Testemunhas relatam 23 mortos em protesto no sul da Síria

Curdos protestam na cidade de Qamishli Direito de imagem Reuters
Image caption Protestos antigoverno já se espalham por pelo menos seis cidades sírias

Testemunhas ouvidas pela BBC dizem que pelo menos 23 pessoas morreram em um protesto contra o governo da Síria realizado nesta sexta-feira na cidade de Deraa, no sul do país.

Segundo a correspondente da BBC Lina Sinjab, que está na capital síria, Damasco, forças de segurança teriam atirado com balas de verdade contra os manifestantes, que saíram às ruas após as tradicionais orações islâmicas de sexta-feira.

Lina Sinjab disse que é difícil estimar quantos exatamente ficaram feridos, mas acredita-se que tenham sido dezenas.

Noticiando o protesto, a televisão estatal síria disse que 19 membros das forças de segurança foram mortos e outros 75 foram feridos "por grupos armados" em Deraa.

A cidade tem sido foco de manifestações desde que os protestos antigoverno tiveram início no país, em meados de março.

Outras cidades

Também houve protestos pró-liberdade e relatos de manifestantes mortos em outras cidades da Síria nesta sexta-feira.

A correspondente da BBC diz que, na cidade de Duma, perto da capital, a internet foi bloqueada, assim como a rede de telefonia celular.

Policiais também foram mobilizados durante protestos em Homs, Latakia e Hama, no oeste, e Harasta, no sul do país. As forças de segurança teriam usado gás lacrimogêneo e canhões d’água em alguns casos.

Em cidades com maiorias curdas no norte da Síria, os manifestantes teriam gritado frases como "pedimos liberdade, não só cidadania" em resposta ao fato de o presidente Assad ter concedido cidadania para os curdos na região de Hasaka, no leste do país, na última quinta-feira.

De acordo com Sinjab, muitas pessoas foram às ruas pedir mais liberdade. No entanto, ao saber das mortes em Deraa, eles começaram a pedir pelo fim do regime.

Ela afirma que a população está frustrada porque Assad não implantou reformas até agora.

Reformas

Analistas dizem que os protestos são um desafio sem precedentes no governo de 11 anos do presidente Assad. Ele propôs a implantação de reformas, mas os ativistas dizem que as propostas não são suficientes.

A crise atual começou há algumas semanas, após a prisão de adolescentes que haviam pintado frases contra o governo em um muro na cidade.

Ativistas e grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que entre 60 e 130 pessoas morreram nos choques com as forças de segurança nas últimas semanas, mas o governo estima o número de mortos em cerca de 30.

A Síria é um dos países do Oriente Médio que têm registrado manifestações pró-democracia que já derrubaram os governos de Tunísia e Egito.

Na semana passada, Bashar Al-Assad não conseguiu acalmar os ânimos do país ao afirmar em um discurso que os protestos são resultado de uma conspiração internacional e que estudaria uma revisão das leis que restringem as liberdades individuais.

Leia mais na BBC Brasil: Assad diz que derrotará 'complô' contra seu governo

Assad admitiu a necessidade de reformas, mas disse que elas seriam feitas de acordo com o ritmo determinado por seu governo e não sob pressão.

As leis do país permitem ao governo deter pessoas sem acusações, restringe encontros públicos e aglomerações e movimentos de pessoas.

A legislação está em vigor desde 1963 e é, segundo analistas, bastante impopular.

Notícias relacionadas