Para analistas, Brics se articularam em voto sobre Líbia na ONU

Conselho de Segurança da ONU Direito de imagem Getty
Image caption Brics citaram risco para civis líbios ao se abter em votação na ONU

A abstenção de Brasil, Rússia, Índia e China (que juntos formam o grupo conhecido como Bric) na votação no Conselho de Segurança da ONU na quinta-feira, que autorizou ações militares na Líbia, refletiu uma articulação desses países no órgão, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

A resolução, proposta pela Grã-Bretanha, França e Líbano, foi aprovada com dez votos a favor, nenhum contra e cinco abstenções. A medida estabeleceu uma zona de exclusão aérea na Líbia e autorizou "todas as medidas necessárias" para "proteger civis e áreas habitadas por civis" de ataques das forças do coronel Muamar Khadafi.

Para Paulo Sotero, diretor do Instituto Brasil do Centro Woodrow Wilson, em Washington, “não devemos menosprezar o grau de articulações que há entre esses países (membros do Bric) (...) sobretudo às vésperas de um encontro (do grupo) na China”.

Segundo Sotero, o voto da resolução sobre a Líbia pode ser visto como um teste do futuro Conselho de Segurança.

“O dia em que o Conselho for reformado, esses quatro países estarão lá”, diz o analista. Rússia e China são membros permanentes do órgão e têm o poder de veto; Índia e Brasil ocupam vagas rotativas no Conselho, mas pleiteiam o mesmo status dos primeiros.

‘Voto do Bric’

Segundo Riordan Roett, diretor do programa de estudos de América Latina da Universidade Johns Hopkins, também de Washington, “não há dúvidas de que foi um voto do Bric”.

“Acho que veremos mais solidariedade no futuro em questões relacionadas. As prioridades da política internacional do Bric vão se diferenciar cada vez mais do G7 (grupo que integra as sete economias mais desenvolvidas do globo). Na minha opinião, o voto foi mais um desejo de se diferenciar dos países industrializados.”

Apesar da articulação e do interesse de Índia e Brasil em integrar permanentemente o Conselho, Roett diz que se trata de uma “questão de política muito complicada” e que levará tempo até que um acordo seja alcançado.

“Será interessante ver se o voto terá qualquer impacto na viagem de (Barack) Obama ao Brasil.”

Para Thomas Trebat, ex-diretor da divisão de América Latina do Citigroup, professor e atual diretor-executivo do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia, em Nova York, “é possível que tenha havido um tipo de acordo prévio dos quatro países, mas, do ponto de vista do Brasil, que conheço melhor, essa ação de abstinência de voto é completamente consistente com a linha do Brasil na ONU”.

“A intervenção brasileira tradicionalmente tenta evitar ações militares”, diz Trebat.

Justificativas

Ao justificar a abstenção na votação, os países usaram argumentos semelhantes. A embaixadora brasileira na ONU, Maria Luisa Viotti, disse que o Brasil teme que ações militares exacerbem tensões e façam "mais mal do que bem aos próprios civis com cuja proteção estamos comprometidos".

O representante da Índia no Conselho, Hardeep Singh Puri, afirmou que não havia clareza sobre detalhes da intervenção e como ela seria executada. Puri também expressou preocupação com possíveis vítimas civis das ações militares.

O Ministério de Relações Exteriores da China afirmou que o país se opõe “ao uso de força em relações internacionais e tem sérias reservas com parte da resolução”.

Um representante do governo da Rússia, por sua vez, disse à agência russa Interfax que um ataque ao território líbio poderia desencadear uma guerra entre o Ocidente e o mundo árabe.

O conceito dos Brics, acrônimo que agrupa os três maiores países em desenvolvimento (China, Índia e Brasil) mais a Rússia, foi formulado em 2001 por Jim O’Neil, economista-chefe do banco americano de investimentos Goldman Sachs.

Em 2006, segundo texto no site do Itamaraty, chanceleres dos quatro países se reuniram durante a 61ª Assembleia Geral da ONU. A partir de então, os países começaram a atuar coletivamente em alguns foros mundiais, embora o grupo tenha um caráter informal, sem possuir um documento constitutivo nem fundos destinados a financiar suas atividades.

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