Plano de estímulo monetário dos EUA termina sem garantir crescimento sustentável

Ben Bernanke, presidente do Fed Direito de imagem Reuters
Image caption Bernanke admitiu neste mês que a recuperação americana segue num ritmo menor que o esperado.

Chega ao fim nesta quinta-feira a segunda rodada do chamado relaxamento quantitativo, política pela qual o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) injetou US$ 600 bilhões (cerca de R$ 942 bilhões) na economia americana por meio da compra de títulos do Tesouro de longo prazo.

Iniciado em novembro do ano passado com o objetivo de impulsionar a lenta recuperação da economia americana, esse novo ciclo de relaxamento quantitativo (QE2, na sigla em inglês) teve resultados modestos, como mostram os dados econômicos mais recentes.

“Não ajudou muito”, disse à BBC Brasil o economista Rafael Amiel, da consultoria IHS Global Insight. “Não teve um impacto na economia real.”

Ao recorrer à medida pela segunda vez – na primeira, durante o auge da crise econômica mundial, entre 2008 e 2009, foram investidos US$ 1,75 trilhão (cerca de R$ 2,75 trilhões) na compra de títulos – o Fed esperava que, no final de junho, data programada para encerrar o QE2, a recuperação econômica já estivesse em uma “trajetória sustentável”.

No entanto, ao confirmar o fim do QE2, na semana passada, o presidente do Fed, Ben Bernanke, admitiu que a recuperação da economia americana segue num ritmo menor que o esperado.

“A recuperação econômica parece estar ocorrendo em um ritmo moderado, apesar de um pouco mais lento do que o comitê (Federal Open Market Committee, ou Fomc, órgão equivalente ao Comitê de Política Monetária brasileiro) esperava, e alguns indicadores recentes do mercado de trabalho também foram mais fracos do que o esperado”, disse Bernanke na ocasião.

Crescimento

As declarações de Bernanke foram feitas logo após reunião do Fomc na qual a previsão de crescimento para o PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos foi reduzida para ficar entre 2,7% e 2,9% neste ano – abaixo da projeção anterior, divulgada em abril, que colocava o aumento do PIB entre 3,1% e 3,3%.

A projeção do FMI (Fundo Monetário Internacional) é ainda mais pessimista.

Em um relatório anual sobre a economia americana divulgado nesta quarta-feira, o FMI prevê avanço de 2,5% neste ano e 2,7% em 2012 e afirma que o crescimento deve permanecer fraco por algum tempo.

A taxa de desemprego, que em novembro do ano passado estava em torno de 10%, hoje é de 9,1%, patamar ainda considerado alto e sem perspectivas de grandes mudanças no curto prazo.

O Fed prevê que a taxa de desemprego chegue ao fim deste ano em torno de 8,6% a 8,9%, e o próprio Bernanke já afirmou que deve levar “vários anos” até que esse patamar volte a um nível considerado “normal”, entre 5% e 6%.

Com a recuperação em marcha lenta, a economia americana não tem crescido o suficiente para recuperar os cerca de 8 milhões de postos de trabalho perdidos durante a recessão – que se estendeu por 18 meses, até junho de 2009.

Somados a esses problemas estão ainda o déficit recorde no orçamento, calculado em US$ 1,4 trilhão (cerca de R$ 2,2 trilhões) para o ano fiscal que termina em setembro, e o risco da dívida pública, que já chegou ao teto de US$ 14,3 trilhões (cerca de R$ 22,5 trilhões) ultrapassar o limite legal.

Caso a Casa Branca e o Congresso não cheguem a um acordo para elevar o teto da dívida até o dia 2 de agosto, os Estados Unidos correm o risco de ter de parar de cumprir seus compromissos financeiros, o que, segundo o governo e o FMI, pode não apenas mergulhar a economia americana em uma nova crise, mas também provocar “choques severos” nos mercados globais.

Há também o déficit comercial com países como a China, o mercado imobiliário ainda em crise e fatores externos, como os altos preços das commodities e o impacto do terremoto e do tsunami que atingiram o Japão em março sobre alguns setores, como o manufatureiro.

Críticas

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Image caption Mercado imobiliiário foi um dos mais afetados pela crise americana

Apesar do cenário pouco otimista, os resultados do QE2 não chegam a surpreender, já que desde seu início analistas alertavam que a medida não ia resolver os problemas da economia americana.

No entanto, mesmo diante das dúvidas iniciais de analistas, o Fed sempre disse que não poderia deixar de agir diante das dificuldades da economia americana, ao lembrar que tem a dupla tarefa de controlar a inflação e ao mesmo tempo estimular o crescimento.

Como os Estados Unidos permanecem desde dezembro de 2008 com sua taxa de juros inalterada em entre 0% e 0,25% e sem previsão de aumento, o governo não tinha mais espaço para recorrer à medida tradicionalmente adotada para impulsionar a economia, que seria a redução dos juros.

Nesse quadro, o relaxamento quantitativo – que, na prática, significa imprimir dinheiro para comprar os títulos de longo prazo – tinha o objetivo de baixar os juros de longo prazo, aumentando a liquidez e estimulando a demanda.

Oito meses depois, o nível de confiança de consumidores e empresas permanece baixo. Mas a inflação, que na época do lançamento do QE2 registrava seu menor aumento em décadas, tornando-se uma das razões da implementação da medida, devido ao temor de deflação, voltou a crescer, e deve ficar entre 2,3% e 2,5% neste ano, segundo o Fed.

A trajetória do QE2 também foi marcada por críticas de países emergentes, como o Brasil, que acusaram os Estados Unidos de provocar um fluxo excessivo de capital em suas economias, provocando a valorização das moedas locais frente ao dólar e prejudicando as exportações.

No campo doméstico, a pouco mais de um ano para as eleições presidenciais, a oposição republicana não cansa de culpar as ações do Fed por problemas como os altos preços dos combustíveis.

Por ora, o Fed anunciou que não pretende implementar uma terceira rodada de relaxamento quantitativo. Mas já avisou que essa medida não está totalmente descartada e depende de como a economia americana irá se comportar.

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