Planejamento olímpico deve evitar erros do Pan, diz ‘prefeita’ da Rio-2016

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Image caption Para Bastos Marques, Olímpiada representa oportunidade única de mudar o Rio de Janeiro

Os Jogos de 2016 no Rio precisam de planejamento para o período pós-Olimpíada para evitar as críticas que foram feitas aos Jogos Panamericanos, segundo a presidente da Empresa Olímpica Municipal (EOM), Maria Silvia Bastos Marques.

Bastos Marques ressalta a importância de se pensar no legado dos jogos em função das críticas "pelo que aconteceu no dia seguinte" aos Panamericanos, que foram sediados pelo Rio em 2007 e acabaram custando R$ 3,5 bilhões, contra os cerca de R$ 400 milhões do orçamento inicial.

Empossada em agosto, a exatos cinco anos do início dos jogos, a presidente da EOM será a “prefeita da Olimpíada”, como apelidou o prefeito Eduardo Paes, e ficará responsável por coordenar os projetos relacionados aos jogos de 2016 e à Copa de 2014 no município.

Hoje com 54 anos, Bastos Marques foi secretária municipal da Fazenda no Rio nos anos 1990, diretora do BNDES e a única mulher a ocupar a presidência da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o que lhe rendeu o apelido de “dama de aço”. Antes de assumir a EOM, ocupava a presidência da Icatu Seguros.

Em entrevista à BBC Brasil, ela diz que a experiência acumulada nos setores público e privado lhe dá trânsito fácil entre as instâncias com que precisará lidar na nova função. Nascida em Bom Jesus do Itabapoana, no interior do Rio, adotou o Rio aos 17 anos e diz que sua paixão pela cidade e por esportes termina de credenciá-la para a nova função.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - Nesta sexta-feira começa o Rock in Rio, que será realizado na primeira obra que a prefeitura entregou para a Olimpíada, o Parque dos Atletas. É o primeiro uso dado a um projeto feito para os jogos. O espaço será aproveitado para outros eventos além desses?

Maria Silvia Bastos Marques - Estarei lá. Tenho dois adolescentes. E tenho lido nos jornais que já temos vários Rock in Rios planejados para a frente.

Temos que ter um planejamento do dia seguinte. Essa preocupação existe até porque já vivemos um evento no Rio sobre o qual existem muitas críticas, que é o Panamericano, pelo que aconteceu no dia seguinte. Primeiro, a gente aprendeu, alguns equívocos e erros foram feitos daquela vez. É importante que a população entenda que hoje temos uma oportunidade única de mudar a cidade. É muito diferente de qualquer coisa que já tenha acontecido aqui ou no país.

O Rio de Janeiro tem a história que todo mundo conhece, padecemos bastante com o esvaziamento da cidade, com a saída da capital, com situações não planejadas. Estamos pela primeira vez em décadas fazendo um processo planejado. Existe uma atração muito grande de investimentos. A cidade e o Estado do Rio estão vivendo uma dinâmica própria. Do petróleo, do gás; e das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Isso leva a cidade para um patamar diferente.

É impossível saber exatamente como vai ser depois. Mas todos os grandes projetos estão sendo pensados no modo Olimpíada e no modo pós-Olimpíada. O Parque Olímpico, o Porto Maravilha. Todos eles já têm uma visão do que vão se tornar depois. Quanto mais os jogos forem bem sucedidos, maiores as chances de no futuro termos mais turismo, mais investimentos e utilização para isso (os espaços construídos).

BBC Brasil - A senhora falou que lições foram aprendidas após os erros cometidos nos Jogos Panamericanos. Que lições foram essas, e quais foram erros que não devem ser repetidos?

Maria Silvia Bastos Marques - Os Jogos Panamericanos foram um grande aprendizado em todas as áreas. Desenvolveram mão-de-obra capacitada para trabalhar em grandes eventos, por exemplo. O Pan também deixou um grande legado esportivo. Tanto que todas as instalações construídas serão utilizadas nos Jogos Olímpicos. E foi um trunfo para que o Rio fosse escolhido como sede da Olimpíada.

Mas a preparação para os dois eventos é bem diferente. Para receber a Copa e os Jogos Olímpicos, a prefeitura tem seguido os cronogramas e planejado cada ação para deixar um legado tangível para a cidade. Todo o processo de preparação está sendo feito de maneira transparente e profissional. Qualquer cidadão pode acompanhar o andamento das obras e as ações da Prefeitura.

Outra diferença em relação aos Panamericanos é que a prefeitura vem buscando firmar parcerias público-privadas para diminuir o uso de dinheiro público nos projetos. O modelo já foi adotado na construção da Vila Olímpica, na reforma do Sambódromo e na revitalização do Porto.

BBC Brasil - Como vai ser a atuação da Empresa Olímpica Municipal? Até onde vai a sua atuação no papel de fiscalizar e coordenar os projetos? A senhora vai ter poder para estabelecer limites ou vetar projetos?

Image caption Algumas obras estão em andamento, mas orçamento ainda não está fechado

Acho que essas coisas vão se fazer na prática. Não existia essa função. O prefeito sintetiza dizendo que eu sou a prefeita das Olimpíadas. A ideia é que eu tenha a coordenação sobre tudo o que é relativo aos jogos. As atividades de obras, serviços, comunicação, numa atitude de coordenar, integrar e facilitar.

Nossa função na EOM também é ter sempre em vista o caminho crítico dos jogos, se algum projeto está em um caminho onde haja algum risco. Vamos olhar para as responsabilidades do município de uma forma macro. Cada secretaria está envolvida em sua função específica, e essa visão macro é uma visão de coordenação.

BBC Brasil - Em junho, quando uma comitiva britânica esteve no Rio, o ministro britânico de Cultura, Esporte e Olimpíada, Jeremy Hunt, falou sobre a importância da definição do orçamento para a organização de uma Olimpíada. Mas o Rio ainda trabalha com os valores estimados na época da candidatura. Quando teremos uma definição do orçamento dos jogos?

Não conheço como foi a experiência de Londres, e uma das coisas que vou fazer até o fim do ano é ir a Londres e ir a Barcelona para conhecer (os projetos das cidades-sede). Na realidade das Olimpíadas no Rio, leva um tempo para você ter esses valores fechados. Por quê? Primeiro, o dossiê já mudou de lá para cá. Dois esportes foram incluídos depois (da candidatura), o golfe e o rúgbi, e nós já mudamos pelo menos um projeto, a Vila de Mídia, que era na Barra e veio para o Centro. Eram projetos conceituais. Agora há obras que já começaram, então você tem orçamentos mais concretos, e também obras que estão ainda em pré-projeto. Não tem como você estar fechando um orçamento agora.

O que vamos fechar para a visita do COI (o Comitê Olímpico Internacional, que estará no Rio em novembro) é uma lista de todo os projetos que serão executados. Isso vai estar muito próximo do que será a lista final. Em seguida, vamos definir quem executa, se o governo federal, estadual e municipal, e quem financia.

BBC Brasil - Essas definições de que você fala são a Matriz de Responsabilidade para os Jogos, cuja definição tem sido cobrada há tempos. Há uma previsão para que esteja pronta?

Maria Silvia Bastos Marques - Isso, a tão famosa Matriz de Responsabilidade. Acredito que até o fim do ano tenhamos uma primeira estimativa. Mas mesmo até lá tem projetos que ainda vão estar no conceito. Não quer dizer que ela vai ficar ali congelada, ela pode sofrer mudanças depois.

BBC Brasil - Como tem sido o envolvimento do setor privado nos projetos para a Olimpíada, e qual é a participação que vocês consideram ideal?

Maria Silvia Bastos Marques - O ideal é que seja o máximo possível. São coisas novas no Brasil, você fazer coisas tão grandes. O projeto do porto, importantíssimo, foi feito de forma inovadora no Rio de Janeiro. Em São Paulo já se usava esse mecanismo dos certificados do potencial construtivo, mas no Rio nunca se tinha usado e é extremamente exitoso, está em curso (a prefeitura vendeu os chamados Cepacs da região portuária para financiar as obras de revitalização da área).

BBC Brasil - O alto custo da obra no Maracanã e a disparidade em relação à previsão de gastos inicial foram muito criticados no Rio. Como evitar que as obras custem mais que a estimativa inicial?

Maria Silvia Bastos Marques - Estamos tentando começar tudo o quanto antes. Exatamente para não ficar com essa pressão do tempo. Existe um senso de urgência muito grande, a gente sabe que quanto mais o tempo passar, é óbvio que surgem os imprevistos.

Tem questões como a série de desapropriações que precisam ser feitas. Isso é um processo negocial, que envolve discussões, é muito difícil. Não temos o controle absoluto dos prazos, mas a intenção é adiantar ao máximo os projetos para não ficar em cima na questão dos prazos.

BBC Brasil - As desapropriações que estão sendo feitas para abrir caminho para as obras de infraestrutura também têm sido alvo de críticas. Isso é algo que vocês também vão monitorar?

Maria Silvia Bastos Marques - Isso faz parte dos projetos. É certamente uma situação delicada, mas que precisamos enfrentar. O Rio sofre com essa questão há três décadas, pelo menos. Nós tivemos invasões em áreas de risco, que põem em risco a vida da população, e em áreas de preservação ambiental. Se nós não fizermos isso agora, eu não sei como vai ser a história do Rio de Janeiro. A cidade vai ficar inviável.

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