É tudo uma questão de dignidade, dizem palestinos em Ramallah

Hanin Shatara. Foto Guila Flint.BBC Direito de imagem Guila Flint BBC
Image caption Hanin Shatara reconhece dificuldades, mas acha que Abbas marcou posição frente ao mundo

Para muitos moradores de Ramallah, o pedido do presidente Mahmoud Abbas para o reconhecimento do Estado palestino nesta sexta-feira, perante a Assembleia Geral da ONU, foi uma experiência considerada reparadora. Embora reconheçam as dificuldades, muitos viram na proposta a oportunidade de marcar posição.

O discurso de Abbas foi transmitido por um telão em Ramallah, na Cisjordânia, para uma multidão que incluía de jovens a idosos, laicos a religiosos.

Para a maioria dos entrevistados pela BBC Brasil, quaisquer sejam os resultados concretos trazidos pela iniciativa de Abbas, o discurso valeu a pena.

"Somos 11 milhões de pessoas, como pode ser que não temos um Estado até hoje?", questiona o palestino Nadin, de 50 anos, dono de um salão de beleza no centro de Ramallah.

"Abu Mazen (apelido do presidente Abbas) tentou fazer a paz durante 18 anos e não conseguiu nada. O que mais poderia fazer?", disse.

Após o discurso de Abbas, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu também subiu à tribuna da ONU para condenar a iniciativa palestina.

Para o chefe de governo israelense, que conta com apoio dos Estados Unidos, o Estado palestino só é viável após um acordo de paz.

Assentamentos

Durante a conversa com a BBC Brasil, Nadin abre a torneira de seu jardim e mostra que não tem água.

"Você sabe quanta água têm os colonos nos assentamentos ao redor de Ramallah?", pergunta.

Um dos grandes empecilhos para o avanço das negociações de paz é a expansão de assentamentos israelenses em territórios palestinos, impulsionados durante o governo de Netanyahu.

Em cada sentença de Nadin transparece um sentimento de humilhação que, de certa maneira, foi amenizado quando Abbas apareceu, ao vivo, no telão da praça Manara, no centro de Ramallah, pedindo à ONU o reconhecimento do Estado Palestino.

Os palestinos pedem a delimitação de seu Estado a partir das fronteiras de 1967, que incluem a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental – territórios ocupados por Israel.

Mudança

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Image caption Najua Rizkallah e Laila não desistem da luta pelo Estado palestino; Israel quer antes acordo de paz

Hanin Shatara, 25 anos, ressalta que os Estados Unidos vão vetar o pedido de reconhecimento palestino e que "não haverá um Estado tão cedo".

Ainda assim, a professora de uma escola pública diz que "amanhã tudo será diferente".

"Depois do discurso do presidente me sinto melhor. O mundo ouviu nossa voz, falamos claro, marcamos nossa posição", afirmou Hanin.

"Agora todos sabem que estamos aqui e que estamos lutando de maneira pacífica para obter nossos direitos", acrescentou.

O ambiente pacífico de Ramallah contrasta, no entanto, com operações armadas de alguns militantes palestinos. A questão da segurança é um dos argumentos de Israel contra o reconhecimento do Estado palestino.

Resistência

Najua Rizkallah e sua mãe Laila Rizkallah, habitantes de Jerusalém Oriental, foram a Ramallah para assistir o discurso de Abbas na Praça Manara.

Najua, 52 anos, funcionária da ONU, diz que o povo palestino vai "continuar resistindo à ocupação".

"Vamos continuar lutando para ter nossa independência. Sou de uma família de refugiados e já passamos por muita coisa", diz.

Sua mãe, Laila, de 75 anos, conta que nasceu na cidade de Ramle e que em 1948 ela e seus familiares foram expulsos pelas tropas israelenses.

"Perdemos tudo o que tínhamos e nos tornamos refugiados", disse. "Já se passaram 63 anos desde então, é chegado o momento para que tenhamos finalmente nosso Estado".

Durante seu discurso, Netanyahu disse que "Israel está preparado para um Estado palestino na Cisjordânia, mas não a ter uma outra Gaza lá", em uma referência ao território controlado pelo grupo Hamas.

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Image caption Rimon Bosheh lembra que Israel pode retaliar reivindicação palestina e situação pode piorar

Adversário do Fatah, partido moderado de Abbas, o Hamas não reconhece a existência de Israel. O governo israelense também alega que a reivindicação palestina, ao ser levada para a ONU, aumenta as tensões bilaterais e não resolve as disputas pendentes entre os dois lados.

Desilusão

Rimon Bosheh, 50 anos, dono de um café na Praça Manara, demonstra menos entusiasmo com a reivindicação palestina.

"É verdade que hoje é um dia histórico para nós, mas acho que as coisas só vão piorar", afirmou.

"Tenho medo de ser otimista pois sempre que acontece alguma coisa boa para os palestinos, muitas coisas ruins vêm depois", disse.

Rimon cita possíveis represálias por parte de Israel, como o cerco às cidades palestinas e suspender o repasse de impostos à Autoridade Palestina, o que pioraria a situação econômica.

Ciente de que há um longo caminho pela frente até que os palestinos tenham seu próprio Estado, Rimon aponta para o filho Victor, de dez anos.

"Tenho dúvidas se Victor será cidadão de um Estado palestino independente, mesmo quando tiver 30 anos", afirmou.

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