Bovespa volta a subir; para analistas, ações baratas atraem investidores

Bolsa de Frankfurt. Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Expectativa em torno de medidas do BC americano dão ânimo aos investidores em semana turbulenta

As bolsas dos Estados Unidos, da Europa e do Brasil se recuperaram nesta terça-feira da forte turbulência do dia anterior, que havia levado a Bovespa à sua maior queda desde a crise de 2008. Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, as ações na bolsa paulista estão com valores baixos, o que atrai investidores.

O índice Ibovespa fechou a terça-feira em alta de 5,1%. Por sua vez, o dólar comercial caiu, cotado a R$ 1,59.

Já o índice Dow Jones da bolsa de Nova York também se recuperou, com alta de 3,1%, em um dia de fortes oscilações.

A bolsa chegou a operar no vermelho após às 15h, refletindo o pessimismo da ata divulgada pelo Federal Reserve, o banco central americano, para quem os "os riscos negativos ao cenário econômico aumentaram".

"A notícia do Fed talvez tenha colocado água fria na expectativa de uma injeção de dinheiro. Mas esses altos e baixos ainda vão acontecer várias vezes”, diz o analista Alcides Leite, da Trevisan Escola de Negócios.

"A recuperação na Bovespa, assim como em Nova York, acaba sendo um movimento normal, porque os papéis estão muito baratos e são um bom investimento."

A Bovespa chegou a cair após a divulgação da ata do Fed, mas se recuperou minutos depois. Nessa segunda-feira, a bolsa de São Paulo fechou em baixa de 8,08%, o pior resultado desde outubro de 2008, auge da crise financeira mundial.

Para o analista Adriano Gomes, professor da ESPM, o preço baixo das ações na Bovespa após a queda de segunda-feira explicam a forte recuperação desta terça.

"As ações estão com um valor baixíssimo no Brasil. Chegamos ao piso, não tem como descer mais. Com a perspectiva de crise nos Estados Unidos e na Europa, é um ótimo negócio comprar ações no Brasil", diz Gomes.

Na Europa, os mercados também deram sinais de recuperação. Em Londres, a bolsa fechou em alta de 1,89% e em Paris, de 1,63%. O índice DAX, de Frankfurt, teve baixa de 0,1%, muito menor que a queda da segunda-feira, que foi de 5,02%.

A recuperação nos mercados europeus se deu em um contexto de expectativa ante à divulgação da ata do Fed (divulgada apenas após o fechamento das bolsas da Europa). Esperava-se um anúncio de intervenção no mercado, que acabou não ocorrendo.

Pessimismo

A ata do Fed não trouxe as medidas esperadas, apesar de reafirmar a atual política monetária de juros baixos dos Estados Unidos. Segundo o documento, a taxa deve ficar entre 0 e 0,25% até o meio de 2013.

O Fed diz ainda que o "crescimento econômico até o momento tem sido mais lento que o esperado" pela instituição.

"O comitê (do Fed) espera um ritmo mais lento de recuperação nos próximos trimestres", diz a ata.

Para Leite, da Trevisan, o período de incerteza deverá durar "um ano ou dois". Ele diz que a bolsa paulista deve "oscilar ao sabor das notícias", apesar dos bons indicadores da economia brasileira.

"A Bovespa segue o movimento das bolsas internacionais, tanto porque nós temos uma grande concentração de commodities e de minério listados na bolsa. Além disso, é possível que outras agências rebaixem os títulos americanos nos próximos meses. Também é possível que rebaixem os títulos do Reino Unido e da França", diz.

Para Gomes, da ESPM, o que ocorre é uma "reação estúpida" dos mercados.

"Nem a Espanha, nem a Itália e muito menos os Estados Unidos vão quebrar. Tanto que o dólar ganhou valor nos últimos dias, o que mostra que os Estados Unidos ainda representam maior segurança para os investimentos", diz, criticando o rebaixamento dos títulos americanos pela agência Standard & Poor’s.

Na última sexta-feira, a agência rebaixou a nota da dívida dos Estados Unidos de "AAA" para "AA+", um dos motivos do mau humor nos mercados nesta semana.

Dívida

A avaliação negativa ocorreu dias após os Estados Unidos chegarem próximos de um calote inédito, devido a um impasse no Congresso para a aprovação da elevação no teto da dívida do país.

Na Europa, o temor é que a crise da dívida soberana, que já atingiu Grécia, Portugal e Irlanda (países que receberam ajuda financeira), chegue à Itália e à Espanha, cujo custo da dívida pública também aumentou na última semana.

No domingo, o Banco Central Europeu anunciou que irá comprar títulos espanhóis e italianos para deter a crise na zona do euro.

Para Gomes e Leite, a principal diferença entre a turbulência vista hoje nas bolsas e a de 2008 é justamente o endividamento dos Estados.

O endividamento, segundo eles, também é consequência dos pacotes de resgate aos bancos em 2008, que tiveram de ser socorridos pelos governos.

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