Para Dilma, agenda dos Brics não prevê confronto com outros países

O preimiê da Índia, Manmohan Singh, o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, o líder da China, Hu Jintao, e a presidente do Brasil, Dilma Rousseff (foto Reuters) Direito de imagem REUTERS
Image caption Agenda do bloco é inclusiva, afirmou a presidente

A presidente Dilma Rousseff disse, durante o terceiro encontro de cúpula dos Brics, na China, que as cinco nações "não se organizam contra nenhum grupo de países" e defendeu que a "verdadeira prosperidade tem de ser compartilhada por todos".

"A agenda dos Brics não se define por oposição a nenhum outro grupo. Queremos agregar", disse. "Somos a favor de um mundo multipolar, sem hegemonias nem zonas de influência", acrescentou.

Durante o encontro, os países buscaram consenso em alguns temas de interesse comum e defenderam uma reforma no sistema monetário internacional "com reservas internacionais de ampla base", uma alusão às propostas de diversificar a actual dependência do dólar como moeda de referência.

O documento faz menção ao apoio dos países à atual discussão sobre a composição da cesta de moedas do FMI. Não houve, no entanto, menção à proposta especifica de incluir o yuan nesse sistema de reservas do fundo - o Direito Especial de Saque (SDR, na sigla em inglês).

O apoio à reforma do sistema monetário é dado no mesmo parágrafo em que os países dizem reconhecer que a crise internacional expôs as deficiências do sistema atual.

Os países se comprometem a fortalecer a parceria dos Brics pelo desenvolvimento de forma pragmática e reitera que essa cooperação é "inclusiva e não de confronto".

O comunicado dos cinco países pediu atenção também para os riscos do grande fluxo de capitais para as economias emergentes. Esse fluxos, em países como o Brasil, com câmbio livre, geram valorização da moeda local e consequências variadas, como a perda de competitividade de exportações.

Crédito em moeda local

Entre os planos de ação, previstos pelo comunicado conjunto, está uma maior cooperação entre os bancos de desenvolvimento de cada país para fomentar investimentos. Dessa cooperação, já surgiu uma proposta, acatada pelos cinco países, de desenvolver um mecanismo de concessão de crédito cruzado em moeda local.

Após a declaração dos líderes, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse que esse mecanismo de financiamento em moeda local teria como objetivo principal estimular e facilitar investimentos entre os países do grupo.

Os países delinearam também bases para uma cooperação maior na ONU destacando que, neste ano, todos os cinco membros do grupo fazem parte do Conselho de Segurança. No entanto, apenas Rússia e China são membros permanentes com poder de veto.

"Estamos todos os Brics no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o poder de desenvolver um trabalho conjunto e entendimento de que o uso da força não pode ser precipitado e a diplomacia e negociação devem ser privilegiadas", disse Rousseff ao lado do presidente Jacob Zuma, da África do Sul, do presidente Hu Jintao, da China, Dimitri Medvedev, presidente da Rússia, e Manmohan Singh, premiê da Índia.

Sobre a Líbia, tema sobre o qual todos os membros dos Brics se abstiveram, exceto da África do Sul, que votou a favor da resolução da ONU, os líderes demonstraram preocupação com as mortes de civis, resultantes dos bombardeios autorizados pela ONU, e reiteraram a importância da busca por soluções diplomáticas.

Reformas

O comunicado conjunto reiterou o apoio dos países do grupo a uma reforma nos organismos multilaterais, como a ONU, o Banco Mundial e o FMI, que aumente a participação dos países emergentes e em desenvolvimento.

O presidente russo falou da importância de se garantir a segurança alimentar e disse que o grupo tem visões compartilhadas sobre a necessidade de redução da volatilidade no preço das commodities.

Ainda não está claro se o Brasil assumiu algum compromisso concreto a esse respeito, já que é contra a imposição desse tipo de controle. O tema será discutido no encontro do G-20 na França na semana que vem.

A polêmica questão do yuan artificialmente desvalorizado, e o impacto disso em economias como a brasileira, não foram discutidos pelo grupo, mais interessado na busca de temas consensuais.

"Nós compartilhamos da visão de que o mundo esta passando por mudanças de longo alcance, complexas e profundas, marcadas pelo fortalecimento da multipolaridade, globalização e crescente interdepêndencia", diz o comunicado.

Os líderes se dizem profundamente preocupados com os acontecimentos no Oriente Médio, no Norte da África e na África Ocidental, e afirmam esperar que os países afetados alcancem a paz.

"Nós compartilhamos do princípio de que o uso da força deva ser evitado. Nós mantemos que a independência, soberania, unidade e integridade territorial de cada nação deva ser respeitada", disse o comunicado.

A sigla Bric foi cunhada pelo economista Jim O'Neill, do banco de investimentos Goldman Sachs, em 2001. Nesta cúpula, o bloco ganhou um ''S'' de ''South Africa'' (África do Sul) e, apesar de na ocasião ainda não ser um grupo institucionalizado, prometeu intensificar a cooperação nas mais diversas áreas.

Notícias relacionadas