Tunisianos dizem por que vão às urnas na 1ª eleição após Primavera Árabe

Os tunisianos estão indo às urnas para escolher o novo governo neste domingo, na primeira eleição geral do país desde a queda do presidente Zine el-Abidine Ben Ali em janeiro.

O partido do ex-presidente, União Democrática Constitucional, que esteve no poder por 23 anos, foi derrubado depois que os cidadãos foram às ruas durante a revolução que inspirou protestos anti-governo em outros países do Oriente Médio, na chamada Primavera Árabe.

Tunisianos dentro e fora do país disseram à BBC o que as eleições significam para eles.

Hisham Hamdy, 24 anos, Tunísia

Eu não participei das eleições anteriores porque elas foram claramente fraudadas.

O presidente e seu partido sempre ganharam com margens irreais de votos. Desde a revolução, no entanto, tudo está mais claro e não há sinais de manipulações.

Isso ficou evidente para mim quando eu fui me registrar para estas eleições e vi o tipo de tecnologia que eles estavam usando para prevenir fraudes.

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Image caption Hisham Hamdy diz que islâmicos não são ameaça nas eleições

Alguns partidos estão gastando dinheiro para conseguir muita exposição na TV, na internet e nos jornais.

Outros, com menos dinheiro, não conseguem competir e, por causa disso, os eleitores podem não conhecer alguns dos novos partidos.

Meu único medo é que apoiadores do antigo regime usem sua riqueza para entrar na política com novas caras e nomes.

Os islâmicos não me parecem uma ameaça porque eles costumam afastar e inspirar o medo nos tunisianos.

Eu espero que a Assembleia Constituinte consiga criar empregos para a juventude porque esta é a maior necessidade no momento.

Conseguir isso ajudará a Tunísia a seguir em frente e permitirá que os tunisianos aproveitem seu novo estado democrático.

Nouha Turki, Susah, Tunísia

Estamos esperando pelas eleições com uma mistura de esperança e apreensão. Nós acreditamos que o dia 23 de outubro será decisivo, mas alguns estão com muito medo de uma guerra civil.

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Image caption Nouha Turki diz que governo interino deve sair do poder na Tunísia

A maioria, na verdade, acha que o partido Nahda vai conseguir a maioria dos votos e acredita que se o Nahda não conseguir uma vantagem de pelo menos 20%, como foi previsto, terá havido corrupção.

Outros temem que as eleições sejam sabotadas por grupos extremistas que podem facilmente recorrer à violência – como vimos em eventos recentes na Faculdade de Ciências Humanas de Sousse, quando eles atacaram o secretário geral que se recusou a matricular uma estudante usando o niqab (véu que cobre todo o rosto, deixando de fora somente os olhos).

Também estamos otimistas com a Assembleia Constituinte.

Acreditamos que há pessoas qualificadas e dignas de representar o povo tunisiano e que têm a capacidade de escrever uma nova constituição, que precisa muito de mudanças após anos de violações.

Como jovem cidadã tunisiana, eu acredito que o governo interino deveria deixar o poder porque sua missão foi cumprida.

Queremos ver novas caras e ficamos chocados ao saber que o primeiro-ministro Beji Caid Essebsi pretende concorrer nas eleições presidenciais.

Acho que é hora de ele se aposentar e escrever suas memórias.

Mohammed Bani, 36 anos, Grã-Bretanha

A Assembleia Constituinte sera vital porque é a primeira eleição realmente eleita na história moderna da Tunísia.

Eu quero uma constituição que garanta direitos e liberdades e que seja baseada na igualdade e na justiça.

Isso vai assegurar que a Tunísia se junte a estados progressistas.

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Image caption Mohammed Bani acredita que a Tunísia está em uma fase inevitável da revolução

Eu quero um governo revolucionário que cobre justiça dos membros do antigo regime que ainda estão, em grande medida, exercendo influência na economia e na mídia.

Eu não votei antes porque eu achava que era fútil. Mas dessa vez as eleições devem ser transparentes.

Mesmo que a mentalidade seja a mesma, as exigências das pessoas vão impedir qualquer má prática eleitoral e fraude.

As eleições não serão completamente democráticas, mas pelo menos não serão fraudadas.

Mesmo que muitos partidos sejam muito influenciados e financiados pelo regime anterior, boicotar as eleições completamente é, na minha opinião, um erro de julgamento.

O que ocupa minha mente nesse momento é fazer oposição aos partidos que foram formados por figuras do antigo regime.

Há partidos honestos e bem informados, mas eles são eclipsados pelos mais de 40 partidos que políticos do governo anterior criaram. São eles que me preocupam.

Em geral, estou otimista e credito que nós estamos passando por uma fase inevitável da revolução. A Tunísia sairá melhor de tudo isso.

Osama Sagheer, 29 anos, Itália

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Image caption Osama Sagheer é um dos candidatos do partido favorito nas eleições tunisianas

Através do meu trabalho conseguindo apoio para os refugiados árabes na Itália, eu me familiarizei com os processos internos da sociedade civil e decidi me candidatar para as eleições da Assembléia Constituinte.

Eu sou um membro do partido Nahda (Renascimento, em tradução livre). Os princípios islâmicos moderados do partido e sua crença no pluralismo político combinam comigo.

Porque eu acredito que a eficiência da sociedade civil é essencial para a democracia, eu lutarei para que a participação (da sociedade) seja um direito constitucional garantido, que não precise de permissões governamentais – de modo similar à União Europeia.

Toda a confusão sobre a identidade do Estado tunisiano é irrelevante porque a identidade do povo tunisiano é clara: eles são árabes e muçulmanos.

O que nós precisamos é de democracia, crescimento econômico e sociedade civil eficiente.

Zouhaier Khelifa, 47 anos, Monastir, Tunísia

A vida mudou muito desde que o regime anterior foi derrubado.

Logo depois, o país ficou um tanto sem leis e nós tínhamos medo de estar na rua após as 17h, porque havia pessoas causando problemas nas ruas.

Nas últimas duas semanas, a polícia começou a agir e está tentando arrumar tudo antes que as eleições aconteçam.

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Image caption Zouhaier Khelifa diz que está encorajando os jovens a participarem da eleições

Eu estou muito excitado com as eleições. Eu tenho 47 anos e é a primeira vez que realmente poderei votar em meu próprio país.

No entanto, estou triste de saber que 48% da população não se registrou para votar.

Eu acho que – especialmente para as pessoas mais velhas, pelo menos – isso acontece porque a mudança é muito extrema.

Muitos deles só viram dois presidentes e eu não acho que eles entendem que seu voto fará a diferença.

Eu não decidi em que partido votar, mas eu quero ver todo mundo empregado e quero que nós encorajemos os turistas a voltarem para a Tunísia.

Eu tenho saído e tentando encorajar os mais jovens a votarem. Eu realmente quero ver eleições de verdade nesse país.

Se o país fosse corretamente governado, ele deveria ser rico e um bom lugar para as pessoas viverem.

Ghait Bellahirich, Nabul, Tunísia

Não mudou muita coisa desde que Ben Ali foi deposto. Ainda estamos esperando que a situação melhore depois da eleição.

Eu acho que a maioria das pessoas não sabe nada sobre todos os candidatos diferentes, exceto pelos quatro ou cinco grupos principais.

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Image caption Ghait Bellahirich diz que não confia em nenhum dos partidos tunisianos

Há um par de bons partidos que podem dar o que as pessoas querem – eles podem ser úteis ao país.

Mas eu não estou tão animado para votar, não confio realmente em nenhum dos partidos.

A única pessoa de quem eu gosto é Kamel Morjane. Ele era parte do governo anterior.

Ele tem uma reputação muito boa aqui na Tunísia. Estava realmente trabalhando para o bem do país.

Algumas pessoas acham que nós deveríamos afastar todas as pessoas que trabalharam para o regime anterior, mas alguns deles tem experiência.

Eu acho que a maioria das pessoas não está satisfeita com o governo interino.

Eles acham que é uma extensão do governo de Bem Ali. Há muitos grupos religiosos, mas eu não concordo com alguns deles.

Eles são extremistas e estiveram envolvidos em ataques terroristas. Eles gostariam de um estado islâmico.

Isso não iria funcionar porque temos muitas outras religiões aqui.

Youssef Attig, Túnis, Tunísia

Meu sentimento é de que os partidos não estão dizendo às pessoas tudo que eles deveriam.

O resultado é que o eleitorado está muito confuso.

Os partidos estão falando sobre o que eles farão quando o parlamento for eleito, mas não tem planos claros sobre o que fazer antes disso.

As pessoas precisam saber quais são as políticas sobre igualdade sexual, se o partido é islâmico, se haverá um (sistema de) governo presidencialista ou parlamentarista.

Eu acho que há pouca transparência em alguns desses partidos, especialmente no islâmico.

O partido islâmico está criando problemas – ouvimos em muitas ocasiões que haverá protestos sobre a obrigatoriedade de mulheres usarem o niqab.

No entanto, acho que o que quer que aconteça será muito melhor do que o que tínhamos antes.

Acho que as eleições irão bem. O comitê preparou tudo muito bem.

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