Dilma se prepara para pedir na China 'reciprocidade em relação entre iguais'

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Image caption Dilma Roussef foi recebida pelo primeiro-ministro grego, George Papandreou, em sua visita à Grécia antes de ir à China

A presidente Dilma Roussef desembarcará em Pequim nesta segunda-feira com o desafio de criar bases para uma relação na área comercial e de investimentos baseada na "reciprocidade".

Foi esse o tom do primeiro recado da presidente aos chineses em entrevista à agência estatal Xinhua antes de sua primeira visita oficial como presidente à segunda maior economia do mundo.

Segundo a Xinhua, Dilma Rousseff afirmou que "poderia haver mais cooperação entre os dois países em áreas estratégicas como inovação, uma vez que o Brasil está determinado a agregar valor a seus recursos naturais".

A presidente, ainda de acordo com a nota da agência, disse que a futura cooperação ente os dois países deve ser baseada na "reciprocidade".

"Esta é uma relação que, eu acredito, será muito bem desenvolvida entre os dois países porque há algumas áreas em que a China pode ser crucial para o Brasil e outras em que o Brasil pode ser crucial para a China (…) baseada em um conceito que eu considero muito importante em uma relação entre iguais: a reciprocidade", disse.

O conceito de reciprocidade vem sendo usado frequentemente em uma análise crítica das relações bilaterais que defende mais acesso ao mercado chinês para produtos brasileiros de maior valor agregado, melhor tratamento a empresas brasileiras na China, como a Embraer, e também investimentos no Brasil que agreguem valor à cadeia produtiva e não sirvam apenas para saciar a sede chinesa por matérias-primas.

Os números que embasam a defesa do discurso da reciprocidade são bem claros. A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil em 2009. Mas as características dessa pauta comercial deixam o Brasil, na opinião de muitos setores, em posição de desvantagem.

Cerca de 95% das exportações brasileiras para a China são de matérias-primas. A via contrária, da China para o Brasil, é dominada quase em sua totalidade por produtos industrializados.

Além de principal parceiro comercial, o país se tornou também o principal investidor estrangeiro no Brasil em 2010. E também a área de investimentos diretos reflete a sede chinesa por commodities que sustentem seu crescimento.

Segundo o Centro de Estudos Brasileiros da Academia Chinesa de Ciências Sociais, 85% dos investimentos no Brasilestão nos ramos de mineração e petróleo. Além disso, empresas brasileiras como a Embraer enfrentam grandes dificuldades em suas operações na China.

Impacto negativo

Em entrevista já em Pequim, neste domingo, o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloízio Mercadante, insistiu na importância da busca de uma relação com a China que não dependa do tradicional papel brasileiro de exportador de produtos básicos.

"O Brasil precisa definir suas prioridades e um olhar mais aproximado para a China talvez ajude a gente a não se acomodar em ser uma economia produtora de commodities. Se não, corremos o risco de ficar prisioneiros da doença holandesa", referindo-se ao impacto negativo sobre o setor industrial da forte exportação de recursos naturais.

Mercadante defendeu que o país aproveite a valorização das commodities e os recursos que isso gera ao país para criar um projeto de desenvolvimento futuro baseado na produção de alta tecnologia.

A avaliação de Mercadante encontra eco entre chineses. Em entrevista à BBC Brasil, o diretor do Centro de Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim, Yang Yao, disse que o Brasil deveria buscar mais cooperação da China em busca de competitividade.

"O que o Brasil realmente precisa é de investir o que ganha com recursos naturais em ampliar sua capacidade industrial", disse Yang Yao.

"E a China pode oferecer algum tipo de ajuda nesta área aumentando seus investimentos no país. O Brasil deveria encorajar mais investimentos da China para incentivar sua manufatura e infraestrutura", recomendou.

Brics

Além da visita oficial à China, sua terceira viagem ao exterior desde que tomou posse, Dilma Rousseff participa, na cidade de Sanya, da cúpula dos países que integram o grupo dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e que passa agora a incluir a África do Sul).

De lá, vai para a cidade de Boao para participar do Fórum de Boao para a Ásia, um encontro de empresários da região.

O roteiro prevê ainda uma visita à cidade de Xi'an, na província de Shanxi, onde a presidente visitará o centro de pesquisa de uma empresa chinesa, ZTE, com interesses no Brasil.

Dilma Rousseff embarca de volta à Brasília no sábado.

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