Cidade síria se prepara para ofensiva do Exército após morte de 120 militares

Oficiais de segurança carregam caixões de soldados. Direito de imagem AP
Image caption TV estatal diz que 120 soldados foram mortos por ativistas armados

A cidade de Jisr al-Shughour, no nordeste da Síria, se prepara para uma ofensiva militar depois que o governo afirmou que 120 oficiais das forças de segurança foram mortos por “gangues armadas”.

O governo disse que vai agir “com força” para retomar o controle da cidade, mas ativistas dizem que não é possível saber a origem dos ataques que teriam vitimado os soldados.

Há relatos de que oficiais de segurança teriam sido mortos por colegas após se recusarem a atirar em civis.

Moradores de Jisr al-Shughour escreveram mensagens no site Facebook, dizendo que temem um massacre e pedindo a ajuda das pessoas fora do país.

Os manifestantes insistem que o levante popular contra o regime do presidente Bashar al-Assad é pacífico e rejeitam os relatos do governo sobre gangues armadas.

De acordo com oficiais turcos, dezenas de sírios que cruzaram a fronteira do norte para a Turquia estão sendo tratados em hospitais no sudeste do país com ferimentos que dizem ter acontecido em confrontos com os soldados.

`Baleado nas costas´

As comunicações foram cortadas na área ao redor de Jisr al-Shughour. Na última segunda-feira foi impossível verificar detalhes sobre o ataque. O governo sírio também não permite a entrada de jornalistas estrangeiros para noticiar os eventos.

Mas a TV estatal da Síria diz que centenas de homens armados tomaram a cidade, que fica a cerca de 20 quilômetros da fronteira com a Turquia.

Os homens teriam usado armas leves, granadas e explosivos, e teriam emboscado e assassinado policiais que se deslocavam para a cidade.

Ainda de acordo com a emissora estatal, pelo menos 82 homens teriam sido mortos em um ataque a um posto policial em Jisr al-Shughour. Outras oito pessoas teriam morrido em um ataque a bomba em uma agência dos correios.

Ativistas da oposição dizem que houve confrontos, mas que a situação não era clara. Eles temem que o governo esteja preparando o cenário para um novo ataque violento na cidade.

O correspondente da BBC em Beirute, no Líbano, Jim Muir, diz que sites de ativistas sírios sugerem que houve dissidências seguidas por um motim dentro das forças de segurança.

Vídeos no YouTube, que dizem conter imagens da cidade, mostram diversos corpos de soldados que teriam sido mortos por outros oficiais de segurança por se recusarem a atirar nas pessoas.

Um morador local também afirmou ao serviço árabe da BBC que os manifestantes estão desarmados.

“Nós não temos nenhum tipo de armas. Os soldados estavam vindo em direção a nós e foram baleados nas costas por alguns elementos da segurança síria.”

Perda de controle

A televisão estatal diz que muitos moradores de Jisr al-Shughour fugiram para a cidade de Latakia e chegou a exibir entrevistas com pessoas que pediam ao exército para livrar a cidade das “gangues armadas” que estariam aterrorizando o local.

No entanto, em mensagens colocadas no Facebook, os moradores pediam ajuda a estrangeiros, dizendo que “gangues do governo” se preparam para atacar.

Muir diz que um dos vídeos no YouTube mostrava uma mensagem escrita em uma das ruas na praça principal da cidade, que dizia “Jisr al-Shughour não quer que o exército entre”.

Direito de imagem Reuters
Image caption Centenas de famílias sírias estão fugindo da violência no país

O governo sírio admitiu, pela primeira vez desde o início dos protestos, que perdeu o controle por “períodos de tempo intermitentes”.

Em um comunicado divulgado pela televisão, o ministro do Interior, Ibrahim Shaar, afirmou que o governo agirá "com firmeza", "de acordo com a lei" e que “não ficará em silêncio diante de ataques armados que têm como alvo a segurança dos cidadãos”.

ONU

Nesta terça-feira, a França disse que pedirá ao Conselho de Segurança da ONU que vote uma resolução condenando Damasco, apesar do possível veto da Rússia.

Em Washington, o ministro de Assuntos Exteriores da França, Alain Juppe, disse que Paris acredita que o apoio dos outros membros do conselho possa persuadir os russos a “mudarem de ideia”.

“Achamos que será possível conseguir 11 votos a favor da resolução e veremos o que os russos vão fazer”, disse.

O documento foi elaborado pela França, Grã-Bretanha, Alemanha e Portugal. Ele condena a violência do regime do presidente Assad e pede que ele abra as cidades sírias para as equipes de ajuda humanitária que tentam auxiliar a população.

Os protestos pela renúncia de Assad, inspirados pelos levantes populares que derrubaram os governo de Tunísia e Egito, vêm ocorrendo há meses na Síria.

Eles começaram em março na cidade de Deraa e se espelharam por várias cidades.

Assad, cuja família dirige a Síria há quatro décadas, prometeu introduzir reformas, mas seus oponentes exigem que ele deixe o poder.

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