Sem telão, só manifestantes vão à Cinelândia durante discurso de Obama

Protesto na Cinelândia
Image caption Sindicato diz ter reunido 600 pessoas em protesto contra Obama

Enquanto Barack Obama cumpria sua agenda carioca neste domingo, protestos no Centro condenaram a política do governo americano. Sem telões para que o povo pudesse acompanhar seu discurso fora do Theatro Municipal, a Cinelândia virou palco para manifestantes.

Cerca de 300 pessoas se reuniram na praça antes e durante o discurso, afastados pelo cordão de segurança que os mantinha a cerca de cem metros da entrada do teatro.

Eles entoavam refrãos e erguiam bandeiras de movimentos diversos, desde bolivarianos e marxistas-leninistas a brigadas populares e trabalhadores sem-teto.

Sem conseguir acompanhar nada dito pelo presidente, a multidão vaiou quando os primeiros convidados começaram a sair. O presidente, cercado por forte esquema de segurança, já saíra por trás.

Mas o protesto maior e mais coeso não conseguiu chegar à Cinelândia. Mais cedo, militantes de sindicatos, partidos e entidades estudantis marcharam da Glória até o Centro.

De acordo com Emanuel Cancella, secretário-geral do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro-RJ), o protesto reuniu cerca de 600 pessoas. Eram militantes do PSTU, PSOL, MST, Sindipetro, movimentos estudantis e outros grupos.

Depois de uma manifestação com os mesmos participantes ter terminado com violência na sexta-feira, os organizadores resolveram dispersar o protesto pouco antes de chegar à Cinelândia, já que cerca de 200 metros adiante havia um bloqueio armado por pelo menos 40 policiais da cavalaria e do Batalhão de Choque.

“Queríamos chegar até a praça, mas a prioridade era fazer uma manifestação pacífica”, diz Socorro Gomes, presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CeBra Paz).

“Foi com ordem, porém firme, mostrando que aqui não há um consenso. Conhecemos a política dos Estados Unidos. Eles não têm amigos, e sim interesses. Querem nossos recursos naturais e o domínio geopolítico”, diz Socorro.

Na sexta-feira, um protesto teve desfecho violento em frente ao Consulado dos Estados Unidos. Dois coquetéis molotov foram lançados em direção ao edifício, e um deles atingiu um segurança, que sofreu queimaduras. A polícia reagiu com bombas de efeito moral e tiros de balas de borracha.

Após a confusão, 13 manifestantes foram presos, entre eles um de 16 anos e uma mulher de 67.

As críticas às prisões foram uma das principais bandeiras levantadas pelos manifestantes neste domingo. Cyro Garcia, dirigente nacional do PSTU, diz que as prisões foram arbitrárias e aleatórias e classificou-as como “as primeiras prisões políticas do governo Dilma”.

Image caption Protesto contou com membros de partidos políticos e grupos estudantis

Para Cyro, as detenções são uma forma de tentar calar as manifestações durante a visita de Obama. “As pessoas que estão detidas não têm qualquer responsabilidade por esse fato. A nossa manifestação era pacífica, mas no final alguns indivíduos se infiltraram e cometeram esse vandalismo. As organizações que faziam parte da manifestação são radicalmente contra esse tipo de método”, diz.

A mãe e a irmã mais nova de dois jovens presos participaram da caminhada. Chirlete Proença Natal diz que está "desesperada" com a prisão da filha Gabriela, estudante de História da Arte na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), de 24 anos, e do filho Yuri, que cursa Geografia na UFF (Universidade Federal Flumimense).

Ela diz que Gabriela está numa cela do presídio Bangu 8, e Yuri no presídio de Água Santa. Ele já teria tido a cabeça raspada, assim como os demais presos. A filha caçula também estava na manifestação e correu para a delegacia quando soube que os irmãos tinham sido levados.

“Na hora da confusão, eles correram, como todos nós. Mas quando foram presos já estavam na Cinelândia recolhendo bandeiras. Os policiais estavam procurando qualquer um para mostrar serviço”, diz ela, que costuma participar de manifestações com os irmãos e afirma que eles nunca se envolveram em incidentes.

Antes da dispersão do protesto, um dos organizadores convocou uma nova manifestação amanhã, na Cinelândia, às 17h. “Vamos lavar o chão onde pisou o chefe do império. Tragam vassouras e produtos de limpeza. E agora vamos todos pacificamente para casa”, falou pelo megafone.

Mas no domingo o cheiro de produtos de limpeza já era forte na praça, após a limpeza feita pela prefeitura antes que o presidente Barack Obama chegasse. Um trecho da avenida Rio Branco ainda estava molhado e coberto de espuma no início da tarde. E, diferentemente de outros domingos ou dias de evento, não havia moradores de rua nem vendedores ambulantes na Cinelândia.

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