Só rigor com denúncias pode salvar imagem de eventos esportivos no Brasil, dizem analistas

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Image caption Aldo Rebelo assume o ministério dos Esportes após escândalo. Foto: José Cruz/ABr

Após as denúncias de corrupção no Ministério do Esporte, o Brasil precisa enfrentar o problema abertamente e ser firme nas investigações para evitar que a organização da Copa e das Olimpíadas seja manchada, dizem analistas internacionais ouvidos pela BBC Brasil.

"É muito importante lidar com a questão e passar uma mensagem clara para o mundo", diz Sylvia Schenk, consultora-chefe para esportes na ONG Transparência Internacional, sediada em Berlim.

"As coisas precisam ser esclarecidas e o Brasil deve trabalhar para que nenhum outro escândalo apareça nos próximos anos de preparação."

Integrante do Comitê Olímpico Internacional (COI), o advogado Dick Pound considera que o episódio ocorreu distante o suficiente dos eventos para não causar estragos maiores. Mas destaca que, agora, mais atenção será prestada às ações do ministério para averiguar se as coisas estão sendo feitas de maneira transparente e guiadas por uma conduta ética.

"Se não estiverem, haverá problemas. Espero que o Brasil e todos os partidos entendam que isso atrapalha a organização tanto dos Jogos Olímpicos quanto da Copa do Mundo e, se não for tratado com seriedade, pode trazer problemas muito mais sérios", diz o canadense, fundador da Agência Mundial Antidoping.

Nesta segunda-feira, Aldo Rebelo (PC do B) assume o Ministério do Esporte após a renúncia do ex-ministro Orlando Silva, do mesmo partido, na última quarta-feira. Silva caiu após denúncias de que teria recebido repasses ilegais de ONGs beneficiadas por programas de sua pasta.

Pound afirma que a questão real para o Brasil agora é "como vai responder e que passos vai tomar para que nada assim ocorra novamente". Ele foi vice-presidente do COI e liderou os inquéritos na entidade após o escândalo de suborno ligado à candidatura de Salt Lake City para os Jogos de Inverno de 2002.

As denúncias estouraram quatro anos antes, em 1998. Pound diz que a crise foi tão grave que chegou a colocar em risco a continuidade do COI, e só pôde ser sanada com investigações sérias, feitas às claras, e a expulsão dos envolvidos. Após a crise, o COI passou a ser regido por um código de ética.

Pressa para investigações

Sylvia Schenk considera que a preocupação em manter limpa a imagem do Ministério do Esporte deve se estender também ao Comitê Organizador Local (COL) da Copa de 2014. Ricardo Teixeira, presidente do COL e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), enfrenta denúncias de corrupção.

"É importante investigar e esclarecer as acusações feitas ao Sr. Teixeira o mais rápido possível", diz Schenk. "É responsabilidade dele que não haja qualquer acusação recaindo sobre esta função tão importante que é a de presidente do comitê organizador."

Teixeira está sendo investigado pela Polícia Federal, que instaurou um inquérito em meados de outubro para apurar denúncias de lavagem de dinheiro e do recebimento de transferências ilegais de dinheiro.

Os repasses seriam provenientes da extinta empresa de marketing esportivo ISL, que atuava como parceira da Fifa nos anos 1990. A companhia teria pago propina a dirigentes da entidade para poder comercializar os direitos de transmissão e anúncios publicitários dos mundiais daquela década. Uma investigação feita pelo programa Panorama, da BBC, disse que Teixeira seria um desses dirigentes.

Na semana retrasada, o presidente da Fifa, Sepp Blatter, surpreendeu ao anunciar a intenção de submeter os documentos sobre o caso ISL a uma investigação externa, o que envolve revelar a identidade de dirigentes que receberam propina. A Fifa vinha bloqueando tentativas de jornalistas de terem acesso documentos a respeito.

Fuga de investimentos

Para Schenk, o Brasil deve levar em conta o caso da Índia para ver como um escândalo de corrupção pode ter repercussão negativa para um país. No ano passado, denúncias de corrupção entre membros do comitê organizador dos Jogos da Commonwealth, sediados pelo país, macularam o evento.

"Como os escândalos estouraram logo antes dos jogos, tudo que se escreveu sobre o evento foi sobre a corrupção na Índia, e até hoje é assim", afirma. "O Brasil deve tomar cuidado para não ter o mesmo destino."

Para ela, o principal efeito que as denúncias que levaram à queda de Orlando Silva podem ter de imediato é afastar investimentos internacionais, gerando a percepção de que há risco de corrupção na organização dos megaeventos.

"Se as grandes empresas tiverem a impressão de que há corrupção circundando a Copa e a Olimpíada, elas podem se retrair. Os players globais não querem qualquer risco para sua reputação e avaliam com muito cuidado onde estão investindo o seu dinheiro", diz Schenk.

Como medidas preventivas para a corrupção rumo aos megaeventos, Schenk e Pound citam uma lista de controles necessários: o estabelecimento de códigos de ética claros; contratos e processos de licitação transparentes; a designação de um observador externo independente para acompanhar cada projeto, com acesso a todos os documentos relacionados; e um marco regulatório forte contra a corrupção no país.

Isso além da seriedade com que denúncias devem ser encaradas.

"Se o resultado de uma investigação apontar para qualquer ato de corrupção ou para a violação de regras no passado, isso precisa ter conseqüências", diz Schenk.

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