'Preparem-se para defender a Líbia', diz Khadafi a seguidores

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O líder líbio, coronel Muamar Khadafi, disse nesta sexta-feira a um grupo de simpatizantes no centro da capital do país, Trípoli, que seguirá lutando contra os opositores de seu regime.

"Preparem-se para defender a Líbia. Preparem-se para defender o petróleo, preparem-se para defender a dignidade", disse Khadafi, em imagens transmitidas pela TV estatal líbia.

Mandando beijos para as pessoas e de punhos cerrados, Khadafi afirmou: "Vocês devem dançar, cantar... este espírito é mais forte do que qualquer tentativa de estrangeiros de nos destruir".

Embora seu regime tenha perdido controle sobre a maior parte do país desde o início dos protestos, Khadafi disse: "Podemos vencer o inimigo".

"Muamar Khadafi está no meio de vocês. Fico no meio do povo e, se vocês quiserem, devemos combatê-los e matá-los", disse, sobre seus opositores.

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Image caption "Vocês são livres para dançar, cantar e celebrar", disse o coronel

"Com pessoas armadas, nós podemos derrotar qualquer agressão. Quando necessário, nós abriremos todos os depósitos de armas para armar o povo líbio. A Líbia se tornará uma chama vermelha", disse Khadafi.

"Reajam a eles, façam-nos sentir vergonha. Eu estou entre as massas, estou em Trípoli, na Praça Verde. Aqui está a juventude, os filhos e netos das jihads (batalhas santas islâmicas), cujos pais destruíram o império italiano", afirmou Khadafi, em referência à Itália, antiga potência colonial na Líbia.

"Façam como desejarem. Vocês são livres para dançar, cantar e celebrar em todas as praças noite adentro. Muamar Khadafi é um de vocês! Dancem, cantem, divirtam-se", afirmou o coronel.

Durante seu discurso, o líder líbio também chamou os integrantes da mídia estrangeira de "cães".

Ex-ministro

O ex-ministro do Interior líbio Abdel Fatah Yunis, que renunciou há poucos dias, disse ao editor de Assuntos Internacionais da BBC John Simpson que é improvável que Khadafi venha a cometer suicídio. "Em vez disto, ele continuará lutando", afirmou.

Segundo Yunis, é "absolutamente impossível" que Khadafi não tenha tomado a decisão de explodir o avião da Pan-Am que caiu sobre a cidade escocesa de Lockerbie, em dezembro de 1988.

Testemunhas na capital afirmam que forças de segurança leais ao regime abriram fogo contra manifestantes que se reuniam para as tradicionais orações de sexta-feira, matando pelo menos uma pessoa.

Acredita-se que Trípoli seja defendida pela principal unidade militar de Khadafi, comandada por um de seus filhos, Khamis. Há confrontos também na cidade de Zawiya.

Um médico em Misrata, cidade controlada pelos manifestantes, disse à BBC que um tiro disparado por um tanque matou cerca de vinte manifestantes durante a noite.

Trípoli se tornou uma espécie de bastião do regime, patrulhada pelas forças especiais do governo. Nos últimos dias, testemunhas disseram à BBC que o clima na capital era de uma “calma tensa” e que as forças de Khadafi podiam ser vistas em toda a cidade.

Os desdobramentos da crise líbia já indicavam o que vinha sendo chamada de antemão "a batalha de Trípoli".

País dividido

O leste do país – onde estão cidades como Benghazi, Tobruk e Ajdabiya – permanece sob controle firme da oposição, mas o governo lançou ofensivas para tomar o controle das localidades próximas ou a oeste de Trípoli, como Zuara, Sabratha, Misrata e Zawiya.

Até a quinta-feira, os relatos eram de que a cidade de Zawiya, a 50 km de Trípoli, era palco de alguns dos mais sangrentos enfrentamentos.

Na terceira cidade do país, Misrata, a 200 km da capital, foram registrados combates pelo controle do aeroporto. Mas os relatos são que a cidade também caiu em favor dos rebeldes.

Segundo o repórter da BBC em Benghazi Kevin Connolly, os manifestantes estavam descrevendo esta sexta-feira como o "dia da partida" na Líbia. Segundo ele, os partidários da oposição estão enviando "um milhão de preces" pela queda de Khadafi.

A TV estatal disse que o governo dará a cada família 500 dinares (cerca de R$ 650) por causa do aumento dos preços dos alimentos e que os servidores públicos vão receber um aumento de 150%.

A ONU afirma que a Líbia pode estar entrando em uma crise de alimentos porque os protestos estão prejudicando a chegada e distribuição dos produtos pelo país.

Khadafi culpou a rede Al-Qaeda pelos protestos, afirmando que a juventude recebeu alucinógenos e drogas que os incitaram à revolta.

Para escapar da violência, milhares de imigrantes da África subsaariana vêm fugindo do país. Muitos estariam sofrendo represálias de líbios que os associam aos supostos mercenários estrangeiros recrutados por Khadafi.

No norte, o mau tempo vem prejudicando as operações de países ocidentais para retirar seus cidadãos por mar e pelo ar.

Conselho da ONU

A Federação Internacional de Direitos Humanos crê que pelo menos 700 pessoas podem ter morrido nos confrontos. Em Benghazi, o médico francês Gerrard Buffet disse à BBC que os combates podem ter matado até 2 mil pessoas só no leste do país.

Nesta sexta-feira, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, se reúne em sessão especial para discutir os desdobramentos da crise líbia – a primeira vez que o órgão discute a possível adoção de ações contra um de seus membros.

A comissária de Direitos Humanos, Navi Pillay, já expressou que a repressão aos manifestantes pode configurar crime contra a humanidade.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) também se reunirá em caráter de emergência nesta sexta-feira para discutir a crise da Líbia.

Em conversa telefônica com os chefes de Estado e de governo da Grã-Bretanha, França e Itália, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, discutiu estratégias para responder à crise na Líbia.

A Casa Branca informou que as medidas podem incluir ações de assistência humanitária, mas destacou que todas as opções estão na mesa, incluindo possíveis sanções.

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