Mesmo sem processo, futuro político de Strauss-Kahn é motivo de dúvida

Strauss-Kahn comparece a tribunal em NY nesta terça (Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Figuras no Partido Socialista tentam reabilitar Strauss-Kahn na vida política francesa

Mesmo livre de um processo por abuso sexual nos Estados Unidos, o ex-diretor-gerente do FMI Dominique Strauss-Kahn vê sua volta à política da França ficar mais difícil, assim como sua possível candidatura à Presidência, devido ao escândalo em que se envolveu.

A Justiça de Nova York acatou nesta terça-feira o pedido da Promotoria para o arquivamento das acusações que recaíam sobre Strauss-Kahn, depois que uma camareira de um hotel em Nova York o acusou de estupro e assédio sexual, em maio.

Em seguida, uma corte de apelações rejeitou um recurso da defesa, pondo fim ao caso e permitindo que o francês ganhasse a liberdade.

No entanto, depois de todas as acusações e reportagens escritas sobre o assunto, é difícil acreditar que Strauss-Kahn possa retornar à política – menos ainda que volte à corrida presidencial de 2012, que liderava até ser acusado nos EUA.

Ao mesmo tempo, a França é um país onde a imprensa e os eleitores sempre foram mais tolerantes no que diz respeito a derrapadas sexuais de seus políticos – talvez mais do que qualquer outro país europeu.

Figuras importantes do Partido Socialista de Strauss-Kahn já estão trabalhando para reabilitá-lo.

Em um momento de crise econômica na França, Strauss-Kahn é considerado um valioso ativo para os socialistas, por seu histórico no FMI e por ser considerado um político experiente e astuto. Não é à toa, portanto, que muitos líderes do partido querem que ele volte ao cenário político.

O ex-ministro da Cultura Jack Lang acredita que DSK (como é conhecido) possa retornar – talvez não à corrida presidencial, mas como primeiro-ministro em um novo gabinete socialista.

'Alívio imenso'

Seguindo a mesma linha de raciocínio, o novo líder da corrida presidencial, François Hollande, deu indicativos de que, caso vença as eleições, poderia dar um cargo sênior a DSK.

Questionado se Strauss-Kahn poderia retornar à disputa eleitoral, Hollande afirmou que isso depende apenas dele. "Um homem com as habilidades de DSK pode ser útil ao seu país nos meses e anos futuros", disse.

Martine Aubry, líder dos socialistas, comemorou o fim do processo criminal contra Strauss-Kahn. "Sinto grande afeição por Dominique e estou imensamente aliviada. Estamos todos esperando que ele saia desse pesadelo. É uma ótima notícia."

Ainda não se sabe quando Strauss-Kahn retornará à França, mas seu advogado disse que ele deveria receber seu passaporte de volta ainda nesta terça.

Há relatos de que DSK poderia antes passar em Washington para conversar com seus ex-colegas do FMI.

Primárias

As primárias que decidirão o candidato socialista para a Presidência da França estão marcadas para outubro – ou seja, pelo menos em tese, Strauss-Kahn ainda poderia concorrer.

Muitos acreditam que ele poderá apoiar Aubry em uma disputa pela vaga com Hollande.

Em uma prova da força política de Strauss-Kahn, logo que começaram a surgir indícios de que o processo criminal contra ele perdia força, pesquisas indicaram que 60% dos eleitores socialistas o apoiariam caso ele decidisse disputar a Presidência.

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Image caption Candidata Marine Le Pen pode usar passado de DSK contra os socialistas

Isso é reflexo, também, do repúdio francês ao modo como DSK foi detido, exibido ao público em algemas e "humilhado" antes que provas contra ele fossem apresentadas.

"Ele deve ser deixado em paz agora", disse Pierre Moscovici, outro líder socialista que havia apoiado a candidatura de Strauss-Kahn.

Outras acusações

Em contrapartida, há outras acusações de infidelidade e traição que ainda recaem sobre o político francês – por uma delas, ele está ainda sendo investigado na França.

Tristane Banon, uma conhecida escritora e jornalista, diz ter sido atacada por Strauss-Kahn em 2003, durante uma entrevista em um apartamento em Paris.

Sua mãe, Anne Mansouret, uma figura proeminente no Partido Socialista, alegou que a demora em apresentar as acusações ocorreu porque, na época, ela acreditava que um processo criminal poderia prejudicar a carreira de sua filha.

Desde então, veio à tona a história de que Mansouret teria tido um caso com DSK – em um encontro consensual em que, ela disse, Strauss-Kahn se comportou com "a obscenidade de um soldado".

O desfecho do caso é incerto, porque faltam provas materiais.

Independentemente disso, essa e as demais acusações contra Strauss-Kahn ainda podem cobrar seu preço politicamente, caso ele volte à vida política, e prejudicar os socialistas na disputa eleitoral.

A candidata direitista Marine Le Pen, da Frente Nacional, muito provavelmente usaria como munição o passado de DSK, bem como o fato de seus aliados no Partido Socialista terem conhecimento desse histórico e não terem feito nada a respeito.

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