Londres em chamas e sem chamas

Éfogo. Invocado, com polícia e londrinos, não peço desculpas por começar este texto com um infame jogo de palavras. Nada tenho a acrescentar a não ser, para quem se interessa pelo meu bem estar, que meu enfisema continua firme, mas, ao menos, os distúrbios ainda não chegaram até minhas redondezas e quadradices.

Um ou outro assaltante marca seu ponto, o cara da caixa registradora rouba um tiquinho só, pois não é guloso, e a polícia, armada ou desarmada, só a ouço uivando com suas sirenes, a caminho, ou possivelmente fuga, de um dos muitos riots que começam a se espalhar pela cidade e já foram ter até mesmo o mau gosto de ir dar em Birmingham.

Escrevi riots. Mais curtinho, logo jornalístico, e, em seu pequeno bojo, contém mais desatino e violência. Ao menos para meus ouvidos sensíveis.

Também não soube de lootings (anglicizo-me para manter uma distância saudável desses horrores) por estas bandas. A senhora portuguesa que limpa a casa três vezes por semana me contou que, num dos supermercados mais populares do bairro, ela flagrou uma senhora (branca, frisou ela e refriso eu) botando no bolso do casaco uma lata de comida para gatos. Um caso de polícia, dizemos os dois e, por não sermos daqui e não nos chamarmos Manuel, rimos às bandeiras de nossos dois países irmãos despregadas, esperançosos de nem polícia ou desordeiro nos ouça.

No meio dos – vá lá que seja – distúrbios, o saque, pilhagem ou saqueio posa para as câmeras profissionais e os úbiquos celulares que entopem agora o YouTube. Looting, como dizem quem os pratica e quem os sofre. Enfim, uma vergonha total e manchete tabloidista para pegar a mídia impressa e informatizada do mundo inteiro.

Já ouvi uma teoria, na televisão, de um camaradinha formado em ciências sociais e burrices macumbais, que isso tudo é praga do Rupert Murdoch. Cujo nome, à sua simples digitação, me dá vontade de ir tacar fogo no armazém da esquina e saquear o indiano que vende roupas e malas. Do assunto, quero distância.

Mais: peço distância. Vão "riotar" e "lootar" algures, indignados cidadãos da faixa etária entre os 12 e 16 anos, como me informa um dos mil informantes televisuais. Férias e tiro em cidadão de tez parda (sou antigão e Gilberto Freyre pensou em me mencionar em sua obra-prima, Casa Grande e Sem Sala, como quis um dia o grande Millôr) é nisso que dá.

Mas eu falei em saques. O que me leva, graças a Deus, a outro assunto: o raio dos Jogos Olímpicos do ano que vem. Falta um ano e não há telejornal que não dedique ao menos uns cinco minutos ao vexame de bronze que os ingleses vão pegar em 2012. Já não suporto mais essa corrida com barreiras. Não posso dizer que prefiro os distúrbios e pilhagens, mas, como deveria ter dito a polícia aos revoltados jovens e não tão jovens assim, "Calma, pessoal, calma! Devagar com a louça saqueada!"

Uma das manias é o danado do voleibol, que, aliás, enchamos o peito, esse, como o futebol, é conosco, gente! Agora, nessa desenfreada preparação olímpica, escolheram o Horse Guards Parade, a praça de desfile da Guarda Montada inglesa, logo ali em Westminster, onde, todo ano, a Rainha passa em revista um regimento e sua bandeira como parte das festividades (cada um festeja como quer, uai!), na tal praça, dizia eu, autoridades do mais alto gabarito, juram-me, decidiram transformar o espaço em quadra de voleibol temporária como parte do treino para a Olimpíada de 2012. Confesso que eu preferia ver a senhora dona Rainha Elizabeth fazendo ginástica sueca ou jogging no tradicional local.

De resto, em matéria quase que sem chamas, menciono a novidade da moda: riquixás ou jinriquixás. Isso. Aqueles vastos velocípides de origem chinesa ou japonesa fazendo concorrência aos famosos black cabs londrinos. É, aqueles mesmo. Os táxis pretões (epa! Cuida-te, boca!) que, em número de 25 mil, constituem, uma das marcas registradas da cidade.

Para quem não tem Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, qualquer coisa vale. Na verdade, há que se admitir: os motoristas são danados de bons, não mandam bala, conhecem o raio da cidade, com ou sem riots e lootings, embora custem uma nota. Consideram eles, os motoristas de táxi, que os veículos que já passaram a ser objeto de museu, em número de 600 apenas, constituem concorrência desleal e, indo mais longe, mediante o líder de seu sindicato, Bob Crow, são uma ameaça a seus membros, a que Crow sequer se rebaixa a dar o nome de motoristas ou velocipideiros.

A cidade, no entanto, continua de pé. Mais ou menos acho, que não sou besta de botar os pés na rua, mesmo que pudesse. Pensando bem, uma volta de velocipidão (são amarelos) eu toparia. Contanto que não me mandassem bala ou coquetel Molotov. Prometo inclusive não tentar saquear nada.