Brasil está no meio de um ciclo de aperto monetário, diz Tombini

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Image caption O fluxo de capitais pode comprometer a estabilidade financeira

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse nesta sexta-feira em Washington que o Brasil está no meio de um ciclo de aperto monetário e que ainda há muito a ser feito para evitar que o fluxo excessivo de capitais que entra no país e a consequente pressão inflacionária coloquem em risco a estabilidade financeira.

"Estamos no meio de um ciclo de aperto, estamos apertando as condições monetárias no Brasil, e por outro lado estamos lidando com esses efeitos diretos e indiretos dos fluxos de capital", disse Tombini, em palestra no seminário Perspectivas Econômicas para a América Latina, promovido pelo Brookings Institution, em Washington.

"Desde 2010 nós aumentamos nossa taxa (básica de juros) em 300 pontos básicos", disse Tombini, que participa na capital americana da reunião de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 (grupo das principais economias avançadas e em desenvolvimento, do qual o Brasil faz parte).

"Eu acho que ainda temos trabalho pela frente", afirmou. "Temos de ser muito cuidadosos para garantir que os níveis extraordinários de liquidez não comprometam nossa estabilidade financeira."

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central se reúne na próxima semana para discutir um possível novo aumento na taxa básica de juros (Selic), atualmente em 11,75% ao ano.

Inflação

As crescentes pressões inflacionárias no Brasil já fizeram com que o Banco Central projetasse inflação de 5,6% para este ano (acima do centro da meta, que é de 4,5%, mas ainda dentro do teto de dois pontos percentuais para cima) e convergirá para o centro em 2012.

Mesmo essa projeção, porém, já é questionada por alguns analistas de mercado, que temem que a inflação neste ano será mais alta.

Segundo Tombini, os fluxos de capital "são inflacionários e têm o potencial de colocar a estabilidade financeira em risco".

O volume excessivo de capital estrangeiro verificado no Brasil e em vários outros mercados emergentes chega em parte atraído pelas altas taxas de juros, em um momento em que economias avançadas ainda enfrentam uma lenta recuperação.

"Estamos tendo de abordar nosso problema inflacionário em um mundo de enormes fluxos de capital", disse Tombini.

O presidente reafirmou que o Banco Central "deixou claro" que a convergência para o centro da meta de inflação virá em 2012.

Crédito

Tombini também abordou o problema do excesso de crédito no Brasil. O Banco Central já adotou medidas para tentar conter o rápido aumento que facilita o consumo e, consequentemente, aumenta o risco de inflação.

"O que vimos ultimamente é que muito dinheiro está sobre a mesa, e esse dinheiro forneceu um impulso ao crescimento do crédito no Brasil. Em uma velocidade que achamos está maior do que o que seria adequado", afirmou.

O presidente do Banco Central disse ainda que o Brasil está se preparando para o impacto que a recuperação das economias avançadas teria sobre o país, com uma possível mudança brusca no cenário atual.

"Queremos assegurar que estamos nos preparando para as estratégias de saída das economias avançadas", disse Tombini.

"Chegará o dia em que as condições monetárias e financeiras começarão a se normalizar nos Estados Unidos e em outros países. E nós temos de estar preparados para isso."

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