Impunidade e sensação de controle levam a saques, dizem analistas

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Image caption Para especialistas, impunidade dos dias anteriores serviu de incentivos aos saqueadores

Muito britânicos ainda estão se recuperando dos assaltos e dos danos causados durante os distúrbios em Londres e em outras cidades da Grã-Bretanha. Mas em que momento as pessoas passam a pensar que podem começar a saquear?

Cenas vistas nos últimos dias em Londres e em outras cidades mostram pessoas destemidas entrando em lojas e saindo com TVs de tela plana debaixo dos braços.

Muitos dos saqueadores não se preocuparam sequer em cobrir o rosto, ao invadir lojas de eletrônicos, de itens esportivos e de bebidas.

Alguns ainda posaram para fotos, exibindo com orgulho sua "conquista" e publicando a imagem em mídias sociais.

Poder intoxicante

Para o criminologista John Pitts, especialista em jovens e gangues, é bastante provável que os líderes dos distúrbios sejam presos, mas muitos dos que participaram não serão punidos.

"Os mais jovens estão acostumados aos adultos lhes dizerem que eles não podem fazer algo ou terão de sofrer as consequências. E então, eles fazem o que querem e nada acontece".

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Image caption Ex-hoolingan conta que a 'emoção' motiva mais do que os itens roubados

O criminologista acredita que o grande número de jovens envolvidos se deve também ao fato de as escolas britânicas estarem em férias nesta época do ano.

Segundo Pitts, o número de participantes em distúrbios desse tipo é fundamental, já que eles tornam saqueadores no momento que eles se sentem no controle da situação.

"Isso porque você não pode fazer protestos como esses sozinho. Um distúrbio com apenas uma pessoa não passa de um acesso de raiva. Em algum momento, uma multidão enfrentando a polícia percebe que está no controle."

Tendências psicopatas

Psicólogos argumentam que uma pessoa perde sua identidade moral quando está em um grupo amplo, corroendo a empatia e a culpa – qualidades que coíbem o comportamento criminoso.

"A moral é inversamente proporcional ao número de pessoas observando", afirma James Thompson, especialista em psicologia na Universidade de Londres.

"Quando você tem um grande grupo de pessoas relativamente anônimas, você pode fazer basicamente o que quiser."

Thompson rejeita a ideia de que alguns dos saqueadores estavam apenas seguindo o fluxo quando a violência explodiu. Segundo ele, há sempre uma escolha a ser feita.

Ver pessoas que saíram impunes pode, segundo o psicólogo Lance Workman, servir de motivação para que outros comecem a saquear.

"Os seres humanos são os melhores do planeta na arte de imitar. E temos a tendência de imitar o que é bem sucedido. Se você vê uma pessoa saindo de uma loja com uma TV e um par de tênis, alguns pensarão: por que eu não vou fazer isso também?"

Workman afirma que alguns dos manifestantes podem adotar um código moral em suas mentes: "ricos têm coisas que eu não tenho, então é justo que eu pegue essas coisas".

No entanto, segundo ele, evidências sugerem que líderes de gangues estão propensos a ter tendências psicopatas.

Hooligans

Essa ideia de uma "mentalidade das multidões" pode ser encontrada também nos hooligans, torcedores que causam violência em jogos de futebol.

O ex-hooligan do Manchester United Tony O’Reilly afirma que há similaridade entre os saques desta semana e a violência em estádios, da qual ele fez parte por 30 anos.

"É um fator de empolgação. Você não consegue se livrar daquela emoção. É uma sensação de que algo está acontecendo."

Para a maioria, é essa emoção que conta – as "coisas grátis" são apenas um bônus. Mas não para os líderes que incentivam a multidão a invadir lojas.

O’Reilly diz que participou de um distúrbio com torcedores do Manchester United que terminou com o saque de uma joalheria.

"A multidão em si não tinha como alvo a joalheria, mas alguns dos criminosos usaram o grupo, que se juntaram a eles."

Mulheres e crianças

Acadêmicos dizem, porém, que o fator sócio-econômico também deve ser levado em conta nessa equação.

"Para muitos saqueadores, é apenas uma oportunidade, mas também uma maneira de expressar um sentimento de 'onde mais eu vou conseguir essas coisas?'", afirma o sociólogo Paul Bagguley, da Universidade de Leeds.

Segundo ele, homens jovens costumam entrar em confronto com a polícia, enquanto saqueadores podem incluir até mesmo mulheres e crianças.

"É bastante provável que muitas pessoas que saquearam nunca tenham feito isso antes. Nessas situações, há uma sensação de que as regras normais da sociedade não se aplicam."

Pitts afirma ainda que esses distúrbios são eventos complexos que não podem ser explicados apenas como "selvageria".

Segundo o especialista, eles têm de ser visto diante de um pano de fundo de "crescente descontentamento" em relação ao desemprego entre jovens e às disparidades de renda.

De acordo com Pitts, a maioria dos manifestantes vem de locais pobres e não tem nada a perder.

"Eles não têm uma carreira com a qual se preocupar. Eles vivem nas margens, desapontados e capaz de fazer coisas terríveis."

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