Fórum no Rio reúne empresários em clima de dúvida sobre inflação e câmbio

Indústria brasileira (AP) Direito de imagem AP
Image caption Países como Brasil sofrem efeitos de grande volume de entrada de capitais

O Fórum Econômico Mundial da América Latina reúne no Rio centenas de empresários de todo o mundo a partir desta quinta-feira, de olho em oportunidades de explorar o potencial da região e em meio a dúvidas sobre a inflação e o câmbio, principalmente no Brasil.

Para o economista Antonio Corrêa de Lacerda, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), "o problema do desbalanceamento monetário e cambial que se observa hoje no mundo" é o tema internacional que deve influenciar as discussões.

"A forma de os países em crise adotarem a expansão monetária como forma de expandir suas economias tem gerado problemas para países como o Brasil, que sofrem o efeito do influxo excessivo de capitais, gerando a inflação de seu câmbio", avalia.

Para Ricardo Teixeira, professor do FGV Management, da Fundação Getúlio Vargas, a inflação – que, no Brasil, tem provocado temores de que o governo não consiga manter o índice abaixo do teto de 6,5% para 2011 – é outro assunto que domina o debate econômico.

"Não é um problema da América Latina, é um problema que está assustando todo o mundo, e aqui assume um contorno um pouco mais perigoso pelas experiências passadas dos países. Ninguém quer voltar a ter uma indexação na economia", ressalta.

Teixeira diz que as discussões sobre planejamento e integração programadas para o fórum são importantes para afastar a ameaça. "O Brasil já aprendeu que formar alianças com parceiros tanto na sua região como na África e na Ásia é muito bom para ajudar a enfrentar crises."

Agenda

O encontro regional do Fórum Econômico Mundial, que realiza todos os anos sua reunião global em Davos (Suíça), tem como tema "Criando a Plataforma para uma Década Latinoamericana".

De acordo com a diretora para a América Latina do Fórum, Marisol Argueta de Barillas, as prioridades são fortalecer a governança regional e internacional; incentivar a inovação e a produtividade para um crescimento igualitário; e promover parcerias que levem a um desenvolvimento sustentável.

O evento contará com 700 participantes, um número recorde de inscritos, entre autoridades governamentais, acadêmicos, empresários e representantes de ONGs.

A presidente Dilma Rousseff deve fazer um pronunciamento na sexta-feira. Também estarão presentes chefes de Estado e representantes dos governos da República Dominicana, Trinidad e Tobago, Barbados, México, Chile e Colômbia, bem como o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

"Esta união para pensar o futuro da década é muito importante para que a região ganhe outro peso em termos mundiais", avalia Ricardo Teixeira.

"Embora a América Latina já tenha um peso bastante razoável, com três países integrando o G-20, o ambiente de negócios internacional ainda privilegia outras áreas para fazer investimentos e deixa a América Latina como coadjuvante no mercado global."

Desequilíbrios comerciais serão tema de uma das sessões do encontro, que falará sobre como diversificar exportações para além das commodities.

Ruy Quintans, professor do Ibmec-RJ, afirma que os países da região devem desenvolver estratégias conjuntas para produzir bens de maior valor agregado, e ressalta que o foco nas commodities favorece a concentração de renda.

"É importante enfocar mecanismos de desenvolvimento econômico integrado que possam ser usados amplamente na região", diz Quintans. "Por exemplo, criando políticas alfandegárias integradas, incorporando bons exemplos de projetos de educação e usando parcerias em tecnologia para diversificar a produção."

Comércio

O desequilíbrio no comércio com a China, com a importação de manufaturados e a exportação de commodities, também estará em pauta.

"A China representa uma ameaça, porque tem um câmbio desvalorizado e nem sempre cumpre as regras leais de comércio, mas também uma oportunidade, porque é um dos maiores mercados do mundo", diz Antonio Corrêa de Lacerda. "As oportunidades de parcerias, desenvolvimento e comércio precisam ser discutidas e aprimoradas."

Outros temas na pauta serão as necessidades na área de infraestrutura, o papel da América Latina no novo cenário global, formas de alcançar um crescimento inclusivo e como permitir que a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil alavanquem o crescimento econômico e o progresso social.

Corrêa de Lacerda diz que as discussões são importantes, mas aponta que a eficácia na implementação das medidas "fica prejudicada".

"Os fóruns para que elas se efetivem estão nas grandes organizações multilaterais: o G20, a OMC (Organização Mundial do Comércio), o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial", afirma. "Mas quanto mais espaço para discussão, melhor, as discussões trazem ideias e aumentam a pressão por mudanças."

Notícias relacionadas