Erradicadores se arriscam para reduzir cultivo de coca na Colômbia

Foto: Programa contra Cultivos Ilícitos da Colômbia Direito de imagem Programa contra Cultivos Ilicitos da Colombia
Image caption Trabalhadores são escoltados pelo exército até os campos de cultivo

Pelo terceiro ano consecutivo, a área cultivada de coca na Colômbia foi reduzida, segundo a ONU. Um dos fatores para a redução de 13%, entre 2009 e 2010 (de 68 mil para 57 mil hectares plantados) teria sido o trabalho dos chamados "erradicadores", homens que arrancam manualmente as plantações ilícitas.

Os erradicadores são contratados pelo Programa contra Cultivos Ilícitos (PCI) do governo colombiano. Escoltados pelo Exército ou pela Polícia Nacional, na tarefa de arrancar pela raiz as plantas de coca. Para isso, recebem um salário mensal de 609 mil pesos colombianos (cerca de R$ 541) e seguro de saúde.

O trabalho é perigoso: o saldo em cinco anos foi de 174 feridos e 58 mortes, vítimas de ataques ou de minas (bombas) enterradas por cultivadores ou grupos de guerrilheiros.

A BBC Brasil conversou com o erradicador José Miguel Molano, que trabalha na função desde que o programa foi iniciado, em 2006. Morador da região de Guaviare, a 376 km de Bogotá, ele diz já ter se acostumado à rotina de trabalho, mas conta que, quando chega a uma área cultivada, sempre vive um momento de tensão.

"Nós vamos de helicóptero ou de ônibus, e os soldados vão antes, pra ver se está tudo bem. Eles ficam o tempo todo conosco, mas, mesmo assim, quando começamos a arrancar a coca, ficamos nervosos e com medo de ataques. Isso dura uns 20 minutos, e depois que estamos lá dentro, nos acostumamos", diz.

O horário de trabalho depende das condições climáticas e de segurança. José conta que pode trabalhar oito horas seguidas ou sequer completar quatro. Em cinco anos de trabalho, ele jamais foi ferido.

"Graças a Deus, eu nunca me machuquei. Mas muita gente se machuca, fica mutilada por causa das bombas. No ano passado, dois soldados do meu grupo morreram por causa de um ataque da guerrilha", conta.

O erradicador diz estar feliz com o trabalho que realiza. Antes de ingressar no PCI, ele estava desempregado. "Agora tenho emprego e sei que estou fazendo algo bom. Um dia mesmo, uma senhora me agradeceu porque a guerrilha tinha plantado coca em suas terras, contra a sua vontade", conta.

Eficácia

Os grupos de erradicadores são monitorados pela Oficina das Nações Unidas contras as Drogas e o Delito (UNODC), que acompanha o processo e mede quantos hectares são arrancados. A ONU avalia que a erradicação é mais eficaz do que a técnica do "fumacê" – pulverização aérea de herbicidas - utilizada na Colômbia desde 2001.

"Arrancar as plantas pela raiz é muito melhor do que usar o fumacê, porque os cultivadores colombianos começaram a trazer espécies de coca mais resistentes do Peru e da Bolívia, que sobreviviam aos herbicidas pulverizados", diz Guillermo Garcia, oficial da UNODC em Bogotá.

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Image caption Arrancar raízes se msotrou mais eficaz do que pulverizar as plantações de coca

Garcia afirma que as grandes plantações de coca dos anos 1980 e 1990 foram substituídas por pequenas extensões, muitas em locais de difícil acesso ou até mesmo dentro de parques nacionais.

Segundo a ONU, atualmente a média de área plantada de coca é de um hectare. Parte do plantio é feito por pequenos agricultores que plantam a coca em suas terras e vendem para os intermediários na produção (geralmente, os grupos guerrilheiros), e a outra é feita pelas organizações criminosas dentro dos parques, por exemplo.

"Temos consciência de que é preciso mais do que arrancar as plantas. O desafio é apoiar os pequenos agricultores para que eles substituam a plantação de coca por culturas alternativas e mais vantajosas, como cacau e café", destaca o oficial da UNODC.

Alternativas

A ideia de apoiar os agricultores para substituir o plantio de coca também é defendida pelo sociólogo Ricardo Vargas, pesquisador do cultivo ilícito de coca na Colômbia. Ele critica a forma como a erradicação é realizada em algumas regiões.

"Arrancar as plantas de coca e ir embora não resolve o problema. A ação deve vir acompanhada de apoio ao camponês. Não adianta só acabar com uma plantação, sem dar condições plenas de segurança e sustentabilidade para que a pessoa mude de atividade", diz.

Vargas lembra que muitos dos camponeses que plantam coca vivem em regiões muito perigosas, várias delas com a presença forte de guerrilheiros e organizações criminosas.

"Para substituir definitivamente o plantio de coca por outras culturas, os agricultores precisam da presença efetiva do Estado e de monitoramento constante", acrescenta o pesquisador.

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