Uruguaia conta como foi salva por enxurrada de cartas em prisão na ditadura

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Image caption Maria foi presa pela ditadura uruguaia aos 15 anos de idade

Para Maria Gillespie, as lembranças do que ela passou em uma prisão no Uruguai, quando ela tinha apenas 15 anos, são quase insuportáveis.

Ela se lembra de ter sido encapuzada, interrogada e torturada.

Gillespie teve seus dentes arrancados um a um, até não sobrar nenhum.

Mas ela também se lembra de quanto deve a uma organização cuja ação colocou um fim no horror que vivia e acabou lhe devolvendo a liberdade: a Anistia Internacional, que está completando 50 anos.

"Não acho que dizer obrigada é suficiente", diz Gillespie, em referência a militantes da Anistia em todo o mundo que fizeram campanha para que ela fosse libertada.

"Acho que devo minha vida a eles", disse a ex-prisioneira política, que conseguiu sua libertação após uma intensa campanha de cartas promovida pela ONG. Maria foi libertada e recebeu asilo político na Grã-Bretanha, onde vive até hoje.

A ONG de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional foi fundada 12 anos antes de Gillespie ter sido presa.

A entidade pede ação coletiva da população do planeta em nome daqueles que são presos injustamente no mundo.

Maria Gillespie passou a integrar este grupo após os militares tomarem o poder no Uruguai, em 1973, e instaurarem no país um governo de repressão severa.

Ela disse ao programa Witness, da BBC, que embora ainda fosse jovem, já estava casada com um sindicalista procurado pelas autoridades que havia fugido do país.

Na ausência do seu marido, apenas algumas semanas após ela ter dado à luz uma menina, Maria Gillespie foi presa.

Dor Terrível

Ela foi acusada de ajudar inimigos do governo e sentenciada a 75 anos de prisão.

Assim teve início seu confinamento em uma prisão solitária, um cubículo sem janelas iluminado apenas por uma lâmpada elétrica.

Gillespie descreveu os sons que ouvia através das paredes: "Pessoas gritando. Sons que pareciam ser de pessoas sendo arrastadas de um lugar para outro e, então, tiros. Depois, tudo ficava em silêncio".

Com a cabeça encapuzada, ela foi levada várias vezes para interrogatórios. Os militares queriam saber sobre os associados do marido de Gillespie, mas ela não sabia nada a respeito de suas atividades e não tinha respostas.

"Uma vez, você podia ouvir uma criança chorando. Eles disseram que era a minha filha e que se eu não os ajudasse, algo aconteceria com ela - ainda assim, eu não pude ajudar".

Então uma nova prática foi adotada: toda vez que ela não respondia a uma pergunta, eles arrancavam um de seus dentes.

Os torturadores tiveram de parar quando ela não tinha mais dentes.

"Perdi todos", ela disse.

"Simplesmente horrível. A dor. E incapaz de entender por que. Não havia necessidade".

Até que, um dia, extraordinariamente, um guarda entregou-lhe um cartão postal.

O postal, escrito em inglês, enviado da Escócia, dizia: "Querida Maria. Pensando em você. Margaret."

Ela disse aos guardas que a correspondência não podia ser para ela porque ela não conhecia ninguém na Escócia. Mas eles insistiram que o postal tinha sido endereçado a ela.

Alguns dias depois, chegou um outro cartão, desta vez da França, seguido por mais um, do Canadá, e outro, dos Estados Unidos.

Sob Pressão

Logo, começaram a chegar torrentes de cartas.

Em um dado momento, os guardas disseram que entregariam a ela apenas algumas das cartas mais recentes. Eles lhe passaram 900 postais.

Maria Gillespie via as palavras Anistia Internacional nos postais, mas nunca tinha ouvido falar da organização e não entendia por que as correspondências estavam sendo enviadas.

Ela se preocupava, pensando que talvez a Anistia fosse um grupo comunista, e tinha medo de que o apoio da entidade pudesse causar a ela ainda mais problemas.

As autoridades, no entanto, estavam cedendo à pressão.

Talvez se sentissem pouco confortáveis com a ideia de que pessoas decentes em torno do mundo estavam observando enquanto eles torturavam uma menina de 15 anos.

Finalmente, Maria Gillespie foi levada a uma sala cheia até a metade com sacos de cartas endereçadas a ela.

Ela não tinha dúvida de que toda essa atenção tinha se tornado um problema. Gillespie foi libertada um ano depois.

Forçada pelas autoridades a deixar o país, a ex-prisioneira foi colocada em um barco e enviada para a Argentina.

Nas ruas de Buenos Aires, ela viu uma placa com as palavras que tinha visto nos cartões: Anistia Internacional.

Ela entrou em contato com os militantes da organização e gradualmente começou a entender como a entidade a havia salvo.

Mais tarde, Maria Gillespie recebeu asilo político na Grã-Bretanha e reencontrou o marido e a filha.

Hoje, em seu segundo casamento, a ex-prisioneira vive em Chester, no noroeste da Inglaterra.

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