Cameron diz que se arrepende de ter contratado ex-editor de tabloide

Cameron durante pronunciamento no Parlamento, ao lado do vice-premiê, Nick Clegg. Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Premiê diz que pedirá desculpas se for provado que ex-porta-voz é culpado de grampos

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse nesta quarta-feira ao Parlamento que se arrepende de ter contratado o ex-editor do tabloide News of the World Andy Coulson como seu porta-voz.

Cameron afirmou que, se soubesse o que sabe hoje, não teria contratado o jornalista como seu assessor direto.

"Claro que me arrependo, e eu sinto muito pelo furor que isto causou", disse o premiê, sem, no entanto, pedir desculpas expressas pela contratação de Coulson.

O jornal, que foi fechado no início deste mês, é acusado de grampear ilegalmente os telefones de milhares de pessoas e de pagar propina à polícia para obter informações exclusivas.

Coulson renunciou ao cargo no governo em janeiro devido às revelações sobre grampos no jornal do qual havia sido editor até 2007. Ele nega ter tido conhecimento sobre as irregularidades.

Desculpas

Nos últimos dias, as denúncias levaram à demissão também de altos executivos do conglomerado de mídia do empresário Rupert Murdoch, do qual fazia parte o News of the World, e oficiais da alta hierarquia da polícia londrina, incluindo o seu número um, o comissário Paul Stephenson.

Aos parlamentares, Cameron afirmou que se desculpará se for comprovado o envolvimento de seu ex-porta-voz nos grampos, cuja polêmica assola o país.

"Será o momento para um profundo pedido de desculpas, e neste caso eu digo a vocês que não deixarei de fazê-lo", disse o primeiro-ministro. "Vivendo é que se aprende. Acreditem, eu aprendi", afirmou.

Cameron admitiu que o caso "arranhou a confiança das pessoas na imprensa e na legalidade do que fazem; na polícia e na sua capacidade de investigar; e nos políticos e sua capacidade de lidar com os problemas" e por isso será objeto de uma investigação "robusta".

Ele disse que, se Coulson mentiu a respeito dos grampos, ele deve sofrer acusações criminais "severas". No entanto, Cameron indicou que Coulson é "inocente até que se prove culpado".

Oposição

Em meio a cenas de fúria protagonizadas por seus colegas da oposição, o líder do Partido Trabalhista no Parlamento, Ed Miliband, disse que a contratação de Coulson foi um "erro catastrófico de julgamento".

Miliband disse que as explicações do primeiro-ministro "não são suficientes" e afirmou que questões a respeito de Coulson tiveram como resposta "um muro de silêncio" por parte dos aliados de Cameron.

"O país tem o direito de esperar que o primeiro-ministro tenha feito todo esforço para saber dos fatos a respeito de Coulson, para proteger a si mesmo e ao seu gabinete", afirmou o líder oposicionista.

"Isto não pode ser reduzido a uma ignorância grosseira. Isto foi uma tentativa deliberada de se esconder dos fatos sobre Coulson."

Pressão

Os parlamentares trabalhistas continuaram pressionando Cameron a respeito de Coulson, perguntando que conselhos ele recebeu de outros políticos, incluindo o vice-premiê, Nick Clegg, e que empresa foi usada para investigar o jornalista antes que ele fosse contratado.

Eles também perguntaram a Cameron sobre seus contatos com outro ex-editor do News of the World, Neil Wallis, que foi detido pela polícia na semana passada devido a seu envolvimento com o escândalo dos grampos.

O primeiro-ministro acusou a oposição de criar uma "ladainha de conspirações um tanto patéticas para tentar ganhar um jogo político".

Cameron também defendeu seu chefe de gabinete, Ed Llewellyn, depois de indicações feitas na terça-feira de que ele teria falhado em dar ao premiê informações sobre os grampos.

O primeiro-ministro também foi questionado sobre se ele teria quebrado a ética ministerial ao discutir com executivos da News International - entre eles, Rebekah Brooks - a oferta de Rupert Murdoch para assumir o controle da operadora de TV a cabo BSkyB.

Em meio a manifestações de afronta dos oposicionistas, Cameron disse: "Eu nunca tive quaisquer conversas inapropriadas".

Analistas estão considerando esta sessão no Parlamento o maior teste político de Cameron, que está na defensiva desde que a crise dos grampos estourou, há três semanas.

O primeiro-ministro teve de encurtar uma viagem à África para comparecer à sessão extraordinária do Parlamento - que adiou o início de seu recesso, marcado para esta quarta-feira.

Além dos jornais, o inquérito investigará se há responsabilidades individuais na polícia, na mídia em geral e entre a classe política.

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