Lucas Mendes: O grande polegar

Quem nunca teve a sensação de estar num filme? Roger Ebert, um dos mais influentes críticos de cinema dos Estados Unidos, escreve no primeiro parágrafo do seu recém -lançado Life Itself, seu 15º livro: "Nasci dentro do filme da minha vida".

São 44 anos de críticas. Escreve umas 200 por ano para dezenas de jornais americanos e europeus e apresenta um programa semanal na televisão.

Roger não fala, não come e não bebe. Respira graças a uma traqueostomia.

Há cinco anos, teve um câncer que começou na saliva, foi para para a tiroide e depois para a mandíbula. Optou por uma tratamento experimental mais arriscado que abreviaria o tempo de recuperação.

O câncer foi eliminado, o resultado estético, pavoroso. A mandíbula foi toda cortada. Três cirurgias de reconstrução fracassaram e ele se recusa a fazer uma quarta, como querem os médicos. Os tabloides ofereciam uma fortuna pela foto dele e durante meses Roger fugiu das câmeras, mas se reconciliou com a nova imagem e publicou a própria foto no blog. Assustou, mas acabou com o drama e não perdeu sua audiência e leitores.

O problema estético não era o mais grave para um homem que apreciava os prazeres da mesa, a conversa com os amigos e precisava da voz para viver. Quando se recuperava na cirurgia no hospital, a mulher, Chaz, e os amigos temiam que pudesse entrar numa depressão fatal.

A cada um pedia que descrevesse, a sensação de tomar um refrigerante ou do sabor de uma fruta. Insistia nos detalhes. Diga mais, implorava por escrito.

A voz dele chegou com Alex, um computador que fala quando ele bate no teclado e tem quase com o mesmo tom da voz original. É extraordinário.

Alex raramente erra, mas errou quando Ebert descrevia sua experiência do primeiro filme, A Day at the Races, dos irmãos Marx. Saiu Grouco, em vez de Groucho: "achei que ele era estranho e um pouco assustador". Anos mais tarde, quando conheceu Groucho, achou que ele era de fato um pouco estranho e um pouco assustador.

Sua primeira crítica foi para o jornal da universidade sobre La Dolce Vita, de Fellini, desde então uma paixão, mas seu primeiro emprego no jornal The Sun Times, de Chicago, foi como repórter. Quando o veterano crítico de cinema se aposentou, Roger assumiu o posto e oito anos depois ganhou o prêmio Pulitzer, o maior do jornalismo americano, o primeiro conferido a um critico de cinema.

Sua projeção nacional foi graças à televisão, quando criou um programa com o crítico da concorrência, Gene Siskel. Mostravam um clip do filme, davam suas opiniões e, no final, exibiam seus polegares, para cima ou para baixo. Two thumbs up, dois polegares para cima, tinham impacto nas bilheterias, mas a atração maior era o bate-boca entre eles, um precursor dos reality shows.

Siskel, seu grande amigo e parceiro, morreu de câncer em 1999, mas o programa continuou e Roger não perdeu sua ferocidade nos comentários. Quando não gostava mesmo de uma filme, como no caso de North, de Rob Reiner, era implacável: "Detestei este filme. Detestei. Detestei. Um insulto à inteligencia do público".

Para os conservadores é excessivamente liberal e usa com frequência a palavra "fascista" para se referir a filmes sobre lei e ordem, como Dirty Harry.

Nunca foi grande fã dos filmes de terror - um elitista, dizem os amantes do gênero -, mas jamais poderia imaginar que uma dia apareceria na televisão com uma aparência tão assustadora. Na primeira, vez você leva um choque, mas em poucos minutos a impressão se desfaz. Prevalece o conteúdo.

Se Frankenstein tivesse um programa de televisao e contasse uma boa historia, seria ou não um sucesso? Roger não é um monstro, mas não há nenhum apesentador como ele na televisão americana.

O crítico não gosta das listas dos dez melhores filmes - tem uma de 300 -, mas não conseguiu escapar delas e tem uma em ordem alfabetica: Aguirre, The Wrath of God; Apocalypse Now; Citizen Kane; Dekalog; La Dolve Vita; The General; Raging Bull; 2001: A Space Odyssey; Tokyo Story e Vertigo. Casablanca, misteriosamente, ficou de fora.

Roger está com 69 anos e, para quem passou tanto tanto tempo no escuro, Life Itself mostra uma vida iluminada. Polegar para cima.