Cientistas dos EUA 'previram' em 2009 paradeiro de Bin Laden

Imagem satelital do Paquistão (BBC)
Image caption Cientistas se valem de imagens satelitais em estudo

A Agência Central de Inteligência (CIA), dos Estados Unidos se dedicou por quase uma década a seguir os passos do ex-líder da rede Al-Qaeda, Osama Bin Laden, morto em uma operação militar realizada por tropas americanas no Paquistão.

Mas em 2009, um grupo de cientistas antecipou com alto grau de precisão o paradeiro do homem mais procurado pelo governo dos Estados Unidos.

Se baseando em um modelo de probabilidades, uma equipe de geógrafos da Universidade da Califórnia (UCLA) afirmou que havia cerca de 88,9% de chance de que Bin Laden - apontado como o ''cérebro'' por trás dos ataques de 11 de setembro de 2001 - estivesse a menos de 300 quilômetros de Tora Bora, no Afeganistão, a região em que ele tinha sido avistado pela última vez.

Um mês após os atentados de 11 de setembro de 2001, foram interceptadas conversas de rádio que levaram as tropas americanas a realizar ataques contra a região montanhosa de Tora Bora, que abrigaria o suposto esconderijo de Bin Laden.

''Usamos essa informação, assim como princípios de geografia e imagens por satélite, para concluir que ele estava no Paquistão, em uma área que distava 300 quilômetros de Tora Bora'', disse à BBC Mundo - o serviço hispânico da BBC - Thomas Gillespie, professor da UCLA e autor da investigação.

A cidade de Abbottabad, no Paquistão, onde Bin Laden foi encontrado e morto no domingo passado, fica a cerca de 280 quilômetros de Tora Bora.

Teorias

As hipóteses de Gillespie se basearam em noções básicas da especialidade dele: a biogeografia, a ciência que estuda a distribuição geográfica dos seres vivos no espaço ao longo do tempo.

O estudo, que foi publicado em fevereiro de 2009 na publicação MIT International Review, do prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), ganhou agora uma nova relevância.

Por trás das conclusões, há duas teorias que geógrafos e ambientalistas usam para estabelecer estratégias de conservação da fauna: a da ''decadência por distância'' e da ''ilha biogeográfica''.

A primeira teoria sugere que uma espécie não costuma se deslocar para áreas muito distantes de seu ecossistema. Aplicada a grupos de seres humanos, a teoria é de que um indivíduo não tende a ir para uma área distante de seu ambiente sociocultural reconhecível em situações de emergência ou se tem que garantir a sua sobrevivência.

''À medida que um indivíduo se distancia de seu habitat de referência, a possibilidade de encontrar um ambiente similar diminui exponencialmente. Quanto mais longe Bin Laden se distanciou, mais encontrou uma composição diferente da dele e, portanto, mais se tornou vulnerável à detecção'', explica Gillespie.

Em sua análise, os cientistas não optaram por Abbottabad - a cidade em que Bin Laden foi encontrado - mas a cidade julgada como sendo o mais provável refúgio de Bin Laden foi Parachimar, na região tribal de Kurran. De acordo com eles, haveria 98% de possibilidade de o líder da al-Qaeda estar por lá.

''Em termos globais, tivemos uma margem de erro, mas Abbottabad está a 400 quilômetros de lá e dentro da zona definida como 'altamente provável' (de que Bin Laden estivesse refugiado)'', afirmou o acadêmico.

Abbotabbad, a 'ilha'

As previsões de Gillespie se mostraram ainda mais precisas nas análises em termos regionais e locais: que o líder saudita estaria em uma cidade e em uma casa com características semelhantes às do complexo onde o líder da Al-Qaeda foi morto.

Para esta tarefa, geógrafos utilizaram dados de de rastreamento à distância, provenientes de satélites, e um arquivo fotográfico administrado pela agência espacial Nasa.

''Mas não se tratavam de informações confidenciais, mas sim de imagens disponíveis na internet, para qualquer usuário que as desejasse ver ou, como nós, para servir a uma hipótese científica'', comentou o geógrafo.

Eles descartaram, de antemão, que o ativista estivesse refugiado em uma caverna, como inicialmente havia se especulado, porque um refúgio entre as rochas exigiria um sistema de ventilação e o fornecimento regular de água e mantimentos, o que seria facilmente detectável através de imagens aéreas.

Mas uma cidade, no entanto, atende à teoria de ''ilha biogeográfica'', que Gillespie aplicou geralmente a seus estudos de aves. A tese estabelece que se um ser vivo tem que tratar de sobreviver, ele buscará um ecossistema com baixo nível de extinção.

Em termos comparativos, se uma espécie é isolada, por exemplo, no Havaí, ela terá mais chances de sobreviver do que se for deixada em uma ilha remota com escassa vegetação. Ou seja, se Osama Bin Laden estava tentando passar despercebido, era muito mais fácil fazê-lo em uma ''ilha'' do tamanho de uma cidade do que em uma aldeia com algumas poucas casas.

O documento acadêmico deu um passo além, ao teorizar sobre como deveria ser a casa que abrigaria o comandante da Al-Qaeda e outros militantes.

Baseando-se nos atributos físicos de Bin Laden e no que se sabia sobre o seu estilo de vida, os cientistas estabeleceram que a residência deveria ter uma altura superior à altura de Bin Laden, que media entre 1,92 e 1,95 metros, além de ter de contar com um sistema elétrico que permitiria carregar a máquina de diálise com qual ele se tratava regularmente.

"Também consideramos que o complexo deveria ter pelo menos três quartos para abrigar os guardas e muros a seu redor de pelo menos 3 metros. A casa onde ele foi encontrado tinha uma notável semelhança com a que apresentamos no estudo", disse o professor da UCLA.

Notícias relacionadas