AIEA diz ser improvável que crise tome as proporções de Chernobyl

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Image caption Agência nuclear da ONU diz que níveis de radiação ainda são baixos

A Agência Internacional de Energia Atômica da ONU (AIEA) afirmou nesta segunda-feira que é “muito improvável” que a crise na usina nuclear de Fukushima, no Japão, tome as proporções de um acidente como o da usina soviética de Chernobyl.

O acidente na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, fez com que uma nuvem de resíduos radioativos se espalhasse pela Europa.

Em comunicado oficial, o diretor-geral da agência, o japonês Yukiya Amano, reafirmou que, até agora, os níveis de radiação que vazaram dos reatores nucleares estão abaixo dos níveis considerados perigosos.

“Apesar das explosões de hidrogênio, os recipientes que abrigam os reatores, que são feitos para impedir grandes vazamentos de radioatividade, continuam intactos. Por isso, o vazamento é limitado.”, disse Amano.

O Japão pediu ajuda à AIEA para lidar com a crise, depois que explosões prejudicaram o funcionamento de dois reatores da usina e uma falha na operação de resfriamento de emergência expôs os bastões de combustível de um terceiro.

O sistema de resfriamento dos reatores nucleares da usina parou de funcionar em consequência do terremoto de magnitude 8,9 que atingiu o país na última sexta-feira.

Desde então, a empresa que opera a usina, Tokyo Electric Power (Tepco), pôs em prática um plano de emergência para injetar água do mar nos recipientes que abrigam os reatores e evitar o superaquecimento das instalações.

No último sábado, uma explosão provocada pelo acúmulo de hidrogênio no reator número 1 deixou três funcionários feridos.

Na manhã desta segunda-feira, uma explosão no reator número 3 da usina, que já passava pelo processo de resfriamento, deixou 11 feridos, um deles em estado grave.

Horas depois, a bomba que injetava água no reator número 2 ficou sem combustível.

O nível de água no reator 2 abaixou rapidamente, deixando as barras que armazenam o combustível nuclear completamente expostas por mais de uma hora.

Segundo a agência de notícias Kyodo News, a Tepco chegou a informar ao governo japonês que a situação era de emergência, temendo pelo derretimento do núcleo do reator.

Para evitar que isso acontecesse, os técnicos da empresa tiveram que abrir um canal de ventilação para diminuir a pressão. O processo de resfriamento da instalação já foi retomado.

Dezenas de milhares de pessoas foram evacuadas das proximidades da usina e 22 estão sob tratamento por exposição à radiação, mas o governo descartou a possibilidade de aumentar a área de evacuação no momento.

Preocupação

As explosões na usina de Fukushima causaram preocupação em diversos países do mundo com suas próprias instalações nucleares.

Nesta segunda-feira, o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, disse ao parlamento que seu governo colocou a segurança nuclear no país como assunto da mais alta importância.

O diretor de energia da União Europeia, Guenther Oettinger, disse que os eventos no Japão mostraram claramente que a Europa precisa repensar sua política.

Os governos da Alemanha, Suíça e Áustria também anunciaram mudanças em seus programas nucleares.

Leia mais: Alemanha suspende ampliação de vida útil de usinas nucleares

Cortes

Milhões de pessoas nas áreas mais afetadas pelo terremoto na região nordeste do Japão permanecem sem água, comida, eletricidade e gasolina há quatro dias.

Segundo a Kyodo News, mais de 500 mil pessoas estão desabrigadas em consequência do terremoto e do tsunami que atingiram o país.

Filas quilométricas se formam em supermercados e postos de gasolina para conseguir suprimentos. Nos abrigos improvisados, milhares sofrem com as baixas temperaturas do inverno.

Nesta segunda-feira, a companhia de eletricidade Tepco deu início aos cortes de eletricidade planejados em áreas próximas à capital, para evitar blecautes.

O plano, que não tem precedentes na história do país, prevê suspensões de energia durante 3 a 6 horas em regiões alternadas até o fim de abril.

Estima-se que cerca de 45 milhões de pessoas em Tóquio e em outras oito Províncias serão afetadas pelos cortes.

No entanto, a área central de Tóquio será poupada, já que os escritórios do governo e muitas sedes de empresas funcionam no local.

Devastação

Uma gigantesca operação foi posta em marcha para resgatar os milhares de mortos e desaparecidos no desastre natural.

A repórter da BBC Rachel Harvey, que está na cidade portuária de Minamisanriku, disse que o cenário é de extrema destruição e que é improvável que haja muitos sobreviventes.

A agência Kyodo News afirmou que 2 mil corpos foram encontrados na região administrativa de Miyagi nesta segunda-feira. Segundo a TV pública NHK, mil corpos teriam sido encontrados na península de Ojika e mil em Minamisanriku.

Com isso, o total de mortos no desastre pode ultrapassar 10 mil, segundo estimativas.

O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, disse que o desastre mergulha o país "na crise mais grave desde a Segunda Guerra Mundial".

Estimativas preliminares elevam os custos de recuperação da tragédia em dezenas de bilhões de dólares - um forte golpe para o país, em um momento em que a economia mundial dá sinais de retomada.

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