Escândalo pode levar Murdoch a medidas extremas para salvar império

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Image caption Murdoch e Rebekah Brooks: danos à empresa são considerados gravíssimos

Os danos ao império de mídia multibilionário de Rupert Murdoch, News Corporation, já são muito maiores do que muitos teriam imaginado há apenas duas semanas.

O tabloide News of the World - jornal mais lido da Grã-Bretanha - foi fechado, para evitar um boicote de adversários e leitores.

Sob pressão de todo o espectro político britânico, Murdoch também abandonou seus planos de comprar a totalidade das ações da British Sky Broadcasting (BSkyB) - maior operadora de televisão do país.

E nesta sexta-feira ele viu Rebekah Brooks pedir demissão do cargo de presidente-executiva da subsidiária News International - exatamente a executiva que ele disse de forma explícita querer manter no cargo.

Agora os negócios de Murdoch enfrentam investigações na Grã-Bretanha e potencialmente nos EUA e na Austrália, o que pode levar a revelações que manchem ainda mais sua reputação.

Então, para onde vai a News Corporation?

The Sun on Sunday

Pouco antes de o fechamento do News of the World ter sido anunciado, a empresa de Murdoch, News International, comprou o domínio de internet sunonsunday.co.uk.

Partindo da premissa de que o escândalo de grampos aumente ainda mais, publicar o tabloide The Sun sete dias por semana seria uma medida bastante lógica.

O tabloide de Murdoch já é o jornal mais lido da Grã-Bretanha por uma margem significativa. O Sun tem uma equipe editorial pronta para assumir, e a News International está tentando contratar de volta a equipe do News of the World.

E o negócio é rentável.

O News Group Newspapers - que controla o Sun e controlava o News of the World - lucrou cerca de R$ 218 milhões até junho de 2010, uma pequena fração dos R$ 4 bilhões líquidos da News Corp no mesmo período.

Mas a News International não vai se apressar, de acordo com a consultora de mídia Theresa Wise.

Image caption A última edição do News of the World

"Pareceria muito, muito cínico...apenas o News of the World com outro nome", diz ela, sugerindo que o período antes do Natal seria uma hora melhor para a manobra.

Venda da News International

Alguns argumentam que a importância dos jornais britânicos de Murdoch - que também incluem o Times e o Sunday Times - não é a de um centro de lucros. Na verdade, afirmam, trata-se de uma fonte de influência sobre a opinião pública e políticos.

E, deste ponto de vista, seu valor para a News Corp pode já ter sido destruído pelo escândalo de grampos.

A crise já ameaça se espalhar para outros títulos da News International, com o ex-premiê Gordon Brown acusando o Sunday Times de contratar criminosos para atingi-lo pessoalmente - algo negado pela companhia.

Há rumores de que toda a empresa poderia ser posta à venda.

Mas, como afirma o editor de economia da BBC Robert Peston, o escândalo danificou toda a indústria de jornais da Grã-Bretanha, tornando a News International menos atraente para compradores em potencial.

"A questão é, quem vai pagar o preço que eles valem? Ele não vai querer vender os jornais na baixa".

Propriedade da BSkyB

O futuro da BSkyB está em aberto desde que Murdoch abandonou sua tentativa de adquirir a totalidade das ações da emissora por satélite britânica.

A empresa se tornou um negócio maduro, lucrativo, com ganhos de R$ 2,3 bilhões em 12 meses até março deste ano.

Se tudo sair bem para o magnata da mídia, ele pode tentar dar o lance novamente dentro de um ou dois anos.

"A família Murdoch é muito boa em jogar a longo prazo", diz Wise.

Mas as coisas podem piorar para a News Corp.

Se a polícia incriminar os gerentes da News Corp nos próximos meses, o órgão regulador de telecomunicações britânicos Ofcom pode considerar que a empresa não tem mais como ter uma licença para funcionar na Grã-Bretanha.

Neste caso, a empresa de Murdoch pode ser forçada a entregar o controle da companhia que co-fundou, e da qual retém 39% das ações.

Investigações britânicas

A News Corp enfrenta investigações formais em tres níveis na Grã-Bretanha.

Um comitê do Parlamento convocou Rebekah Brooks, assim como Rupert Murdoch e seu filho James, a testemunhar sob ameaça de perjúrio. Os três concordaram em comparecer.

O pior que a News Corp pode esperar das audiências é a humilhação pública.

Uma nova investigação política sobre escuta ilegal e pagamentos a policiais pode resultar em acusações criminais contra empregados do News of the World.

Ainda mais grave, a investigação pode se espalhar para além do News of the World e atingir outros jornais do grupo.

Mas o maior desafio à News Corp vem do inquérito público liderado pelo juiz Leveson. O processo pode resultar em um endurecimento das regras que governam o comportamento, a propriedade e a regulamentação da mídia na Grã-Bretanha.

Em particular, o governo pode legislar para limitar o controle de uma empresa sobre várias mídias, algo que, de acordo com a analista Claire Enders, pode ferir a News Corp em particular.

Investigações em outros países

Uma ameaça ainda maior à News Corp pode estar aumentando nos EUA, onde o escândalo de grampos teve enorme repercussão. Congressistas americanos republicanos e democratas pediram dois inquéritos criminais:

1. O FBI (polícia federal americana) deve investigar se cidadãos dos EUA foram vítimas de escuta ilegal pelo News of the World, violando a lei

2. O Departamento de Justiça deve decidir se o pagamento de propinas à polícia britânica significaria que a News Corp - como empresa americana - violou leis anticorrupção.

A grande pergunta é se as investigações se traduzirão em ameaça à licença da News Corp, como aconteceu na Grã-Bretanha. Cerca de um terço do lucro da News Corp vem da TV americana.

"O negócio da TV nos EUA é de grande e crescente lucro para a companhia", diz Alan Gould, da empresa de investimento Evermore Partners.

A premiê australiana Julia Gillard considera se abre seu próprio inquérito sobre a regulamentação da propriedade e da mídia.

A administração

Direito de imagem Reuters
Image caption Andy Coulson: responsabilizado duas vezes

O escândalo já cobrou várias vítimas, incluindo Andy Coulson - duas vezes - primeiro como editor do News of the World em 2007, depois como diretor de comunicações do premiê David Cameron, este ano.

"Vivemos em uma cultura em que as pessoas no topo, culpadas ou não, carregam a culpa", diz Claire Enders.

Mudanças no comando

Murdoch tem 80 anos. Se seu filho James conseguir controlar a situação, Murdoch poderá abrir caminho para ele.

No entanto, há movimentos para tentar reduzir o controle da família Murdoch sobre a empresa.

Um grupo de acionistas da News Corp está processando executivos da empresa, acusando-os de nepotismo por pagar mais do que o valor de mercado pela compra da Shine Group, uma empresa de produção de TV britânica, de propriedade da filha de Murdoch Elisabeth.

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