Para estrangeiros, mudança de estilo é marca inicial da Era Dilma

  • Alessandra Corrêa
  • Da BBC Brasil em Washington
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No exterior, diferenças chamam atenção, mas também geram dúvidas

Cem dias depois de assumir o poder, a presidente Dilma Rousseff tem sido descrita no exterior como uma governante pragmática e com estilo diferente de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas, apesar de destacar mudanças de tom em temas como direitos humanos, a imprensa internacional e analistas estrangeiros ainda manifestam dúvidas sobre os rumos que o novo governo dará à política externa brasileira.

"A questão é: há ou não uma mudança na política? É apenas uma mudança de estilo? Ou há uma mudança substancial?", questiona o brasilianista Peter Hakim, presidente emérito do instituto de análise política Inter-American Dialogue, com sede em Washington.

Antes de ser eleita, Dilma era considerada mais "ideológica" do que Lula, e a expectativa era de que seu mandato seria basicamente uma continuação do governo de seu antecessor.

No exterior, a imagem da nova presidente começou a mudar a partir de uma entrevista concedida ao diário americano TheWashington Post em dezembro, logo após as eleições.

Na entrevista, Dilma disse que queria aprofundar os laços com os Estados Unidos - relação que enfrentou um certo distanciamento durante os dois últimos anos do governo Lula, devido a posições divergentes sobre alguns temas, particularmente o programa nuclear do Irã.

Dilma também disse ao jornal que não concordava com a abstenção do Brasil em uma resolução contra violações de direitos humanos no Irã.

Imprensa estrangeira

As duas declarações ao Washington Post bastaram para alimentar na imprensa estrangeira uma imagem de "rompimento" com as políticas de Lula.

Em um editorial publicado no início de fevereiro, o diário econômico Financial Times elogiou o que considerou uma mudança de estilo de Dilma em relação a Lula, ao afirmar que a presidente "rompeu com as políticas de seu antecessor de várias maneiras animadoras”.

Também o espanhol El País publicou uma reportagem sobre o que chamou de "sensível mudança de rumo" na política brasileira em relação aos Estados Unidos.

A revista britânica The Economist disse que Dilma "tranquilizou" quem achava que ela seria mais ideológica do que seu "pragmático" antecessor e deu mostras de que dará mais atenção aos direitos humanos na política externa brasileira.

Apesar de um certo consenso na imprensa internacional sobre a sinalização de uma mudança de rumo, porém, há a avaliação de que nenhum gesto até agora demonstra uma real diferença em relação à política externa do governo anterior.

"Nas grandes questões, houve pouca sinalização até agora. Sobre o tratamento do programa nuclear do Irã, não ouvimos ainda", diz Hakim.

Segundo o brasilianista, há no exterior a imagem de que Dilma e seu ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, são "menos combativos" do que Lula e o chanceler anterior, Celso Amorim. "Há a imagem de que, por questão de estilo, não querem provocar os Estados Unidos", afirma.

Hakim diz, porém, que essa imagem ainda não se traduziu em ações concretas nos principais temas de divergência entre Brasil e Estados Unidos nos últimos anos. "Já solucionaram Honduras? O acordo com a Colômbia? Cuba?", questiona.

Economia

A imagem de Dilma no exterior está ligada não apenas às suas declarações em defesa dos direitos humanos - em parte por conta de seu passado de combate ao governo militar, prisão e tortura - mas também ao fato de ser a primeira mulher a comandar o país e de ser considerada uma "administradora eficiente".

No mês passado, no Dia Internacional da Mulher, o jornal britânico The Guardian incluiu Dilma em uma lista das cem mulheres mais inspiradoras da atualidade. No artigo, a presidente é descrita como "uma guerrilheira socialista adolescente que enfrentou prisão e tortura" e como "administradora dura e pragmática".

Essa marca de competência na administração do país vem aliada à própria mudança de imagem do país no exterior, com o bom desempenho da economia após a crise mundial e um papel mais ativo em questões de política global.

No mês passado, uma pesquisa anual do Serviço Mundial da BBC conduzida em 27 países mostrou que as opiniões positivas sobre a influência do Brasil no mundo tiveram o maior aumento entre as nações pesquisadas, passando de 40% a 49%.

"O Brasil está em uma posição diferente agora. Subiu degraus", diz Hakim. "Mesmo dois anos atrás, uma vaga permanente no Conselho de Segurança parecia fora de alcance. Agora, parece inevitável para todos."

Há, porém, a consciência de que a presidente terá de enfrentar desafios, principalmente na área econômica, em meio a pressões inflacionárias e necessidade de cortes de gastos, para manter a posição de destaque do Brasil no cenário global.

"Dilma será julgada por sua performance na condução da economia", diz a reportagem da revista The Economist, ao afirmar que ela herdou uma economia "superaquecida, com inflação se acelerando e com empresários se queixando do real forte”.

“Poderá ela sustentar o rápido crescimento sem sacrificar a estabilidade econômica? A tarefa não é fácil”, diz a revista.