Os EUA podem se tornar um novo Japão?

Wall Street, Nova York. BBC
Image caption EUA responderam à crise de 2008 com mais rapidez que os japoneses nos anos 1990

Houve tempos em que os políticos dos Estados Unidos não sabiam ao certo onde iria parar a crise financeira. Mas num ponto estão absolutamente de acordo: os EUA não podem tomar o rumo do Japão.

A economia esteve muito flexível, a resposta à crise foi dramática, e o eleitorado muito franco para que uma estagnação ao estilo japonês ocorresse nos EUA.

Recentemente, em uma palestra, o presidente do Federal Reserve (o BC americano), Ben Bernanke, disse que “não espera que o potencial de crescimento no longo prazo da economia dos EUA seja concretamente afetado pela crise”.

Mas Bernanke disse também que, para evitar este tipo de dano, é preciso que a classe política tome uma série de decisões difíceis. A dúvida na capacidade dos políticos em enfrentar tais desafios é o que faz muitos – dentro e fora dos EUA – a questionar se o país está tomando o rumo japonês.

Mesmo seis meses atrás, tal pessimismo pareceria exagerado. Embora os problemas no sistema financeiro dos EUA tenham sido o estopim da recessão global de 2008/2009, a perda na produção nacional dos EUA tem sido menor que a de outras economias desenvolvidas. E a recuperação dos EUA tem sido mais rápida que na maioria da Europa e no Japão.

Ainda que a recuperação americana tenha sido mais lenta que em crises anteriores, as autoridades sentem que fizeram a lição para evitar o rumo japonês.

O Fed (BC americano), por exemplo, cortou a taxa de juros para próximo de zero em um período menor que o de dois anos – algo que o Banco Central do Japão levou seis anos para fazer, em 1990. A resposta fiscal para a crise nos EUA também tem sido mais dramática, ainda que tenha deteriorado as relações entre os dois principais partidos políticos do país.

A revisão recente das previsões para o PIB mostram, apesar de tudo, um declínio ainda maior da economia, com uma queda de 5,1% na produção nacional e não 4,1%, como se pensava.

No fim das contas, a renda nacional ainda não voltou ao nível pré-crise, como na Alemanha.

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Image caption Estatísticas sugerem uma "década perdida" ao menos na economia real, com alto desemprego

Desemprego

Em termos de crescimento econômico, o desempenho dos EUA nos cinco anos após a crise não parece melhor que o registrado no Japão após o estouro da bolha de ativos no fim dos anos 1980.

O mercado de trabalho americano é desanimador, com o nível de desemprego próximo a 9%, sendo que 40% dos desempregados estão parados há mais de seis meses.

No passado, os economistas tendiam a elogiar a flexibilidade do mercado de trabalho americano. Agora, o “super regulado” mercado de trabalho alemão tem mostrado desempenho ímpar.

Algumas estatísticas mostram a fadiga americana no que diz respeito à geração de empregos. Em 1958, 85% dos homens em idade de trabalho tinham emprego; hoje, apenas 64% têm. E não se trata, necessariamente, de um reflexo da entrada das mulheres no mercado, já que a proporção dos dois sexos no mundo do emprego é hoje menor que nos anos 1980.

E não se trata apenas de trabalho. Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), a queda na produção, no nível de emprego, no investimento e no crescimento da renda pessoal foi mais acentuada nas duas crises do século 21 (2001 e 2008) que em oito recessões anteriores.

Os dados sugerem que os Estados Unidos tiveram uma "década perdida", ao menos na economia real. A renda média dos lares americanos caiu 3,6% entre 2001 e 2009 enquanto a inflação subiu e os salários se mantiveram. A fragilidade nos rendimentos é sinistramente similar a do Japão.

Além disso,os analistas veem outra semelhança entre os EUA de 2011 e o Japão dos anos 1990: a paralisia política, que preocupa mais as agências de classificação de risco do que o deficit americano.

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Image caption O grau de poupança das empresas tem crescido, o que é boa notícia para os EUA

Recuperação moderada?

Muitos economistas preveem uma recuperação moderada mas firme dos EUA nos próximos anos. Como alertou Bernanke, isso será fruto de decisões difíceis, entre as quais um plano para diminuir o endividamento americano no longo prazo.

Há, no entanto, grande chance de desacordo entre republicanos e democratas. Por estas razões é fácil se deprimir em relação ao futuro dos EUA e entender porque a Standard & Poor's reabaixou a nota da dívida americana.

Mas também há razões para pensar que os pessimistas estão retratando os EUA apenas no curto prazo.

Por que? Política à parte, muitos dos ajustes que a economia dos EUA precisa para interromper o endividamento com o resto do mundo estão sendo feitos.

O grau de poupança das empresas tem subido rapidamente e a produtividade dos trabalhadores americanos tem aumentado. O atual deficit em conta corrente está baixando, o que significa que quase todo o imenso déficit no orçamento está agora sendo financiado pelos próprios cidadãos americanos.

Segundo Diana Choyleva, da Lombard Street Research, o custo do trabalho na indústria americana caiu 2% em 2009 e 2,8% em 2010 (enquanto os custos sobem na China), aumentando a competitividade americana.

Futuro asiático?

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Image caption Um dos grandes perigos é a paralisia política, com o radicalismo de setores da oposição

Talvez o século 21 "pertencerá à China e à Índia", como muitos sugerem. Mas os EUA já passaram por tempos piores antes. A indústria digital teve bom desempenho na última década, abrindo espaço para criatividade. Pelo bem ou pelo mal, os EUA são melhores nisso que China ou Alemanha.

Diferente dos EUA, as economias da zona do euro não têm a demografia a seu favor. Na maior parte dos países europeus a força de trabalho está encolhendo, refletindo de maneira negativa no potencial de crescimento econômico.

Os investidores talvez tenham razões para se preocupar com o futuro da economia americana, mas, por ora, o mundo ainda gira em torno dos EUA.

Se os acontecimentos conspiram para rebaixar definitivamente o lugar que hoje ocupa a economia dos EUA, esta seria uma notícia mais preocupante para o resto do mundo do que para os americanos.

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