Debutante se preocupa mais com casa que será derrubada do que com o baile

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Image caption Mãe e filha dividem uma beliche em uma casa no Morro da Providência

Débora Barbosa da Silva não vê a hora de chegar a valsa para a qual vem ensaiando seus passos de debutante, neste sábado. Mas, em casa, sua maior preocupação é outra. A festa acontece semanas antes de ela ter que deixar a casa onde cresceu, que será derrubada para abrir caminho às obras de urbanização no Morro da Providência.

A chegada de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ao Morro da Providência, na região portuária do Rio, em abril do ano passado, trouxe diversas mudanças para a comunidade. Graças à UPP, quinze jovens vão ganhar, neste sábado, um baile de debutantes de princesa, no Museu Histórico Nacional.

Mas outras transformações que vieram na esteira da UPP bateram à porta de Débora. A pacificação da favela abriu terreno para o Morar Carioca, programa de urbanização concebido pela prefeitura para melhorar as condições de habitação em favelas e que será levado a todas as comunidades cariocas até 2020, de acordo com a Secretaria municipal de Habitação.

Na Providência, as transformações serão profundas: hoje, o morro tem cerca de 1.250 residências. Segundo a secretaria, um total de 586 - quase metade - será removido. A casa onde a jovem debutante mora com a mãe é uma delas.

‘Triste e feliz’

O conjunto de obras vai abrir vias no morro, remover casas de áreas de risco, levar serviços básicos como saneamento, redes de água potável e coleta de lixo para todas as casas e remover residências de áreas muito densas, para aumentar a ventilação e a iluminação natural.

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Image caption Débora participou de ensaios, prova de roupa e sessão com cabeleireiros e maquiadores

Débora completa 15 anos em setembro. Na idade simbólica de tantas transformações para meninas virando moças, vai se mudar por pelo menos um ano e meio para um apartamento alugado, pago pela prefeitura, até que fique pronta a unidade habitacional no novo local para onde será transferida, no pé do morro.

"Ao mesmo tempo estou triste e feliz", resume ela.

A jovem está feliz com a perspectiva de ganhar um apartamento novo no futuro, mas triste por ter que deixar os amigos da vizinhança - como a amiga que chama com um grito da janela - e principalmente por sair de perto dos avós, cuja casa fica ao lado da sua.

"Vai ser difícil sair de perto da minha avó e do meu avô. Vou lá todo dia. Moro aqui desde que nasci", diz Débora.

Casas derrubadas

O barraco onde mora com a mãe, Neuza Pereira Barbosa, de 45 anos, tem três pavimentos separados por escadas íngremes. Mãe e filha dividem um beliche em um cômodo apertado, que faz as vezes de sala, com um cantinho para a televisão e o computador.

Neuza aponta para outras casas ao lado da sua e diz que também serão derrubadas. A dos avós de Débora poderá permanecer.

"Acho que vai ser uma boa vantagem", considera. "Dizem que o apartamento vai ter dois quartos, sala, cozinha, banheiro. Agora, creio que também vamos ter que pagar água, luz, condomínio, IPTU, né? Para algumas famílias vai ser difícil. Graças a Deus eu trabalho com carteira assinada, e o que entra dá para pagar as contas", diz ela, que trabalha na cozinha de um hospital particular no Maracanã.

O Morro da Providência é conhecido com a favela mais antiga do Rio. Ela começou a ser formada há mais de cem anos por soldados regressos da Guerra de Canudos e moradores de cortiços no Centro, expulsos pela grande reforma urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20.

As obras da Secretaria de Habitação incluem a construção de um plano inclinado e um teleférico com três estações, que levará os moradores até a estação ferroviária Central do Brasil. Elas começaram em fevereiro e vão custar R$ 131 milhões à prefeitura.

Pedra Lisa

Das 586 casas que serão removidas, 321 estão em áreas de risco, afirma o subsecretário de Projetos de Obras da Secretaria Habitação, João Luiz Reis. A maioria fica na região conhecida como Pedra Lisa, onde funcionava uma pedreira.

"100% das casas dessa área vão ser reposicionadas. Como o nome do local já indica, é totalmente imprópria à habitação", afirma, corroborado por moradores que relatam tragédias após chuvas fortes no passado.

As demais residências - 265 - estão em áreas que, segundo Reis, interferem na implantação dos projetos. É o caso da residência de Débora.

"Nossa garantia é que todas as famílias serão reassentadas no próprio morro ou em suas cercanias. Nenhuma família vai para outra região da cidade, a não ser que queira. Então isso não vai interferir no local de trabalho dos moradores, no local de estudos dos filhos", diz Reis.

Para reacomodar as famílias, a prefeitura vai construir 700 unidades habitacionais no morro e arredores, dentro do programa Minha Casa, Minha Vida. O título de posse será transferido aos moradores. Reis afirma que cerca de 300 unidades já estão em construção, e as demais vão ser contratadas até o fim deste ano. "A previsão é que estejam prontas até o fim de 2012", afirma.

Até lá, as famílias receberão aluguel social de R$ 400 para viver em residências temporárias. Neuza Barbosa está só esperando passar o baile de debutantes da filha para voltar a procurar um apartamento que caiba no valor.

"Eu tinha achado um na Vila dos Portuários (conjunto habitacional no morro) e era R$ 450. Mas o cheque da prefeitura não saiu a tempo e alugaram para outra pessoa", lamenta ela, que queria poder sair direto de sua casa para o apartamento novo.

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Image caption O projeto vai derrubar quase a metade das 1.250 casas do morro

"Eles tinham que ter feito o apartamento primeiro para a gente não ter que ir para o aluguel social. A gente faz uma mudança, depois outra mudança... A maioria não está gostando de sair, não", diz.

Baile

Enquanto não chega o dia do baile, as atenções de Débora e da mãe estão todas voltadas para a festa. A jovem passou a semana toda às voltas com ensaios, prova de roupa, sessão com cabeleireiros e maquiadores, sem esquecer a redação que tinha que entregar à UPP como requisito para participar da festa.

Todas tiveram que escrever um texto sobre o Museu Histórico Nacional para que tudo não parecesse chegar "de mãos beijadas", disse uma das organizadoras da festa, coordenada pela UPP e pela Secretaria estadual de Segurança Pública com ajuda de debutantes do ano passado - esta é a segunda edição do baile.

"Só quero que chegue logo a valsa", diz Débora, que alugou um vestido longo rosa claro para dançar o "Danúbio Azul" com um policial fardado. "No início eu queria que chegasse logo o dia, mas agora não quero que passe mais", diz.

Passado o frisson da festa, Neuza voltará à procura de uma casa para alugar na semana que vem. Para mãe e filha, um período de muitas mudanças se aproxima.

"Ela já está nessa fase de mudança, e a moradia da gente mexe com a estrutura de tudo", diz Neuza. "Mas a gente vai sentir mesmo é quando a marreta passar por aqui."

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