Público protesta contra corrupção e impunidade no centro do Rio

Protesto na Cinelândia. Foto: Julia Carneiro/BBC Brasil
Image caption Protesto contou com cartazes, pessoas usando nariz de palhaço e vassouras brandidas

Um ato contra a corrupção realizado nesta terça-feira na Cinelândia, no centro do Rio, foi marcado por palavras de ordem e cartazes contra a impunidade, mas sem bandeiras partidárias.

Organizado por meio do Facebook, o protesto - batizado de Todos Juntos Contra a Corrupção – contou com mais de 30 mil confirmações de presença pela internet, mas atraiu cerca de 2.500 pessoas, segundo a Polícia Militar – os organizadores, por sua vez, estimaram o público em 4 mil.

O engenheiro Marcelo Medeiros, integrante da organização, considerou o evento positivo e disse que o importante foi despertar as pessoas.

"Se o público não foi gigantesco, foi o suficiente para criar uma célula e a partir daí ganhar força Brasil afora", diz Medeiros, que previu "repercussão internacional" para a manifestação.

Segundo outra integrante da organização, Cristina Maza, a iniciativa surgiu depois que uma reportagem no jornal espanhol El País afirmou que os brasileiros mobilizam milhões de pessoas em paradas gays e eventos evangélicos, mas não há movimentos contra a corrupção.

O evento começou às 17h, quando cerca de mil pessoas já se reuniam na praça, muitos colando no peito o adesivo do movimento, com a inscrição "Contra corrupção – Compartilhe honestidade".

O ato, que não era associado a partidos políticos, teve diversas reivindicações, com manifestantes condenando a impunidade, cobrando direitos de aposentados e professores, pedindo o fim do voto secreto no Congresso e exigindo soluções para o caso do bonde de Santa Teresa, parado desde o acidente que matou cinco pessoas no fim de agosto.

Já os organizadores colheram centenas de assinaturas em apoio ao projeto de lei que pretende considerar a corrupção um crime hediondo.

Público

A maior parte do público era formada por pessoas entre 30 e 50 anos, o que, para Maza, reflete a faixa etária dos organizadores e seus contatos na internet. Entre a classe estudantil, houve pouca adesão - embora alguns estudantes da época da ditadura tenham marcado presença.

"Eu estive nesta praça em 1968, na marcha dos cem mil", dizia a professora Maria Helena Martins Furtado, 67 anos, afirmando que, na época, a juventude era mais independente.

"Agora essas mobilizações estão sendo feitas pela internet, o que é importante também. Mas não atinge todo mundo, só as camadas mais escolarizadas", apontou.

"Essa mobilização nas redes sociais ainda não chegou no povão", diz o estudante russo Dmitry Storokov, 29 anos, radicado no Brasil desde 1998.

"Mas apóio muito. O importante é o pessoal começar a se mobilizar para que algo aconteça."

Image caption Cantora Letícia diz estar desolada com a política brasileira

Entre os adereços usados pelo público, estavam máscaras de burro, narizes de palhaço, bandeiras do Brasil ou vassouras para "varrer" a corrupção – distribuídas pelo movimento Rio de Paz, que na segunda-feira fincou as mesmas vassouras de cerdas verdes na praia de Copacabana para antecipar o protesto.

Já a escadaria da Câmara dos Vereadores foi ocupada por manifestantes, muitos deles com cartazes - como o da cantora Letícia Novaes, da dupla Letuce, que dizia simplesmente: "Eu estou triste".

"Acho mais fácil as pessoas terem raiva. Você grita, mas toma um chope e passa. A tristeza não, é mais profunda, e eu já estou em um estágio de desolação com a política brasileira", afirmou.

O ato contou com a presença de personalidades como os cantores Roberto Frejat e Fernanda Abreu, além de representantes de entidades de classe e movimentos sociais.

Alguns políticos circularam pela Cinelândia, mas apenas os organizadores discursaram no palanque, mantendo o caráter apartidário do ato.

Embora os organizadores dissessem que o número de participantes estava dentro do esperado, alguns dos presentes se disseram frustrados com a presença de público.

"Estou muito decepcionada. Estava esperando que a juventude se mobilizasse, mas os jovens não estão atentos ao que está acontecendo", afirmou Suzeli da Silva, 58 anos.

Já o advogado Jorge Roberto Correia, 70 anos, que trabalha ao lado da Cinelândia e prestigiou a manifestação, se disse satisfeito.

"O movimento pelas Diretas Já começou assim, devagarinho, com pouca gente. Depois vai engrossando, o pessoal vai tomando sentido da coisa. Com o impeachment do (ex-presidente Fernando) Collor também foi assim", disse.

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