Investir em fundo de resgate europeu pode beneficiar Brasil, dizem analistas

Manifestantes contra o G20, em Cannes. Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Plano europeu prevê que países emergentes participem de Fundo Europeu de Estabilização

O Brasil e outros países emergentes ganhariam força ao eventualmente investir no Fundo Europeu de Estabilização Financeira, que deve ser ampliado para poder evitar o contágio da crise da dívida na zona do euro, afirmam analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Segundo esses analistas, a participação de emergentes no fundo europeu daria a esses países ganhos politicos e econômicos.

No campo político, países como China e Brasil teriam, por exemplo, maior força para exigir mais voz em organismos como o FMI. No campo econômico, a ajuda à Europa, se bem sucedida, evitaria que as exportações de emergentes para o mercado europeu fossem afetadas por uma crise na demanda.

De olho no dinheiro dos emergentes, a União Europeia (UE) está fechando com o Fundo Monetário Internacional (FMI) os detalhes de um mecanismo especial de investimento para atrair capital estrangeiro, privado e público, para o fundo de resgate, criado em 2010 para ajudar os países da zona do euro que enfrentam problemas econômicos.

O objetivo é ampliar a capacidade de financiamento do fundo de resgate dos atuais 440 bilhões de euros para um trilhão de euros, sem nenhum custo para os 17 países da zona do euro.

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Segundo um funcionário europeu, a UE quer aproveitar a cúpula do G20 de Cannes, nesta quinta e sexta-feira, para estudar o interesse de seus sócios, em particular Brasil, Rússia e China, em contribuir com o fundo.

Papéis invertidos

Segundo Michael Pettis, professor de Finanças na Universidade de Pequim, o aumento no fluxo de capital estrangeiro para a UE favoreceria os países emergentes.

"Importar capital significa exportar demanda. A UE está trocando crescimento e empregos a médio prazo por financiamento a curto prazo para credores", disse em entrevista à BBC Brasil.

Pettis recordou que o ex-líder soviético Vladimir Lenin defendia o argumento do economista britânico John Hobson de que os países europeus dominaram suas colônias exportando capital em troca de um aumento na demanda por importações.

"É engraçado que hoje países em desenvolvimento na Ásia estejam dispostos a exportar capital a países ricos justamente por essa razão", observou.

O professor considera "pura bobagem" a ideia europeia de "pedir dinheiro estrangeiro" e acredita que a medida pode agravar ainda mais a situação econômica do bloco.

"Isso (o plano europeu) é um absurdo. A UE precisa de crescimento, não de capital. A razão pela qual governos europeus periféricos não conseguem se financiar não é falta de dinheiro, mas simplesmente porque sua solvência está sendo questionada pelos investidores, e com razão", opinou.

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Catalisador

Para Janis Emmanouilidis, analista do Centro de Política Europeia, um centro de estudos independente com sede em Bruxelas, o lançamento do mecanismo especial de investimento pode servir como um "catalisador" para o fortalecimento do papel dos países emergentes, iniciado antes da crise do euro.

"Dependendo de qual será a participação desses países (no fundo de resgate) e do que pedirão em troca a seus sócios europeus, seu papel poderá se fortalecer ainda mais. Seria interessante para eles mudar as regras da governança multilateral, reformando ou adaptando o FMI, por exemplo", avaliou.

De acordo com o diretor do fundo de estabilização, Klaus Regling, os países asiáticos compraram 40% dos títulos emitidos pelo fundo este ano, mas não foram revelados dados por países.

No mundo emergente, a principal possível fonte de recursos para a Europa é a China, o país com o maior volume de reservas do mundo (US$ 3,2 trilhões).

Especula-se que a China possa ter interesse em adquirir entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões em títulos europeus que seriam emitidos pelo novo mecanismo do fundo de estabilização. A "ajuda" à Europa, no entanto, é um assunto polêmico na China, e o governo já deu alguns sinais contrários à participação chinesa no fundo.

O Brasil também é visto como uma dessas possíveis fontes de financiamento. No entanto, após promessas vagas da presidente Dilma Rousseff de ajuda à Europa, durante sua recente visita à região, o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, já afirmou que o governo não tem interesse em investir em títulos de países europeus.

Porém, mais que motivação comercial ou política, os países emergentes também teriam necessidade de contribuir com o fundo de resgate europeu para evitar que suas próprias economias sejam afetadas, segundo Emmanouilidis.

"Isso pode ajudar a zona do euro a superar a crise. Se a crise acaba se agravando, não só ameaçaria o euro e a zona do euro, como teria um preço muito alto para toda a economia global", analisou.

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