Resolução contra Síria pode agravar tensão no Oriente Médio, diz Patriota

Refugiada síria se deslocando em direção à fronteira com a Turquia nesta quinta (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Muitos sírios estão tentando ir à Turquia para escapar da violência

O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse nesta quinta-feira, em Nova York, que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU contra o governo da Síria poderá aumentar ainda mais a tensão no Oriente Médio.

“Eu acho que a última coisa que queremos ver ou fazer é contribuir para exacerbar as tensões no que nós consideramos ser uma das regiões mais tensas do mundo”, afirmou o ministro, ao observar que a Síria é um país crucial para a estabilidade da região.

Patriota disse ainda que, diferentemente da resolução que autorizou a ação militar internacional na Líbia – aprovada pelo Conselho de Segurança em março, em uma votação na qual o Brasil se absteve –, no caso da Síria não há apoio dos países árabes a uma ação.

A proposta de resolução analisada pelo Conselho de Segurança condena a repressão do governo da Síria a manifestações pró-democracia, mas não prevê a autorização de qualquer tipo de ação concreta contra o governo sírio.

No entanto, alguns membros do Conselho de Segurança temem que a resolução seja o primeiro passo para uma intervenção na Síria, a exemplo do que ocorre na Líbia.

Preocupação

Segundo Patriota, a ação na Líbia, autorizada como meio de proteger civis de ataques por parte das forças leais ao coronel Muamar Khadafi, causa preocupação em algumas delegações na ONU sobre medidas do tipo em outros países.

Há entre alguns países a sensação de que os ataques aéreos realizados pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) na Líbia extrapolam o mandato autorizado pela ONU na resolução 1973.

“Eu acho que preocupações sobre a implementação dessa resolução também estão influenciando a maneira como delegações veem outras medidas que podem afetar outros países na região, particularmente a Síria”, disse Patriota.

Além do Brasil, também a Índia e a África do Sul, todos membros não-permanentes do conselho, já manifestaram restrições à adoção de uma resolução contra a Síria.

Entre os cinco membros permanentes – que têm direito a veto –, Rússia e China também se opõem à medida.

Proposta

O texto atualmente em análise é uma versão revisada de uma proposta anterior e foi apresentado ao conselho na quarta-feira por Grã-Bretanha, França, Alemanha e Portugal, com o apoio dos Estados Unidos.

A proposta condena as violações sistemáticas dos direitos humanos na Síria, pede o fim imediato da violência e o fim do cerco das forças de segurança do governo a diversas cidades do país, permitindo a entrada de ajuda humanitária.

No entanto, o texto original foi alterado para incluir a menção de que a única solução para a crise passa por um processo inclusivo e liderado pelos sírios.

Com essa mudança, os autores da proposta esperavam conquistar o apoio de mais países e evitar o risco de veto, principalmente por parte da Rússia.

Apesar desses esforços, nesta quinta-feira um porta-voz do Ministério do Exterior russo reiterou a oposição da Rússia a uma resolução, ao afirmar que a situação na Síria não representa uma ameaça à paz ou à segurança internacional.

Mortes

Segundo defensores de direitos humanos, mais de mil pessoas já foram mortas na Síria desde março, quando começaram os protestos contra o governo do presidente Bashar al-Assad.

Esse número, porém, não pode ser confirmado de forma independente, já que a Síria proíbe a entrada de jornalistas estrangeiros.

Apenas nesta semana, mais de 2 mil sírios teriam cruzado a fronteira com a Turquia por temor de ataques de tropas do governo contra a cidade de Jirs Al-Shughour, onde 120 integrantes das forças armadas foram mortos.

A escalada da violência na Síria levou a alta comissária da ONU para direitos humanos, Navi Pillay, a afirmar que o governo sírio está travando uma guerra contra seu próprio povo.

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