Oposição líbia promete marcha para Trípoli; forças de Khadafi contra-atacam

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Image caption Rebelde em Benghazi patrulha cidade sob controle firme da oposição

Opositores e forças leais ao governo na Líbia se preparam para mais um dia de enfrentamentos nesta sexta-feira, quando estão planejadas marchas da oposição para tentar tomar a capital do país, Trípoli, bastião do regime do coronel Muamar Khadafi.

O leste do país – onde estão cidades como Benghazi, Tobruk e Ajdabiya – permanece sob controle firme da oposição, mas o governo lançou ofensivas para tomar o controle das localidades próximas ou a oeste de Trípoli, como Zuara, Sabratha, Misrata e Al Zawiya.

Com a movimentação dos jornalistas restrita ao leste do país – qualquer um viajando sem autorização pode ser considerado um colaborador da rede Al Qaeda –, as informações são difíceis de confirmar e grande parte da apuração só pode ser feita através de depoimentos telefônicos.

Os relatos são de que a cidade de Al Zawiya, a 50 km de Trípoli, é palco de alguns dos mais sangrentos enfrentamentos.

Testemunhas disseram que forças do governo atacaram manifestantes em uma mesquita com metralhadoras e armas antiaéreas. Um médico disse ter visto dez corpos e cerca de 150 feridos.

Na terceira cidade do país, Misrata, a 200 km da capital, foram registrados combates pelo controle do aeroporto. Vídeos postados na internet mostraram os opositores celebrando, sugerindo que a cidade está sob mãos das forças anti-Khadafi.

"O que ouvimos das pessoas aqui é que Misurata está livre do controle de Khadafi", disse à BBC, por telefone, um médico no hospital da cidade. Ele disse ter contado cerca de 70 mortos por balas e "todo tipo de objeto".

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Já em Trípoli, testemunhas afirmam que a situação é relativamente calma. A cidade está sendo patrulhada pelas forças especiais de Khadafi, que "estão por toda parte", como contou à BBC por telefone um morador da cidade.

"Há cerca de 50 veículos e tanques ao lado do principal prédio do governo. Achamos que eles devem se movimentar em direção a Misrata e Al-Zawiya, porque havia notícias de que na sexta-feira haveria uma grande marcha para Trípoli vinda do sul, do oeste e do leste", afirmou o morador.

A população está atemorizada com os relatos de que as forças de Khadafi mantêm atiradores espalhados pela cidade, mas opositores disseram que ainda assim sairão às ruas para as preces da sexta-feira.

"Mesmo que morramos, nossos filhos viverão livres", disse um morador à BBC.

Outro descreveu a situação na quinta-feira à noite como "calma demais". "Tudo está muito quieto, ninguém se move", ele afirmou.

"Podemos ver os ônibus que se movimentam pela cidade com esses grupos especiais das forças de segurança. Eles são muitos", relatou o morador.

"É difícil dizer quem controla esta cidade. Alguém está tentando mostrar que está em controle, mas quem controla esta cidade de verdade?"

<b>Direitos humanos</b>

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Image caption Hospital em Benghazi: número de fatalidades difícil de precisar (Foto: AP)

Com os enfrentamentos se multiplicando e diante das dificuldades de obter informações, organizações de direitos humanos têm considerado impossível estimar um número de mortos no conflito.

A Federação Internacional de Direitos Humanos crê que pelo menos 700 pessoas podem ter morrido. Já um médico francês em Benghazi, Gerrard Buffet, disse à BBC que os combates podem ter matado até 2 mil pessoas só no leste do país.

Nesta sexta-feira, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, se reunirá em uma sessão especial para discutir os desdobramentos da crise líbia – a primeira vez que o órgão discute a possível adoção de ações contra um de seus membros.

A comissária de Direitos Humanos, Navi Pillay, já sugeriu que a repressão aos manifestantes pode configurar crime contra a humanidade.

Na quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, telefonou para os chefes de Estado e de governo da Grã-Bretanha, França e Itália para discutir estratégias para responder à crise na Líbia.

Segundo a Casa Branca, Obama está considerando medidas de assistência humanitária para ajudar a Líbia, mas mantém na mesa todas as opções, incluindo possíveis sanções. Um porta-voz do governo americano disse que Obama aguarda ainda uma avaliação de seus assessores militares.

A Suíça anunciou o congelamento no país dos bens de Khadafi, seus familiares e aliados. A decisão tem efeito imediato.

<b>Al Qaeda</b>

Ainda na quinta-feira, em uma participação por telefone em cadeia nacional de TV, Khadafi culpou a rede extremista Al-Qaeda e o seu líder, Osama Bin Laden, pelos protestos contra o governo.

"Bin Laden é o inimigo que está manipulando as pessoas. Não se deixem enganar por Bin Laden", afirmou Khadafi.

"É óbvio que esta situação esta sendo causada pela Al-Qaeda. Esses jovens armados, nossos filhos, estão sendo incitados pelas pessoas que são procuradas pelos Estados Unidos e o Ocidente."

Dirigindo-se às famílias líbias, Khadafi atribuiu as manifestações ao "uso excessivo de drogas".

"Voltem para as suas casas, conversem com os seus filhos", disse o líder. "Eles são jovens, eles estão armados, estão usando granadas, estão atacando delegacias de polícia. Isso é causado pelo uso excessivo de drogas.”

Khadafi, que está há 42 anos no poder, reagiu à pressão por sua retirada afirmando que "há líderes há mais tempo no poder" do que ele, "como a rainha Elizabeth (2ª, da Grã-Bretanha)".

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