Sírios estão cada vez mais divididos com relação à continuidade do regime

Imagem de manifestação em cidade síria de Al-Keswa, na última sexta (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Parte do povo defende Assad e a estabilidade, mas outros pedem reformas e a renúncia do presidente

Crescem as divergências entre os moradores de Damasco quanto a qual deve ser o desfecho da atual crise vivida pela Síria, relata um jornalista da BBC na capital do país, cuja identidade não pode ser revelada por motivos de segurança.

Após três meses de protestos antigoverno e de forte repressão promovida pelo regime de Bashar al-Assad, a Síria está se tornando um país dividido.

Enquanto as manifestações de oposição prosseguem ao redor do país, Damasco tem sido palco de marchas de apoio ao presidente.

Milhares de pessoas se reuniram recentemente em um distrito do oeste da capital, abriram uma bandeira gigante da Síria e, com cartazes de Assad, cantaram slogans pró-regime.

“Deus, Síria, Bashar – isso é suficiente”, gritou a multidão.

“É uma atmosfera especial”, declarou um jovem morador de Damasco, referindo-se às manifestações de apoio ao governo. “Acho que (as pessoas) amam o presidente.”

‘Conspiração externa’

Mas, a menos de 2 quilômetros dali, no bairro de Midan, o sentimento é totalmente diferente.

Há meses os moradores locais têm transformado todas as sextas-feiras em dias de protestos antirregime e lutado contra forças de segurança, estas munidas de bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes.

Os manifestantes começaram pedindo reformas políticas. Agora, querem a queda do regime.

“Este regime é incapaz de reformas e só deseja (promover) mais repressão”, disse Riad, um ativista local. Ele opina que os manifestantes do país estão mais unidos do que nunca.

Mas os ativistas admitem que Assad não cairá enquanto continuar gozando de forte apoio, em especial em grandes centros como Damasco e Aleppo.

“Algumas pessoas veem o regime como protetor”, declarou Riad. “Elas também apoiam o regime porque estão conectadas ao governo ou se beneficiam da corrupção.”

Enquanto isso, simpatizantes do governo simplesmente acreditam na versão oficial dos acontecimentos: a de que o país está enfrentando uma conspiração externa e de que o regime não está lutando contra manifestantes, e sim contra gangues apoiadas por extremistas islâmicos.

Essas pessoas creem que a queda do regime levará a uma guerra sectária entre minorias alauítas e cristãs e a maioria sunita.

A alegação do governo de que 120 de seus soldados teriam sido mortos por manifestantes, recentemente, na cidade de Jisr al-Shughour fortaleceu essa opinião.

Cartazes nas ruas da Síria evidenciam a divisão. “Eu sou sírio e você é sírio – Não às disputas sectárias”, diz o outdoor.

Os conflitos religiosos no vizinho Iraque ainda estão marcados na mente de muitos, que se dizem determinados a impedir que o mesmo ocorra na Síria.

Amizades perdidas

Ainda que cristãos nos arredores da capital tenham marchado ao lado de alauítas e de sunitas contra o governo, a população cristã de Damasco é veementemente contra os protestos.

Um professor cristão da capital atribuiu as manifestações à Irmandade Muçulmana. “Os distúrbios ocorrem nas áreas onde estão as pessoas muito religiosas”, ele opinou.

Mas os manifestantes rejeitam a ideia de que sua causa tenha motivações religiosas. E admitem terem usado armas em algumas marchas, mas sob a justificativa de se defender das tropas de Assad.

“Se você conhece a opressão síria, sabe que é impossível (para a oposição) se organizar militarmente e matar 120 soldados fortemente armados. Não faz sentido”, disse um jornalista sírio que simpatiza com a oposição, referindo-se a alegação do governo de que manifestantes teriam massacrado soldados em Jisr al-Shughour.

O jornalista declarou também que está crescendo a divisão entre defensores e detratores do regime. Ele próprio deixou de falar com amigos que se alinharam com o governo Assad.

Ao mesmo tempo, enquanto os distúrbios sírios entram em seu quarto mês, com um saldo estimado em mais de mil mortos, o regime parece estar perdendo parte de sua base de apoio.

“Não tinha percebido que o meu governo era tão estúpido”, opinou Ammar, um morador de Damasco na casa dos 30 anos, que perdeu a fé no regime após apoiá-lo por muitos anos.

“Eu lutei por eles (governantes), os defendi, mas isso não faz mais sentido agora.”

Ammar disse que outros compartilham de sua opinião. “A cada dia, mais e mais pessoas estão se voltando contra o regime. O tempo está se esgotando, e o governo sequer percebe isso.”

Muitos sírios ainda se apegam à esperança de que Assad promova as reformas demandadas pelos manifestantes sem sacrificar a estabilidade que seus simpatizantes querem proteger.

Em um apartamento em Damasco, um ex-funcionário do governo tenta parecer otimista enquanto cenas de violência na Síria são transmitidas pela TV ao lado dele.

“Espero que as mudanças ocorram dentro do regime e sejam lideradas por Assad”, disse ele. “Assim, podemos ter mudanças sem derramamento de sangue.”

É provável que isso aconteça? Ele balança a cabeça. “Sem chance.”

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