Partido Comunista chinês completa 90 anos sem dar sinais de fadiga

Idoso passa em frente a fotos de líderes do Partido Comunista (Mao Zedong, Deng Xiaoping, Jiang Zemin e o atual presidente, Hu Jintao) em Pequim (AFP) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Partido Comunista chinês governa a China desde 1949

Na semana em que comemora seu nonagésimo aniversário, o Partido Comunista Chinês continua mais forte do que nunca, presidindo sobre uma China, como ele, cada vez mais poderosa.

O domínio do PC se estende a todos os aspectos da vida na China.

A organização não tolera diferenças de opinião e mantém o controle por meio de um sistema que usa a força para suprimir os que discordam de sua linha.

Para alguns, isso não pode continuar, e o partido vai ter de se transformar se quiser sobreviver. Mas a liderança parece estar atenta à necessidade de modernização constante para que possa se adaptar aos novos tempos.

Escola

Em uma área de Pequim onde, no passado, existiu uma escola eclesiástica, o Partido Comunista Chinês instalou uma instituição educacional bastante diferente.

Apesar do local continuar devotado ao ensino, agora, cultua-se o partido e não Deus.

A escola integra um sistema de controle que vem mantendo o partido no comando desta gigantesca nação por quase um século. Desde 1949, o PC chinês mantém poder total, decidindo as políticas que são implementadas pelo governo.

A Escola do Partido Comunista em Pequim é apenas um exemplo do controle exercido pela organização.

Reciclagem

A cada três anos, integrantes do alto escalão do partido fazem três meses de treinamento em escolas desse tipo. A ideia é assegurar que eles entendam as novas filosofias da organização.

Após o curso, retornam aos seus postos e colocam em prática as novas propostas.

Chu Xiaolin, vice-editora do jornal Beijing Daily, assistiu recentemente a uma palestra na escola.

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Image caption Partido atualmente conta com 80 milhões de membros

"Não entendemos todas as nuances da sociedade, então a escola do partido nos põe em contato com especialistas de várias áreas", ela disse.

"Eles nos fornecem informações mais recentes. Isso nos permite lidar com problemas de forma mais completa".

A aula a que Chu Xiaolin assistiu falava sobre os desafios ao partido criados pela internet.

Aula de liderança

Numa palestra em outra escola, membros do partido aprendem sobre Mao Tsé-Tung, o líder revolucionário mais reverenciado pelo PC chinês.

Milhões de pessoas morreram sob a liderança de Mao, mas os membros do partido não estudam o líder para aprender sobre seus erros e, sim sobre seu talento político.

O professor palestrante, Liu Feng, disse que o ex-líder chinês sabia como se relacionar com o povo, algo que os membros do partido precisam saber.

"Se o Partido Comunista chinês quiser governar, precisa ter legitimidade. Precisamos da aprovação e apoio das pessoas", disse o professor Liu.

Mas o partido não tem planos de buscar essa aprovação por meio de eleições democráticas, embora haja debate, entre seus líderes, sobre a necessidade de reformas.

Zhou Chunming, um administrador da escola do Partido em Pequim, disse que os comunistas não precisam mudar porque a maioria da população apoia o sistema.

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Image caption Membros do partido ainda estudam a liderança de Mao Tsé-Tung

"Democracias também têm problemas. Por que Hitler chegou ao poder na Alemanha? Por causa da democracia".

Aparentemente sem ironia, o partido anunciou, recentemente, que supervisionaria as eleições organizadas para selecionar autoridades de governos regionais. O objetivo, segundo o partido, era assegurar "eleições justas".

Repressão

A China vive hoje um dos momentos de maior repressão a dissidentes políticos dos últimos anos. Este é o aspecto mais sombrio do controle exercido pelo partido sobre a sociedade.

Sob o comando do partido, o governo chinês gasta hoje mais dinheiro com segurança interna do que na defesa nacional, prendendo tibetanos, militantes pró-democracia e pessoas retiradas à força de suas casas para projetos de desenvolvimento - qualquer um que contrarie a lei.

Recentemente, o governo enviou a chamada Polícia Armada do Povo, que atua sob o comando do Exército chinês, para subjugar um movimento de dissidentes na Mongólia, no norte, e revoltas de trabalhadores imigrantes no sul.

Isto não quer dizer que o Partido Comunista não esteja disposto a mudar. A organização sobreviveu por tanto tempo justamente pela capacidade de adaptação.

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Image caption Mao Tsé-Tung com o americano Sidney Rittenberg, ex-integrante do Partido Comunista Chinês

Trinta anos atrás, o PC chinês começou a adotar o capitalismo, uma transformação que resultou em uma prosperidade econômica que, provavelmente, fará da China, em meados desse século, o país mais rico do mundo.

Sidney Rittenberg, um dos poucos americanos a integrar o PC chinês, disse que a organização vai ter de mudar novamente se quiser sobreviver.

"Vamos chegar a um ponto em que as pessoas não vão mais querer ter uma economia moderna de mercado convivendo com um sistema político atrasado", disse o ex-membro do PC Rittenberg, que tem 89 anos e conheceu Mao Tsé-Tung.

Sigilo

No partido, prevalece uma cultura de muito sigilo. Quem se filia promete guardar os segredos da organização.

Antes de falar à BBC, um dos membros, Zhao Tong, telefonou para seu chefe no PC para ter a certeza de que não havia problemas em relação à entrevista.

"Farei um relato a você depois", disse o engenheiro de software, com 33 anos, ao seu superior no partido.

Tanto segredo torna difícil prever de que forma o partido pode se transformar no futuro.

No momento, o PC permanece firme no controle da China, e parece ter o apoio da maioria da população. Muitos dos quais ainda se lembram do caos que o país enfrentou no passado.

"Para se conhecer bem a China tem que se conhecer bem o Partido Comunista", disse Ai Ping, vice-diretor do departamento internacional do partido, a jornalistas estrangeiros.

Na cabeça de muitos líderes, país e partido estão, com frequência, fundidos em uma única ideia.

O exagero é deliberado, mas esta é uma noção que os comunistas esperam manter por muitos anos ainda.