Morte de Khadafi inicia difícil processo político na Líbia

Comemorações em Misrata (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Analistas dizem que Líbia ainda tem duros desafios pela frente

A captura e consequente morte do ex-líder líbio Muamar Khadafi na quinta-feira em sua cidade natal, Sirte, após 42 anos no poder, inicia um processo político "longo, difícil e árduo" no país, segundo analistas.

De imediato, o governo interino do Conselho Nacional de Transição (CNT) tem que tomar decisões de curto prazo e unir as diferentes posições tribais do país.

Segundo o CNT, a liberação do país será formalmente declarada no sábado na cidade de Benghazi, no leste da Líbia, onde a revolução contra o regime de Khadaffi começou em fevereiro deste ano.

O CNT sempre afirmou que formaria um novo governo interino em até um mês após a liberação e que eleições livres seriam realizadas em oito meses.

Lista de tarefas

"O novo governo da Líbia tem uma longa lista de tarefas pela frente", disse o analista Mahjoob Zweiri, especialista em política do Oriente Médio da Universidade do Catar.

"Uma das maiores será o desarmamento da população e a reintegração social de forma rápida para que se inicie a democratização do país."

Bahgat Korany, doutor em Ciência Política da Universidade Americana no Cairo, concorda que os líbios terão enormes desafios a partir de agora.

"O CNT deve dar especial atenção à construção da sociedade civil, partidos políticos, instituições, além, é claro, de promover o crescimento econômico e manter o país longe da influência de extremistas."

Para ele, a primeira tarefa é fazer o povo líbio "baixar suas armas e se desarmar", após meses de revolução armada contra o poder de Muamar Khadafi.

"Chegou a hora de colocar o emocional de lado e agir de forma racional e organizada. Os líbios precisam dar uma chance a esse governo interino e fortalecer a presença do Estado, mantendo a ordem nas ruas e desarmando os guerrilheiros que já cumpriram sua missão de derrubar o velho regime", disse Korany à BBC Brasil.

Sem herança democrática

Enquanto Egito e Túnisia já tinham instituições, modelos de governança e sociedades civis, mesmo que fracas, após a queda de seus regimes, a Líbia terá a dura tarefa de construir um modelo democrático e organizar um processo político, segundo o analista egípcio.

"Não há nenhum modelo a servir de base na Líbia. Khadafi Não deixou nenhuma herança institucional, nenhuma forma de processo eleitoral, tampouco partidos políticos. Tudo começará do zero, e isso vai gerar árduas e incessantes negociações", salientou Korany.

O analista explicou que nas décadas de 50 e 60, a Líbia teve um modelo de construção de instituições, quatro eleições gerais com mulheres tendo o direito ao voto e noção democrática, mesmo com os poderes quase absolutos do Rei Idriss 1°.

O golpe de Estado de 1969, liderado por Khadafi e sem derramamento de sangue, pôs fim a esse modelo, que ainda era modesto, e suspendeu a Constituição de 1951.

Segundo Korany, em seus 42 anos no poder, Khadafi transformou a Líbia em um país "sem memória coletiva sobre democracia e participação, em que duas gerações não sabem o que é votar".

"Hoje, a Líbia é um bebê que só agora começa a andar sozinho, depois de engatinhar por 42 anos sob a tutela de Khadafi", comparou.

De acordo com ele, o governo terá uma missão de instalar um sistema participativo de governança, que trará consenso entre as diversas tribos do país, detentoras de enorme influência entre a população e cruciais para o sucesso do governo interino.

"Não há, hoje, um líder unânime na Líbia. As conversas entre os representantes das diversas tribos, incluindo as que eram aliadas de Khadafi, serão importantes para definir o sucesso do processo político."

O analista enfatizou alguns passos a serem tomados pelo CNT para garantir que a revolução não perca seu momento histórico e pluralista como símbolo da vontade do povo.

"Deve haver reconciliação entre leais e opositores ao antigo regime, estabelecimento de um tipo de federalização para dar poder a tribos e regiões do país e investir no desenvolvimento", explicou.

Disputas internas no CNT

O analista Mahjoob Zweiri enfatiza o caráter "temporário" do CNT e afirma que ele deve agir exclusivamente como uma administração interina, sem entrar em disputas políticas até que algumas instituições, reconciliações e processos políticos estejam resolvidos, além de reativar a engrenagem econômica do país.

"O CNT cumpriu sua missão de derrubar Khadafi e seus seguidores. O conselho não deveria ser visto como uma elite dominante e, sim, como um reflexo das aspirações dos líbios. Mas além de manter a unidade do país, o CNT já enfrenta uma luta interna para manter sua própria unidade."

"Alguns sinais já surgiram. Alguns de seus membros já começam a ser questionados sobre suas ligações com o antigo regime", destacou Zweiri.

Segundo ele, há dois grupos distintos no cenário político líbio – o CNT e líderes políticos locais e militares. O primeiro é composto em sua maioria por ex-ministros e autoridades de Khadafi, que se juntaram à revolução no início do levante popular.

O segundo é formado por aqueles que tiveram um papel decisivo em liberar diversas cidades das mãos das tropas de Khadafi, milhares de ativistas e guerrilheiros reunidos em conselhos locais.

"Não se sabe ao certo se a sintonia entre estes dois grupos se manterá", questionou Zweiri.

Na quarta-feira, dia 19, antes mesmo do anúncio da morte de Khadafi, o primeiro-ministro interino, Mahmoud Jibril, falou à revista americana Time que ele desejava renunciar devido às lutas dentro do CNT.

"Nós caminhamos para uma batalha política, mas as regras do jogo não estão claramente definidas. Fomos de uma batalha nacional para uma política, e isso não deveria acontecer antes da criação de um Estado", declarou ele à revista, advertindo ainda para um cenário de caos.

Comentando sobre as palavras de Jibril, o analista Mahmoud Zweiri disse que as apreensões de Jibril não são uma surpresa.

"Eu não vejo sinais de uma liderança centralizada. São vários grupos distintos que cooperavam para derrubar Khadafi. Agora que ele se foi, cada um seguirá seus próprios interesses."

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