Dilma alia apelo feminino a estilo gerente em cem dias de governo

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Image caption Mesmo ressaltando o tema da mulher, presidente mantém o estilo 'gerente'

Em seus primeiros cem dias de mandato, a presidente Dilma Rousseff procurou reforçar seu lado "feminino", ressaltando o fato de ser a primeira mulher a comandar o governo, mas sem abandonar o estilo "executivo" que marcou a sua carreira pública.

O tema da mulher foi reforçado por Dilma logo em sua primeira viagem ao exterior, realizada em janeiro, na Argentina. Ao lado de sua colega Cristina Kirchner, ela ressaltou o fato de que os dois maiores países da América do Sul são governados por mulheres, e defendeu uma maior participação feminina na política.

Na mesma viagem, a presidente também se encontrou com representantes das Mães da Praça de Maio, grupo de mulheres que buscam informações sobre desaparecidos durante o regime militar argentino.

Além disto, ao fazer suas aparições na televisão, Dilma escolheu dois programas voltados principalmente ao público feminino - o Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga na Rede Globo, e o de Hebe Camargo, na RedeTV!.

Em março, uma pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que Dilma tinha uma maior aprovação entre mulheres do que entre homens. Durante a campanha eleitoral, levantamentos indicavam dificuldades da petista em ganhar o voto feminino.

Para o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, este foi o dado mais relevante da pesquisa, na qual 47% das pessoas consideram o governo ótimo ou bom - índice superior aos de Lula e Fernando Henrique Cardoso no mesmo período de seus mandatos.

"Creio que isto seja um resultado de uma estratégia dos primeiros meses de governo de focar e valorizar o fato de Dilma ser a primeira mulher presidente", diz Paulino.

Já segundo uma pesquisa CNI/Ibope divulgada em 1º de abril, 73% dos entrevistados aprovam Dilma, enquanto 12% desaprovam e 14% não opinaram. Estes números também superam Lula e Fernando Henrique no início de seus governos.

‘Gerente’

Apesar do reforço em sua imagem "feminina", analistas acreditam que Dilma não abandonou totalmente o estilo "gerente" ao qual foi associada durante o período em que foi ministra do governo Lula.

"Dilma está correspondendo à imagem de gerente, de técnica", diz o especialista em marketing político Carlos Manhanelli. “Não existe brincadeira no gestual, ela nem tenta se mostrar simpática. Isto é positivo, porque reforça a imagem verdadeira dela."

Para o sociólogo e professor da Unicamp Ricardo Antunes, Dilma está tentando se equilibrar entre a imagem de mulher e de "gerente" séria. "Ela quer mostrar que é possível ser sóbria e serena e, ao mesmo tempo, ter momentos de sensibilidade".

Antunes vê um exemplo disto na reação de Dilma ao caso do atirador que matou 12 pessoas em uma escola em Realengo, zona oeste do Rio. Durante cerimônia em Brasília, a presidente chorou e pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas.

"Ela claramente se emocionou de maneira sincera, e ela não pode mesmo ser uma general", diz o professor. "O povo brasileiro é muito sensível, o país ficou tocado com a tragédia."

Popularidade

A diretora-executiva do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari Nunes, não acredita que haja atualmente uma “transferência de popularidade” de Lula para Dilma. No fim do governo passado, pesquisas indicavam níveis recordes de aprovação popular para o ex-presidente.

“Lula não tem aparecido com Dilma, ela tem aparecido sozinha. Não é como na campanha, em que os dois apareciam juntos e acontecia uma transferência. Agora os dados são dela mesma”, afirma.

Cavallari destaca o fato de que 54% dos entrevistados pelo Ibope percebem diferenças nos estilos de governo de Lula e Dilma.

“O fato de Lula ser mais carismático faz com que ele seja mais próximo do povo, falando mais e aparecendo mais, mas isto não impede que Dilma também seja avaliada positivamente”, afirma.

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