Com oposição em crise, Cristina é favorita em pleito de domingo

Cartaz da campanha de Cristina Kirchner (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Cartazes foram os poucos sinais de uma campanha apática

Com a oposição argentina em crise, a presidente Cristina Kirchner é a favorita para vencer a eleição presidencial deste domingo. Segundo pesquisas de opinião, ela deverá ser reeleita com ampla margem de votos.

Levantamentos recentes indicam que ela receberia mais votos que todos os candidatos da oposição juntos, refletindo o quadro registrado nas eleições primárias de agosto. Na ocasião, definida como uma "pré-eleição geral", ela recebeu mais de 30 pontos percentuais que os demais candidatos.

"A intenção de votos na presidente cresceu mais ainda depois de agosto. E entre os opositores o único que subiu foi (Hermes) Binner, mas não o suficiente para ameaçá-la. E todos os demais caíram nas pesquisas", disseram os especialistas Mariel Fornoni, do instituto Management & Fit, e Artemio López, da Equis Consultores, durante entrevista aos correspondentes estrangeiros.

Para o sociólogo Ricardo Sidicaro, da Universidade de Buenos Aires (UBA), Cristina vencerá porque os demais candidatos não souberam "ser alternativa" ao atual governo.

"O governo não apresentou projeto de longo prazo. Não mostrou ainda como resolverá questões como a inflação. Teve um estilo de confrontação (com alguns setores). Mas Cristina vai ganhar porque é melhor que os candidatos da oposição", opinou.

Oposição 'desarticulada'

Para o analista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, se a oposição tivesse "unida e articulada", Cristina teria menor vantagem e talvez tivesse que disputar o segundo turno (previsto para novembro).

A crise da oposição se reflete na quantidade de candidaturas opositoras neste domingo – seis, no total.

"E os dois principais candidatos da oposição, (Eduardo) Duhalde e (Ricardo) Alfonsín, devem registrar drástica queda nas urnas em relação a agosto", afirmou Fornoni.

Duhalde governou o país entre 2002 e 2003 e apoiou a eleição do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), marido e antecessor de Cristina que morreu há quase um ano. Alfonsín é filho do ex-presidente Raul Alfonsín (1983-1989).

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Image caption Binner foi o único da oposição a crescer, em meio a críticas de desarticulação

"Cristina tinha 34% de aprovação quando Kirchner morreu. Mas não foi apenas por pena que subiu nas pesquisas. Os eleitores entenderam que ela soube administrar o país, mesmo sem resolver ainda a inflação", disse Mariel Fornoni.

No discurso de encerramento de sua campanha, a presidente disse: "Sem os meus filhos, Maximo e Florência, não teria sido possível (continuar)", disse.

'Falta de diálogo'

Para Fornoni, Cristina, ao contrário do marido, reduziu o nível de tensão com os opositores, diminuindo também a rejeição ao seu nome, principalmente entre as mulheres.

Mas a campanha chegou ao fim sem debates entre os presidenciáveis e com a oposição criticando a "falta de diálogo" do governo com seus adversários, como disseram os candidatos Alberto Rodríguez Saá e Elisa Carrió.

No atual ambiente, empresários evitam criticar o governo publicamente – "por favor, não coloquem meu nome", costumam dizer – por medo de "represálias" de autoridades da gestão oficial, e o governo segue com duras disputas com setores da imprensa.

Kirchner costumava levar cartaz para seus comícios dizendo: "(o jornal) Clarín mente" ou criticando abertamente o jornal La Nación, outro tradicional no país. A imprensa, por sua vez, se diz cerceada pelo governo. Num debate na televisão, na semana passada, jornalistas mostraram-se preocupados que "o confronto com a imprensa seja intensificado" num possível novo governo de Cristina.

'Cristinismo'

Ao final de uma campanha que transcorreu de forma apática, com aparente indiferença dos eleitores e poucos comícios de rua, Fraga e Sidicaro acham que a provável reeleição de Cristina confirmará o nascimento do que chamaram de "cristinismo" – sinônimo do movimento político da presidente.

"Mas pelo menos até agora o 'cristinismo' (de Cristina) e o kirchnerismo (do casal) têm um ponto em comum, que é a busca pela maior concentração de poder", disse Fraga.

Apesar das críticas, pesquisa realizada pela Universidade Católica Argentina (UCA) e pelo TNS Gallup, divulgada esta semana, indicou que aumentou a perspectiva positiva dos argentinos em relação ao futuro econômico do país.

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