Identificação de corpos é nova etapa no sofrimento de familiares, diz pai de vítima do AF 447

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Image caption O navio levando restos mortais e peças da aeronave chegou ao porto de Bayonne

Os 104 corpos de vítimas do voo AF 447 da Air France, que caiu no Atlântico em 2009, chegaram nesta quinta-feira à França. O processo de identificação começará na sexta-feira ou sábado e poderá levar meses, segundo as autoridades francesas.

O navio Ile de Sein, que transportou os corpos e também peças do Airbus que serão analisadas nas investigações, atracou na manhã desta quinta-feira em Bayonne, no sudoeste da França, sob escolta da marinha.

A imprensa foi mantida à distância durante o desembarque dos contêineres refrigerados contendo os corpos.

Identificação

Os restos mortais foram encaminhados ao Instituto Médico Legal de Paris para o início do processo de identificação.

“É mais um sofrimento que começa. A expectativa é muito grande por não saber se o corpo que aguardamos está entre os que serão identificados”, disse à BBC Brasil Nelson Marinho, presidente da associação AFVV447, que perdeu um filho na tragédia.

“Há famílias que perderam mais de um parente e que sofrem com a expectativa de que nem todos tenham sido resgatados”, diz Marinho, que está atualmente na França.

O processo de identificação será realizado com base na comparação de dados ante-mortem (como cirurgias e implantes) e pós-mortem (recolhidos nos exames médico-legais, odontológicos e coletas de DNA de ossos longos).

Análise minuciosa

Os dados recolhidos e também o material genético dos parentes serão inseridos em um software especial, utilizado pela Interpol, que irá propor algumas comparações possíveis.

Só então uma comissão, formada por biólogos, dentistas e especialistas em identificação, estudará caso por caso.

Todos os especialistas devem estar de acordo para que um corpo possa ser oficialmente reconhecido, disse à BBC Brasil o coronel François Daoust, diretor do Instituto de Pesquisas Criminais da Polícia Militar, que coordenará esses trabalhos, sob autoridade da Justiça francesa.

O coronel Daoust afirma que os 104 “despojos” resgatados podem não representar 104 vítimas. Alguns dos restos mortais podem ser de um mesmo passageiro.

Polêmica

O processo de identificação divide os familiares. Em uma reunião na quarta-feira em Paris, com autoridades francesas, representantes das associações da Alemanha e da França afirmaram que alguns parentes não desejam que os corpos sejam identificados e restituídos.

Mas a identificação dos corpos é uma determinação da Justiça francesa, que será cumprida.

O presidente da AFVV447 protesta que 74 corpos não tenham sido resgatados sob a alegação de que eles estariam muito deteriorados.

“Nenhuma família passou procuração à Justiça francesa para permitir essa decisão. Os restos mortais, qualquer que seja seu estado de conservação, são importantes para finalizar a vida por meio de um enterro”, diz Marinho.

Investigação das causas

As peças do Airbus da Air France que também chegaram nesta quinta-feira à França serão levadas a um hangar militar, em Toulouse, no sudoeste do país.

As informações recolhidas após a análise dessas peças, como motores e computadores de bordo, serão cruzadas com os dados das duas caixas-pretas do avião e utilizadas nas investigações sobre as causas da catástrofe que matou 228 pessoas.

Um novo relatório intermediário sobre as causas do acidente deverá ser divulgado no fim de julho.

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