Ivan Lessa: Das cinzas, uma rosa e uma flor

Recebi alguns e-mails de amigos distantes (tinha até de Boca Ratón) perguntando por mim, minha residência, meu bairro, e um chegou até mesmo a mencionar, delicado, meu enfisema.

Pelos noticiários de que dispunham, esta ilha ardia e era saqueada. Não estavam errados os órgãos de informação de que dispunham, do Brasil à Flórida. Estivemos à beira de uma semana do evento policial (e já tem gente que chama, não sem alguma razão, de "evento criminoso") destinado a marcar, infelizmente, época.

As forças da lei, que já foram a "tênue linha azul" separando a sociedade dos bons e dos maus elementos, fizeram prevalecer os preceitos básicos da ordem e da segurança. Embora tudo indique que elas mesmo foram culpadas, ou pelo menos o estopim, de tudo que se seguiu.

A polícia inglesa já foi inveja do mundo, assim como o sistema nacional de saúde. Hoje, ao que tudo indica, a primeira precisa dar uma passada no hospital com menor fila para um check-up geral.

Volto aos e-mails recebidos. Fiquei grato, beirei o comovido. Mantive aquilo que já prevaleceu por aqui, o stiff upper-lip (compostura, digamos, inexpressão facial, recolha de sentimentos íntimos), e respondi agradecendo, dizendo que não precisavam se preocupar, que a coisa, tudo indicava, serenara e já era jornal e TV de ontem. Esclareci que a balbúrdia ficara bem distante de minhas redondezas.

Tottenham, onde tudo começou, diversos bairros nos quatro pontos cardeais da cidade, e, finalmente. a tristeza de se espalhar por outras cidades: Manchester, Birmingham, Liverpool e até mais.. Segundo a manchete deste sítio, a BBC Brasil, Londres, na terça-feira fora blindada. Dezesseis mil policiais onde, no dia anterior, eram apenas 6 mil procurando manter um mínimo de ordem entre chamas, cinzas e escombros e arruaceiros. Li num jornal que King's Road, a uns poucos quarteirões daqui de casa, teve uma vitrine quebrada.

Sem maiores esclarecimentos. Frise-se que há uma grande prevalecência desse "sem maiores esclarecimentos" por estas bandas. A família do rapaz morto a tiros não foi informada oficialmente de nada. Nem sua comunidade. O órgão que zela pelas atividades policiais declarou que não foi disparada qualquer bala pelo – parece que não há outra palavra – rapaz morto. Um In memoriam para a Scotland Yard, digo – rezo? eu.

Sem satisfações também ficou, e na sexta ainda estava, a população menos privilegiada, de origem étnica africana ou caribenha, conforme a "Operação Tridente" (mau nome) que os policiais em exercício no local do – crime? – vinham investigando e pararam o táxi do morto, para pedir documentos ou seja lá o que fosse. Mais um dado sem muita divulgação: o motorista do táxi do rapaz ainda não está "em condições" de prestar qualquer depoimento. Isso numa cidade com os motoristas de táxi mais tagarelas do mundo. É o caso de mais uma interrogação. Tomem lá: ?

Não havendo justiça, o normal é o povão, mesmo muito garoto (povinho, digamos), como é o caso, vai às ruas e tome quebra-quebra e queima-queima.

Mas basta uma noite ligeiramente mais calma e muito pronunciamento oficial, autoridade voltando das férias séria e esbaforida, para começar a ter início o trabalho de reconstrução. Das comunidades, do moral da população atingida. Das relações públicas, da chatice dos Jogos Olímpicos de 2012.

Nos distúrbios de 1985 foi a mesma coisa. Muita falação, pouca ação. Durante a blitz, na Segunda Guerra Mundial, Churchill, com seus uisquinhos e conhaque, não se cansou de colaborar para as futuras antologias de frases espirituosas e de alta nível de citação. O espírito popular, diz a lenda (hoje é o caso de se duvidar de tudo) também contribui de "forma esplêndida", não se cansam de repetir. Bono já deve estar bolando um concerto em benefício de seja-lá-o-que-for com Rosa no título. Fênix, apesar de ave rara, é ave muita citada por jornalista de pouca imaginação.

"A humanidade não busca a felicidade, só os ingleses fazem isso", decretou Nietzche e desculpo-me pela minha pequena pilhagem filosófica-literária, com os acontecimentos ainda na base do "que será que vai dar isso tudo." Baseados nesse pontificação, formou-se uma organização chamada Action for Happiness (Ação para a Felicidade) cuja base é simples como atirar uma pedra na vitrine de uma loja: vamos sorrir mais. O movimento, se movimento se pode chamá-lo, leva o endosso de economistas da London School of Economics.

Cinzas, flor, sorriso. Só falta o Bono botar letra e o que ele chama de música. Ou então nosso bom Caetano Veloso que, afinal, aqui morou e compôs canção decantando a graça da cidade. Mas um Cae sem Photoshop (vide capa do último número da Rolling Stone), como proibiu sua manager e ex-senhora. Photoshop, segundo o celebrado compositor, ora em grande forma física e artística, em entrevista para o Jô Soares, disse que isso, o Photoshop, ou cirurgia plástica, “é coisa de político babaca”. E também marca registrada, doce ex-casal.

Julia Roberts, quando a retocaram com computador, não quicou. Apenas conferiu sua conta bancária.