China não está preparada para liderança global, diz acadêmico chinês

Cena urbana em Pequim. | Foto: Silvia Salek / BBC Brasil Direito de imagem BBC World Service
Image caption Segundo Yang Yao, a China ainda é um país em definição

A China não está preparada para assumir o papel de liderança global que muitos esperam que acompanhe a ascensão econômica do país, na opinião do diretor do Centro de Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim, Yang Yao.

“Eu não acredito que a China esteja pronta para desempenhar um papel de líder agora ou no futuro próximo. Isso porque a própria China é um país em definição. A China não vai desempenhar papel de liderança até que decida sobre seu próprio futuro”, disse Yao, em entrevista por e-mail à BBC Brasil.

No processo de definição do futuro, que pode determinar que tipo de liderança a China irá assumir, o acadêmico citou questões internas prementes como a disputa por poder entre diferentes facções do governo, uma que defende uma presença maior do Estado e outra mais voltada para as forças do mercado.

“Vai levar tempo para o governo perceber que o estatismo vai, no fim das contas, prejudicar a China. Mas o estatismo provavelmente não vai dominar o governo por completo porque as vozes e forças que defendem o mercado também são muito fortes”, disse Yao.

Má-interpretação

Segundo o acadêmico, algo que é percebido por alguns setores em vários países como uma nova assertividade ou até postura mais agressiva da China resulta, por um lado, de uma má-interpretação das intenções chinesas e, por outro, de uma falta de noção dos líderes chineses do real impacto no mundo de suas ações.

Yao defende que a ascensão da China já foi bem-vinda no Ocidente. Desde a crise, no entanto, o país tem sido cada vez mais visto como uma nação em busca da dominação.

Ele reconhece que há indícios que podem levar a essa conclusão, principalmente na área econômica, e cita como exemplos a recusa do governo em valorizar a moeda e também o avanço dos investimentos externos chineses, que chegaram a US$ 59 bilhões (cerca de R$ 95 bilhões) em 2010.

“O país está cheio de dinheiro, o governo está cheio de dinheiro e tem que cuidar de suas reservas, garantir que elas não vão perder o valor. O resultado tem sido buscar oportunidades de investimento por todo o mundo. Algumas pessoas veem nisso uma nova assertividade da China, quando, na verdade, é uma escolha natural de um país que se vê diante de um enorme fluxo de reservas em moeda estrangeira."

“A chamada assertividade da China é resultado do poder econômico e não de uma mudança estratégica que vá desafiar a ordem mundial”, resumiu.

Pragmatismo

O pesquisador diz que as razões por trás das decisões da China são geralmente pragmáticas e voltadas para a busca, muitas vezes complicada, de soluções para problemas domésticos.

Pragmatismo e boas intenções, no entanto, não significam que as ações da China não tenham um impacto negativo em outros países, reconhece Yao.

“A China se tornou imensa e suas ações afetam o mundo. Mas parece que os líderes chineses não têm consciência plena do impacto da China no resto do mundo. Isso pode criar a percepção de um fosso entre a China e outros países, o que é a maior fonte atual de conflitos, especialmente entre a China e o Ocidente”, disse.

Na opinião de Yao, com a intensificação desses conflitos, principalmente na área comercial, iniciativas como a dos Estados Unidos de buscar alianças com países como o Brasil para pressionar o governo chinês a valorizar sua moeda podem surtir algum efeito.

“Haveria um certo impacto se o Brasil realmente trabalhasse ao lado dos Estados Unidos, porque o Brasil é um país em desenvolvimento grande com o qual a China se preocupa."

Mas o acadêmico acrescentou que, para o Brasil, a aliança com os Estados Unidos é complicada por causa da política monetária “irresponsável” do governo americano, que jogou imensas quantidades de dólares no mercado mundial.

A questão central para o Brasil, segundo o acadêmico, não deveria ser a valorização do yuan, mas, sim, o aumento de sua competitividade industrial.

“O que o Brasil realmente precisa é de investir o que ganha com recursos naturais na ampliação de sua capacidade industrial”, afirmou.

“E a China pode oferecer algum tipo de ajuda nesta área, aumentando seus investimentos no país. O Brasil deveria incentivar mais investimentos da China para incentivar sua manufatura e infraestrutura”, recomendou.

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