Chile faz greve geral em busca de reformas profundas

Trabalhador no Chile protesta contra governo de Sebastián Piñera (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Greve de 48 horas deve atingir 80 setores no Chile

Trabalhadores do Chile iniciaram nesta quarta-feira uma greve geral de 48 horas contra o governo do presidente Sebastián Piñera, em uma paralisação que deve atingir 80 setores.

A greve nacional visa pressionar por reformas profundas no país e é a primeira desde que Piñera tomou posse, em março do ano passado.

A paralisação foi convocada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e conta com o apoio declarado dos principais partidos da oposição, reunidos na frente chamada 'Concertación', e dos estudantes, que há mais de três meses realizam protestos contra o governo.

Segundo a CUT, pelo menos 80 setores prometiam aderir à greve, entre eles, escolas, universidades, hospitais, metrô e os trabalhadores de cobre – principal produto da economia nacional.

Em um comunicado, a CUT informou que a paralisação é por "um Chile diferente" e relaciona, entre suas demandas, uma "educação pública de qualidade e uma nova Constituição".

Sindicalistas, estudantes e outros setores da sociedade chilena reivindicam a substituição da Constituição chilena, que ainda é do período do regime militar, e que concentra fortes poderes nas mãos do presidente.

Até o fim da manhã desta quarta, o saldo da greve era de 35 pessoas detidas por "desordem" e por ataques contra carabineros (policiais) e 11 feridos (nove policiais e dois civis), segundo o jornal La Tercera.

Há relatos de ônibus sendo apedrejados e barricadas montadas nas ruas de Santiago, enquanto as forças de segurança respondem com bombas de gás lacrimogêneo.

Greve 'sem fundamento'

O presidente Piñera disse, na terça-feira, que a greve "não tem fundamento" e, em uma referência à crise internacional, destacou que a paralisação ocorre em um momento em que "todos deveriam cuidar do país".

"Quero pedir a todos os nossos compatriotas que cuidem do nosso país, especialmente agora, em um momento de incertezas internacionais", afirmou Piñera diante das câmeras de televisão.

O líder chileno registra os piores índices de popularidade desde o retorno da democracia, em 1990, de acordo com pesquisas dos institutos Adimark e CEP, divulgadas no início deste mês.

A Adimark indicou que ele contava em julho com 29% de aprovação e 62% de rejeição, refletindo "os efeitos do movimento estudantil", segundo o diretor do instituto Roberto Méndez.

Ele observou que a oposição, reunida na Concertación, também registra baixo apoio popular – 20% de aprovação e 67% de rejeição.

A Concertación governou o país durante 20 anos desde o retorno da democracia (1990-2010) até a eleição de Piñera, primeiro presidente de centro-direita desde o fim do regime de Augusto Pinochet (1973-1990).

O professor de ciências políticas da Universidade do Chile, Guillermo Holzmann, disse à BBC Brasil que este é "um raro momento da democracia chilena", já que "governo e oposição não conseguem capitalizar o apoio popular".

Crescimento econômico

Ele observou ainda que a popularidade de Piñera está em baixa, apesar do crescimento econômico recorde - 8,4% de expansão no primeiro semestre, o mais alto desde 1995.

Analistas afirmam que, apesar do crescimento e do aumento da renda per capita – em torno dos US$ 15 mil -, o modelo econômico em vigor resultou na maior concentração de renda, aumentando a distancia entre os mais ricos e os mais pobres do país.

"Existe uma insatisfação dos chilenos com a qualidade da democracia e com o poder em geral, econômico e político. Ao mesmo tempo, apesar dos protestos e da insatisfação, fica aqui a sensação de que (os sentimentos) não vão afetar a estabilidade do país", disse à BBC Brasil o analista Ricardo Israel, autor de um blog no jornal La Tercera, de Santiago.

Para ele, nos últimos dias, essa insatisfação foi canalizada pelos protestos dos estudantes que tiveram apoio de outros setores e que agora também são respaldados pela CUT.

Nesta terça-feira, a líder estudantil Camilla Vallejo esteve no Palácio presidencial de La Moneda, mas o impasse entre estudantes e o governo continua. "Reiteramos que não queremos uma educação de mercado, mas como um direito de todos", disse ela.

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Image caption Educação chilena é tema de queixas por parte dos estudantes contra governo Piñera

Piñera defende que a educação seja paga – "porque tudo tem preço", afirmou recentemente.

Em meio aos protestos, ele realizou uma reforma ministerial e fez duas propostas aos estudantes, mas as manifestações continuam, já que, argumentam os organizadores, o governo não abordou questões como a qualidade do ensino e a gratuidade das universidades.

Piñera assumiu o cargo em março do ano passado, logo após um dos piores terremotos no país. No fim de 2010, sua popularidade aumentou com o resgate dos 33 mineiros aprisionados em uma mina.

Mas sua aprovação começou a cair pouco depois, com uma série de protestos sacudindo o país, entre eles manifestações por parte de chilenos que continuam sem ter onde morar após o desastre natural e protestos por parte de estudantes e de pessoas contrárias à construção de uma hidrelétrica na Patagônia.

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