Em busca de ascensão, ex-domésticas apostam em novas carreiras

Cleusa Célia Ferraz, 51 anos, com o neto (Foto: Arquivo pessoal) Direito de imagem arquivo pessoal
Image caption Com seu trabalho de doméstica, Cleusa Ferraz pôde pagar um curso técnico em enfermagem

Mulheres que deixaram o serviço doméstico para trás em busca de ascensão social e profissional em outros setores relataram à BBC Brasil o que conquistaram após anos de sacrifícios.

O trabalho doméstico é considerado precário e de baixa qualidade e segundo a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Luana Pinheiro, a profissão ainda é marcada por uma relação de submissão com os patrões.

Ela comenta que em pesquisas trabalhadores domésticos citam que "essa relação ainda é marcada pela exploração, pela submissão e pela humilhação ".

"Ela está dentro da casa, mas é excluída de tudo, não tem direito a comer o que está dentro da geladeira, come as sobras. E ainda existe uma dificuldade do estado para regulamentar esse trabalho, porque está dentro da privacidade do lar. Embora as jornadas sejam extensas, o trabalho é considerado muito simples, nunca é valorizado. Ela está lá, faz um monte de coisas, mas não se dá valor ao que ela faz."

Pinheiro acredita que “se a doméstica pessoa tem a possibilidade de se ocupar em outros lugares com a sua qualificação, é evidente que vai optar por isso.”

Ascensão

Ângela Conceição Vaz é uma das que investiram em seu aperfeiçoamento para aproveitar novas oportunidades. Ela começou a trabalhar como doméstica aos 13 anos, numa casa de família no Catete, na zona sul do Rio. Para completar o ensino médio, deixava o serviço no fim da tarde todos os dias e rumava para a escola noturna, a mais de uma hora de ônibus.

Conseguiu concluir o ensino médio com cerca de 21 anos (não lembra a idade exata) e aproveitou a promoção de uma escola de informática que estava abrindo em Nova Iguaçu - município na Baixada Fluminense onde nasceu e vive até hoje - para fazer quatro cursos pelo preço de dois: gestão empresarial, telemarketing, inglês e informática.

Com o investimento devidamente listado no primeiro currículo, Ângela conseguiu emprego como secretária de uma consultoria em telemarketing, a Fix Telemarketing, onde está há 14 anos.

Hoje, com 35 anos, Ângela diz gostar da interação com os clientes, das conversas com o patrão e de atender os telefonemas. "Às vezes ligam de Buenos Aires, aprendi a entender o espanhol", orgulha-se. Ela diz que seu salário hoje é "muito melhor" e conseguiu o que mais queria: a casa própria.

"Minha casa tem dois andares. A parte de cima ainda está em construção. Tenho máquina de lavar, micro-ondas, televisão, bidê. Tudo que tem numa casa, eu tenho, consegui comprar", comemora ela, que mora no bairro de Austin com o marido, eletricista, e os dois filhos.

Só em uma das quatro casas por onde passou, aos 15 anos, Ângela teve que parar de ir à escola. Os patrões tinham filho pequeno e só chegavam de noite, e ela não podia sair para a aula. "Eu ficava muito triste porque gostava muito de estudar. Tanto é que eu acabei não ficando lá", diz.

Os filhos não deverão passar pelo serviço doméstico. A mais velha, de 17 anos, trabalha numa academia de ginástica e está cursando pré-vestibular para entrar na faculdade. O mais novo, de 12, estuda num colégio particular, com bolsa de metade da mensalidade. A outra metade Ângela paga.

"Eles estão arrumando para o futuro melhor deles. Eu fico com orgulho", diz. Mas Ângela tem amigas que preferem trabalhar como empregadas domésticas por terem boas relações com seus empregadores. "Elas são tratadas como parte da família. Nem todas querem mudar. Mas se eu ficar desempregada e precisar voltar a trabalhar em casa da família, eu volto."

‘Não segui a profissão da minha mãe’

Assim como na família de Ângela, em outras casas de matriarca doméstica o rumo tomado pelos filhos é outro, muitas vezes graças ao incentivo da mãe.

É o caso de Bárbara José Antunes Baptista, de 24 anos. Ela se formou em biotecnologia pelo Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo) e agora está fazendo mestrado em imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com bolsa da Capes.

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Image caption Bárbara (à esq.) não seguiu o caminho da mãe, que era doméstica, e se formou em biotecnologia

"Eu não segui a profissão da minha mãe, mas isso porque ela me deu muito apoio e uma direção para que eu buscasse uma profissão que pudesse me dar um retorno melhor na vida, e melhores condições financeiras", diz Bárbara.

A mãe de Bárbara, Odiléa José Antunes, faleceu em 2005 após um erro médico numa cirurgia em um hospital público. Na época, Bárbara estava prestando vestibular para ingressar na faculdade.

"Graças a Deus, deu tudo certo. Eu consegui entrar numa estadual e fiz o curso", conta. "A minha mãe sempre dizia que eu tinha que conseguir buscar algo melhor para mim. Ela tinha o sonho de buscar a casa própria, e no trabalho ela não tinha condições para isso. Acabou morrendo sem conseguir esse sonho", conta.

"Empregada doméstica é uma profissão que dá um dinheiro, garante o sustento, mas não favorece que a pessoa cresça, adquira novos conhecimentos. Minha mãe tinha essa visão e queria que eu buscasse novas conquistas", diz Bárbara, que mora em Padre Miguel, na zona oeste do Rio, com uma tia.

Chef de cozinha

A vontade de juntar dinheiro para uma graduação levou Natália Santos, de 32 anos, a deixar o emprego de doméstica em São Paulo. Ela trabalha como assistente de um chef de cozinha, promovendo jantares particulares, e está juntando dinheiro para entrar numa faculdade particular de gastronomia. "Se Deus quiser, vou começar a faculdade no ano que vem", diz.

Pernambucana, Natália chegou a São Paulo aos 17 anos para trabalhar. Nos primeiros anos, morava no serviço e mandava dinheiro para os pais no Nordeste para ajudar. Após 12 anos na casa de duas famílias ("era um bom trabalho, meus patrões hoje são meus amigos"), entrou numa empresa de telemarketing e começou a economizar. Foi seu primeiro e único emprego com carteira assinada.

"Eu quero arrumar um emprego na área de restaurante ou industrial. Gosto de cozinhar", diz. "Cada dia é um degrau a mais. Se você ficar só no ramo de doméstica, não tem para onde ir. Se você não partir para estudar, para ir fazer um curso, não sai dessa vida."

Já no caso de Cleusa Célia Ferraz, de 51 anos, foi graças ao trabalho de doméstica que ela conseguiu pagar um curso de técnico em enfermagem e passar para o emprego atual. Ela trabalha em um hospital aberto recentemente em São Paulo.

Na juventude, Cleusa chegou a trabalhar como assistente de enfermagem, mas depois que se casou, o marido não concebia que trabalhasse fora. Após 16 anos como dona de casa, Cleusa se separou e conseguiu recomeçar a vida com o emprego de doméstica.

"Trabalhava durante o dia e à noite fazia o curso. Paguei com o salário de doméstica, fazendo muita economia e muito sacrifício", conta.

Cleusa tem duas filhas, uma já casada, terminando a faculdade de administração, e outra prestes a concluir o ensino médio e prestar o vestibular. "Ela quer fazer farmácia, mas precisa de apoio. Se Deus me der força e saúde para trabalhar, vou ajudar ela a fazer a faculdade."

Carli Maria dos Santos está acostumada a lidar com este universo pelo menos desde 1981, quando entrou para uma associação de empregadas domésticas no Rio. O grupo só pôde se tornar sindicato em 1988, quando a categoria teve o direito a se sindicalizar reconhecido pela Constituição.

Hoje, Santos é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Município do Rio de Janeiro. No vaivém de mulheres que chegam buscando orientação e assistência jurídica, ela já vê uma mudança no perfil geral.

“A doméstica está evoluindo, mudando de categoria, se informando mais para ter opções de trabalho. Não é mais aquela pessoa que ficava 20 ou 30 anos na casa da mesma família. Ainda há aquelas que ficam 60 anos trabalhando no mesmo lugar, mas as meninas mais jovens estão procurando novos caminhos”, afirma.

De acordo com Santos, muitas domésticas estão migrando para companhias de limpeza e manutenção, trabalhando como motoristas de ônibus ou mesmo na construção civil. “Muitas fazem enfermagem e vão trabalhar em clínicas ou hospitais. E tem também o telemarketing, para aquelas que já têm uma instrução, completaram segundo grau. Os campos estão se abrindo”, diz.

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