Vida política de Khadafi inclui luta contra Apartheid e por União Africana

Khadafi e Nelson mandela (foto de 1999) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Mandela resistiu a pressão ocidental para cortar relações com Khadafi

Um neto de Nelson Mandela se chama Khadafi, sinal da grande popularidade do ex-líder líbio na África do Sul e em muitos outros países africanos.

Com sua imagem de revolucionário, Khadafi inspirou sul-africanos a lutarem por sua libertação ao financiar e armar um movimento contra o apartheid que combatia a minoria branca.

Mas ele também apoiou violentos grupos rebeldes na Libéria e em Serra Leoa. Sua queda serve de aviso aos demais "grandes líderes" que ainda resistem no continente.

Depois de se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994, Mandela rejeitou a pressão de líderes ocidentais, incluindo a do presidente americano Bill Clinton, para cortar laços com Khadafi, que financiou sua campanha eleitoral.

"Os que se irritam com nossa amizade com o presidente Khadafi podem pular na piscina", disse ele.

Mandela também contribuiu para acabar com o status de pária de Khadafi ao mediar um acordo com a Grã-Bretanha sobre o atentado de Lockerbie, de 1988.

A negociação levou Khadafi a extraditar Abdelbaset Ali Mohmed al-Megrahi, autor do atentado para ser julgado na Escócia. Ele foi condenado em 2001, mas foi libertado anos depois por razões humanitárias ao ser considerado doente terminal, decisão elogiada por Mandela.

Mandela considerou o acordo de Lockerbie uma de suas maiores vitórias no campo da política internacional.

"Ninguém pode negar que a amizade e a confiança entre África do Sul e Líbia tiveram papel significativo para se alcançar a solução. Ela reforça nossa visão de que o diálogo e a busca de soluções pacíficas permanece a melhor forma de resolver as diferenças e aumentar a paz e o progresso no mundo", disse ele em 1999, já no final de seu mandato presidencial.

"Foi por interesse próprio que pediram que a África do Sul virasse as costas à Líbia e ao coronel Khadafi, que nos ajudou na conquista da democracia", disse ele.

Paradoxo

A posição de Khadafi na África era paradoxal. Apoiou causas pró-democracia, mas também revoltas em países como Libéria e Serra Leoa, além do ditador de Uganda Idi Amin.

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Image caption Líbia e Egito estão entre os maiores financiadores da União Africana

No entanto, líderes africanos tendem a relevar isso.

"Quaisquer que sejam as falhas de Khadafi, ele é um verdadeiro nacionalista. Prefiro nacionalistas do que marionetes de interesses estrangeiros", disse o presidente de Uganda Yoweri Museveni em fevereiro.

"Assim, Khadafi, que pensa com sua própria cabeça, deu contribuições importantes para a Líbia, e também, acredito, para a África e para o Terceiro Mundo", disse ele.

"Devemos lembrar ainda que, como parte desta forma independente de pensar, ele expulsou bases militares britânicas e americanas da Líbia após tomar o poder", disse Museveni.

O ex-líder líbio tambem teve papel importante na formação da União Africana (UA), organismo sobre o qual ele tinha enorme influência, por ser um dos seus maiores financiadores.

Em um encontro da entidade em 2008, ele convenceu muitos líderes africanos a o declararem "rei dos reis" do continente.

Ele também pressionou pela criação dos Estados Unidos da África para rivalizar com os EUA e a União Europeia.

"Queremos militares africanos para defender a África. Queremos uma moeda única. Queremos um passaporte africano", disse ele.

Outros líderes africanos disseram apoiar esta visão, mas pouco fizeram para colocá-la em prática.

Violento

Em entrevista à BBC após a morte de Khadafi, o ministro das Relações Exteriores do Quênia, Moses Wetangula, disse que o ex-líder por vezes se mostrava violento durante encontros da entidade.

"Ele reprimiu o povo líbio ao ponto de, durante encontro da União Africana, estapear seu ministro das Relações Exteriores em nossa presença, o que não se espera de um chefe de Estado digno", disse Wetangula.

A especialista em UA do Instituto de Relações Internacionais da África do Sul, Kathryn Sturman, diz que a morte de Khadafi terá um efeito profundo na instituição.

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Image caption Zuma (esquerda): 'A União Africana funcionará melhor sem ele'.

"É o fim de uma era para a UA. A Líbia era um de seus cinco maiores financiadores, ao lado de África do Sul, Nigéria, Egito e Argélia, pagando 15% de seu orçamento e a mensalidade de países inadimplentes, como o Malawi", disse ela.

"O novo governo na Líbia não deve ser tão próximo da UA (que se opôs à intervenção da Otan no país)."

Sturman disse que, apesar de as finanças da UA poderem piorar, a entidade tem a chance de se tornar mais eficiente na era pós-Khadafi.

"Ele era obstinado com a ideia dos Estados Unidos da África e se opunha a tentativas de uma integração regional mais profunda."

Na semana passada, o presidente sul-africano, Jacob Zuma, cujo governo inicialmente apoiou a intervenção da Otan, mas a criticou posteriormente, manifestou visão parecida em discurso na semana passada.

"O coronel Khadafi passou muito tempo discutindo um governo unido para a África que é impossível de ser implementado atualmente. Ele estava com pressa para isso, possivelmente por querer chefiá-lo ele mesmo."

"Discuti com ele sobre isso diversas vezes. A UA funcionará melhor agora sem ele atrasando-a e sem que alguns membros se sintam intimidados por ele, como costumavam", disse Zuma.

É um segredo conhecido em círculos políticos que alguns líderes africanos também são intimidados pelo presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, que seguiu como firme aliado de Khadafi até sua morte.

Tendo liderado a luta do país por independência, Mugabe, no poder desde 1980, chama a oposição de marionetes do ocidente enquanto tenta se manter no cargo.

Mas como o fim de Khadafi mostrou, a retórica não tem mais tanto efeito com os africanos, posição defendida pelo vencedor do Nobel da paz, o arcebispo sul-africano Desmond Tutu.

"Ele (Khadafi) tinha esse sonho lindo sobre os Estados Unidos da África, assim como (o líder pós-colonial de Gana) Kwame Nkrumah, mas acredito que ele será lembrado pelo que aconteceu nos últimos dias de seu regime, quando atacou seu próprio povo."

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