com infomações de Jair Rattner, de Lisboa

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