Escândalo dos grampos eleva pressão sobre premiê britânico

Cameron e Stephenson em foto de outubro de 2010 Direito de imagem PA
Image caption Paul Stephenson (à dir.) citou David Cameron em seu discurso de renúncia

As implicações políticas do escândalo dos grampos do tabloide News of the World continuam a crescer, após a renúncia, neste domingo, do chefe da polícia metropolitana de Londres, Paul Stephenson.

A demissão de Stephenson deve aumentar a pressão política sobre o primeiro-ministro britânico, David Cameron, que teve um ex-editor do jornal, Andy Coulson, como porta-voz até janeiro deste ano.

Stephenson deixou o cargo após a revelação de que a polícia havia contratado como consultor um editor-executivo do tabloide, Neil Wallis, também implicado no escândalo dos grampos. Nesta segunda-feira, o vice-chefe da polícia metropolitana de Londres, John Yates, também pediu demissão do cargo. Ele era o responsável por checar o histórico de Wallis.

Ao anunciar sua demissão, na noite de domingo, o ex-chefe da polícia afirmou que a ligação de Cameron com Coulson o impedia de comentar com o premiê as acusações contra Wallis.

"Eu não quis comprometer o primeiro-ministro de nenhuma forma ao revelar ou discutir um suspeito em potencial que claramente tinha uma relação próxima a Coulson", afirmou Stephenson.

Acusações

O News of the World é acusado de ter tido acesso ilegalmente a mensagens de celulares de mais de 4 mil pessoas em busca de informações exclusivas para reportagens.

As acusações eram conhecidas há tempos, mas o escândalo ganhou força nas últimas semanas com a revelação de novos detalhes sobre o caso.

Outra ex-editora do News of the World, Rebekah Brooks, foi detida e libertada sob fiança no domingo após prestar depoimento sobre o caso.

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Image caption Escândalo levou a questionamentos sobre relação de Cameron com Rupert Murdoch

Brooks renunciou na sexta-feira ao cargo de presidente-executiva da News International, braço britânico do grupo do magnata australiano Rupert Murdoch, proprietário do News of the World e de outros meios de comunicação importantes no país, como os jornais The Sun, The Times e The Sunday Times, além da rede de TV Sky.

O escândalo levou Murdoch a decidir pelo fechamento do News of the World, que teve seu último número publicado na semana passada. O tabloide era o jornal de maior vendagem aos domingos na Grã-Bretanha, com uma tiragem de cerca de 2,7 milhões de exemplares.

Questionamentos

O opositor Partido Trabalhista pretende questionar Cameron novamente sobre sua decisão de contratar Andy Coulson como porta-voz mesmo após as primeiras revelações de escutas ilegais promovidas pelo News of the World.

Para a deputada Yvette Cooper, porta-voz dos trabalhistas para assuntos de Justiça, as declarações de Stephenson indicam uma "preocupação muito grave de que o chefe da polícia se sentiu incapaz de falar ao primeiro-ministro e à ministra do Interior sobre essa questão operacional com Neil Wallis por causa da relação do primeiro-ministro com Andy Coulson".

Para o analista político da BBC Norman Smith, as declarações de Paul Stephenson parecem ter tido a intenção de jogar o foco do escândalo de volta para o governo britânico.

Cameron afirmou respeitar a decisão de Stephenson de deixar o cargo e pediu que a polícia metropolitana siga fazendo "todo o possível" para continuar com as investigações sobre os grampos.

Os questionamentos ofuscaram a visita de Cameron à África, que foi reduzida de cinco para dois dias por conta da crise política. O premiê havia sido anteriormente criticado por estar em uma viagem ao Afeganistão quando o escândalo estourou, há duas semanas.

Cameron, entretanto, defendeu sua decisão de viajar, afirmando que é importante que o premiê mantenha sues compromissos em um momento em que o país busca investimento, crescimento e combate o desemprego.

"Só porque você está viajando para a África não significa que você deixou de se comunicar com seu escritório", afirmou Cameron.

Ele descartou qualquer semelhança entre a contratação de Neil Wallis pela polícia de Londres e de Andy Coulson pelo governo.

"A situação na polícia metropolitana é muito diferente da situação do governo, não apenas devido aos assuntos envolvendo a polícia têm um efeito direto na confiança do público em relação ao inquérito sobre o News of the World e sobre a própria polícia".

Mas os trabalhistas afirmaram que o primeiro ministro estava "contundido" por causa da crise de confiança na mídia e na polícia, devido à sua decisão de empregar Coulson.

"É também muito impressionante ver que Paul Stephenson assumiu a responsabilidade e pediu demissão por conta do uso do vice de Coulson, enquanto o premiê sequer pediu desculpas por ter contratado Coulson", disse o líder trabalhista, Ed Miliband.

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