Peru vai às urnas no domingo em pleito presidencial disputado

Humala em comício na quinta-feira Direito de imagem Reuters (audio)
Image caption Humala lidera pesquisas, seguido por 3 candidatos empatados

Quase 20 milhões de peruanos devem ir às urnas neste domingo para participar de eleições gerais em que se definirão o futuro presidente do país e a composição do novo Parlamento. O pleito é considerado como um dos mais disputados da história recente do Peru.

Na corrida presidencial, o candidato nacionalista Ollanta Humala aparece como um dos favoritos para ir ao segundo turno.

A segunda vaga está sendo disputada voto a voto, em um virtual empate técnico entre os candidatos conservadores Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Alejandro Toledo, ex-presidente (2001-2006), e seu ex-ministro de Economia Pedro Pablo Kuczynski.

Leia também na BBC Brasil: Filha de Fujimori aposta em legado do pai para avançar em eleições no Peru

O atual presidente, Alan García, não declarou apoio a nenhum candidato, mas ressaltou que somente "um" deles não dará continuidade a seu governo, em clara referência a Ollanta Humala.

Leia também na BBC Brasil: Líder em pesquisas no Peru se afasta de Chávez e se inspira em Lula

Humala promete incrementar a presença do Estado na economia do país e propõe a nacionalização de setores e recursos considerados estratégicos, como o petróleo e gás. Em seu último comício, Humala pediu à população "votar sem medo" de mudanças.

Mas, apesar de Humala ter adotado como estratégia a moderação de seu discurso e um distanciamento do presidente venezuelano, Hugo Chávez, a versão Humala "light" ainda encontra rejeição em parte do eleitorado.

Os demais candidatos, por sua vez, prometem ser, cada um, "a única alternativa" para impedir a chegada do nacionalista Humala à Presidência.

Leia também na BBC Brasil: Ex-presidente disputa voto a voto vaga no 2º turno no Peru

Dívida social

Quem sair vitorioso do processo eleitoral que começa neste domingo herdará um país com uma economia relativamente estável, mas com uma acentuada dívida social.

A economia do Peru cresceu a uma média de 7% nos últimos anos, o maior crescimento registrado na região, graças à alta dos preços dos minerais, uma das bases de sua economia. García fortaleceu a tendência econômica primária-exportadora, com uma política voltada à ampliação do livre comércio e de atração a investimentos estrangeiros.

Por outro lado, o crescimento da economia não trouxe uma redução da brecha social entre ricos e pobres. Cerca de um terço dos cerca de 30 milhões de peruanos vive na pobreza. No campo, esse índice supera 60% da população.

"A desigualdade social aumentou. A maior parte da população vê que há geração de riquezas, mas que não chegam até elas", afirmou à BBC Brasil o sociólogo David Sulmont, professor da Universidade Católica do Peru. "A economia cresceu mais do que o bem-estar da população."

Direito de imagem BBC World Service
Image caption Crescimento do país não reduziu desigualdade social

Para Lorena Alcazar, do Grupo de Análise para o Desenvolvimento (GRADE), o principal desafio do novo presidente será diminuir a brecha social que, a seu ver, gera tensão, em especial nas classes populares.

"O Estado precisa desenvolver políticas sociais e reformas de primeira e segunda geração para superar as desigualdades. Isso significa gastar mais e administrar melhor esses recursos", afirmou Alcazar à BBC Brasil.

O analista Fernando Tuesta, diretor do Instituto de Opinião Pública (IOP) da Universidade Católica do Peru, questiona, ainda, a sustentabilidade do atual modelo econômico, que tem sido elogiado pelos principais candidatos presidenciais.

Para Tuesta, García incrementou a dependência da economia peruana, no lugar de apostar na diversificação. "Se, com essa dívida social acumulada, entrarmos em um novo período no qual os preços (das matérias-primas) deixariam de ser favoráveis, a situação poderia se complicar.”

Interesses brasileiros

As empreiteiras brasileiras, por sua vez, veem o Peru como um polo importante de investimentos. Brasil e Peru assinaram acordos para a construção de seis hidrelétricas, cujo investimento total pode alcançar US$ 16 bilhões.

Outro grande projeto de infraestrutura que envolve os dois países é a construção da rodovia interoceânica, que permitirá ao Brasil uma saída ao Pacífico. Essa obra, que já teve um ramo inaugurado no ano passado, é executada pela Odebrecht, uma das empresas brasileiras com maior presença no país andino.

Durante a campanha, as empresas também evidenciaram suas preferências e apareceram como uma das principais financiadoras da campanha do ex-presidente Alejandro Toledo. As empreiteiras Queiroz Galvão, Galvão Engenharia e Camargo Correa doaram pouco mais de US$ 300 mil à campanha de Toledo.

"O Brasil quer se consolidar cada vez mais como líder regional, não só no político, como também na economia. A expansão das empresas brasileiras pela região e no Peru é um sinal disso", afirmou David Sulmont, da Universidade Católica do Peru.

Parlamento

De acordo com pesquisas e especialistas, nenhum candidato presidencial conseguirá obter apoio da maioria das 130 cadeiras na composição do novo Parlamento, o que deve obrigar o vencedor a formar um governo de coalizão.

Analistas veem como uma aliança natural a coalizão dos partidos de centro e direita.

Caso Humala mantenha seu favoritismo, teria de negociar com essas correntes políticas, mesmo antes do segundo turno, e flexibilizar parte de seu projeto de governo.

Cerca de 150 observadores internacionais, incluindo a Organização de Estados Americanos (OEA), acompanharão as eleições peruanas. O voto no Peru é obrigatório.

Notícias relacionadas